Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas (Romanos 1:20)
Os antigos filósofos gregos ficavam impressionados com a ordem que há por todo o cosmo. As estrelas e os planetas em sua constante evolução pelo céu noturno eram algo que os impressionava de modo especial. Os acadêmicos dedicavam tempo e reflexão consideráveis ao estudo da astronomia, pois, como acreditava Platão, esta era a ciência que despertaria o homem para seu destino divino. Segundo Platão, havia duas coisas que levavam a humanidade a acreditar em Deus: o argumento sobre a existência da alma e o argumento “sobre a ordem do movimento das estrelas e de todas as coisas sob o domínio de uma Mente que colocara ordem no universo” (Leisxn, 966e.).
Platão usou esses argumentos para refutar o ateísmo e concluiu que deve haver uma “alma superior” que e o Pai e Criador de tudo, o “Rei” que colocou ordem no caos anterior, transformando-o no cosmo racional que observamos hoje (Leisx, 893b— 899c). Uma declaração ainda mais magnífica sobre o design divino pode ser encontrada em um fragmento de uma obra perdida de Aristóteles intitulada Da Filosofia. Ele também ficava tomado de profundo encanto diante da amplitude das hostes brilhantes através do céu noturno da Grécia antiga. Qualquer pessoa que já tenha pessoalmente se dedicado a estudar os céus deve dar ouvidos a esses filósofos da antiguidade que observavam o céu à noite, intocado pela poluição, e o brilho das luzes noturnas, e assistiam o girar lento mas irresistível do cosmo, repleto com seus planetas, estrelas e constelações conhecidas diante de seus olhos e se indagavam: O que causa tudo isso? Aristóteles concluiu que a causa era uma inteligência divina. Ele imaginava o impacto que a visão do mundo teria sobre uma raça de homens que tivesse vivido no subterrâneo sem jamais ter visto o céu:
Quando, então, eles tivessem de súbito a visão da terra, dos mares e do céu; quando eles viessem a conhecer a imensidão das nuvens e o poder dos ventos; quando eles vissem o sol e viessem a conhecer sua grandeza, sua beleza, bem como seu poder de fazer nascer o dia, ao lançar luz sobre o céu; e quando a noite outra vez tivesse lançado suas sombras sobre a terra e quando então eles pudessem admirar o céu salpicado e enfeitado de estrelas; e quando eles pudessem ver as mutantes luzes da lua, à medida que ela se enche e míngua, e o nascer e o se pôr de todos esses corpos celestiais com seus cursos fixos e imutáveis por toda a eternidade — quando eles admirassem todas essas coisas, eles, com toda certeza teria chegado à conclusão de que os deuses existem e que todas essas coisas maravilhosas são obras de suas mãos
– Da Filosofia
Em sua Metafísica, Aristóteles levou adiante o argumento de que deve existir uma causa primeira não causada, que é Deus — um ser vivo, inteligente, imaterial, eterno e supremamente bom, que é a ponte de toda a ordem do cosmo.
Quem ler as obras desses filósofos da antiguidade não pode evitar pensar nas palavras de Paulo em sua carta aos Romanos: “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas” (Rm 1.20). Desde os primeiros tempos homens que desconheciam completamente a Bíblia chegaram à conclusão, com base no desenho do universo, que deve existir um Deus.
O renascer do design divino
Muitos astrônomos de hoje, em consequência de recentes descobertas, estão chegando a essa mesma conclusão.
Os cientistas costumavam pensar que como quer que tenha sido o universo em sua origem, dados tempo suficiente e algum acaso, formas de vida inteligente como o próprio ser humano viriam a se desenvolver com o tempo. Devido a descobertas feitas ao longo dos últimos quarenta e poucos anos, hoje sabemos que esse pressuposto estava errado. De fato, a verdade é exatamente o oposto disso.
Os astrônomos ficaram boquiabertos com a descoberta de quão complexo e delicado equilíbrio das condições iniciais deveria estar presente no próprio big bang, para que se tornasse possível existir no universo formas de vida inteligente onde quer que fosse no cosmo.
Esse delicado equilíbrio das condições iniciais veio a ser conhecido como o ajuste preciso (ou “sintonia fina”) do universo para a vida. O homem veio a descobrir que o universo é precisamente ajustado para a existência de vida inteligente com uma complexidade e delicadeza que literalmente desafiam a compreensão humana.
Dois tipos de ajustes precisos
Há dois tipos de ajustes precisos. O primeiro envolve as constantes da natureza e o segundo envolve certas quantidades físicas arbitrárias.
Constantes da natureza
Vamos falar primeiro das constantes da natureza. O que é uma constante? Quando as leis da natureza são expressas na forma de equações matemáticas, nota-se que aparecem nessas equações certos símbolos que representam quantidades imutáveis, como a força da gravidade, a força eletromagnética e a força subatômica “fraca”.
Essas quantidades imutáveis são chamadas constantes. As leis da natureza não determinam o valor dessas constantes. E possível que tivessem existido universos governados por essas mesmas leis da natureza ainda que essas constantes tivessem tido outros valores. Logo, o valor atual das várias constantes não é determinado pelas leis da natureza. Dependendo dos valores dessas constantes, universos controlados pelas mesmas leis da natureza pareceriam diferentes.
Quantidades arbitrárias
Além dessas constantes, existem certas quantidades arbitrárias que são meramente colocadas como condições iniciais dentro das quais as leis da natureza operam. Por serem arbitrárias essas quantidades também não são determinadas pelas leis da natureza. Um exemplo disso seria a quantidade de desordem termodinâmica (ou entropia) no universo de origem. Foi apenas dada no Big-Bang, como uma condição inicial, e então as leis da natureza assumiram o controle e determinaram como o universo evoluiria dali para frente. Se as quantidades iniciais tivessem sido diferentes, então as leis da natureza iriam prever que o resultado seria um universo bem diferente do que hoje conhecemos.
Definição de “precisamente ajustado”
Agora, o que os cientistas ficaram surpresos em descobrir é o fato de que essas constantes e quantidades devem se encaixar em um âmbito de valores extraordinariamente restrito para que possa permitir a existência de vida no universo. É isso que se pretende significar quando se diz que o universo é precisamente ajustado para a vida.
Exemplos desse ajuste preciso
O ajuste preciso nesse sentido neutro é algo incontroverso e bem estabelecido. Os físicos têm diversos exemplos de ajuste preciso. Antes de compartilhar alguns, permita-me lhe dar alguns números para que possa sentir a sofisticação desse ajuste preciso. O número de segundos em toda a história do universo é cerca de 10^17 (ou seja, o número 1 seguido por dezessete zeros: 100.000.000.000.000.000). Afirma-se que o número de partículas subatômicas em todo universo é cerca de 10^80 (o número 1 seguido por oitenta zeros). Tais números são tão grandes que são simplesmente incompreensíveis.
Agora, com esses números em mente, considere os seguintes exemplos de ajuste preciso. A chamada força fraca, uma das quatro forças fundamentais da natureza, que opera dentro do núcleo de um átomo, é algo tão precisamente ajustado que uma alteração em seu valor que fosse de uma parte em 10^100 teria impedido a existência de vida no universo! De modo semelhante, uma alteração na chamada constante cosmológica, que dirige a aceleração da expansão do universo, que fosse de uma parte em 10^120 teria resultado em um universo onde a vida não seria possível.
Roger Penrose, da Universidade de Oxford, calculou que as chances de que o estado de baixa entropia venha existir exclusivamente por acaso está na ordem de uma chance em 10^10 (123), um número que é tão inconcebível que chamá-lo de astronômico seria uma grosseira simplificação.
O ajuste preciso aqui está além da compreensão. Ter uma precisão de sequer uma parte em 10^60 é como mirar com um revólver em direção ao outro lado do universo observável, distante 20 bilhões de anos-luz, e acertar um alvo de 1 polegada!
[Outras constantes]:
Constante antrópica 1: Nível de oxigênio. Aqui na Terra, o oxigênio responde por 21 % da atmosfera. Esse número preciso é uma constante antrópica que torna possível a vida no planeta. Se o oxigênio estivesse numa concentração de 25%, poderia haver incêndios espontâneos; se fosse de 15%, os seres humanos ficariam sufocados.
Constante antrópica 2: Transparência atmosférica. Se a atmosfera fosse menos transparente, não haveria radiação solar suficiente sobre a superfície da Terra. Se fosse mais transparente, seríamos bombardeados com muito mais radiação solar aqui embaixo (além da transparência atmosférica, a composição da atmosfera, com níveis precisos de nitrogênio, oxigênio, dióxido de carbono e ozônio, é, por si só, uma constante antrópica).
Constante antrópica 3: Interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Enquanto começam a se preparar para circundar a Lua, os astronautas deparam-se com outra constante antrópica. Essa constante está relacionada à interação gravitacional que a Terra tem com a Lua. Se essa interação fosse maior do que é atualmente, os efeitos sobre as marés dos oceanos, sobre a atmosfera e sobre o tempo de rotação seriam bastante severos. Se fosse menor, as mudanças orbitais provocariam instabilidades no clima. Em qualquer das situações, a vida na Terra seria impossível.
Constante antrópica 4: Nível de dióxido de carbono. É claro que esse tipo de implementação não é necessária aqui na Terra porque a atmosfera terrestre mantém o nível correto de dióxido de carbono. Essa é outra constante antrópica. Se o nível de CO2 fosse mais alto do que é agora, teríamos o desenvolvimento de um enorme efeito estufa (todos nós seríamos queimados). Se o nível fosse menor, as plantas não seriam capazes de manter uma fotossíntese eficiente (todos nós ficaríamos sufocados).
Constante antrópica 5: Gravidade. Sua força pode ser impressionante, mas não poderia ser em nada diferente para que a vida existisse aqui no planeta. Se a força gravitacional fosse alterada em 0,00000000000000000000000000000000000001 por cento, nosso Sol não existiria e, portanto, nós também não. Isso é que é precisão!
O alcance da precisão do Universo faz o princípio antrópico ser talvez o mais poderoso argumento para a existência de Deus. Não se trata de simplesmente haver algumas constantes definidas de maneira bem aberta que talvez tenham aparecido por acaso. Não. Existem mais de cem constantes definidas com bastante precisão que apontam definitivamente para um Projetista inteligente. Já identificamos cinco delas. Vejamos outras dez:
1. Se a força centrífuga do movimento planetário não equilibrasse precisamente as forças gravitacionais, nada poderia ser mantido numa órbita ao redor do Sol.
2. Se o Universo tivesse se expandido numa taxa um milionésimo mais lento do que o que aconteceu, a expansão teria parado, e o Universo desabaria sobre si mesmo antes que qualquer estrela pudesse ser formada. Se tivesse se expandido mais rapidamente, então as galáxias não teriam sido formadas.
3. Qualquer uma das leis da física pode ser descrita como uma função da velocidade da luz (agora definida em 299.792.458 m por segundo). Até mesmo uma pequena variação na velocidade da luz alteraria as outras constantes e impediria a possibilidade de vida no planeta Terra.
4. Se os níveis de vapor d’água na atmosfera fossem maiores do que são agora, um efeito estufa descontrolado faria as temperaturas subirem a níveis muito altos para a vida humana; se fossem menores, um efeito estufa insuficiente faria a Terra ficar fria demais para a existência da vida humana.
5. Se Júpiter não estivesse em sua rota atual, a Terra seria bombardeada com material espacial. O campo gravitacional de Júpiter age como um aspirador de pó cósmico, atraindo asteróides e cometas que, de outra maneira, atingiriam a Terra.
6. Se a espessura da crosta terrestre fosse maior, seria necessário transferir muito mais oxigênio para a crosta para permitir a existência de vida. Se fosse mais fina, as atividades vulcânica e tectônica tornariam a vida impossível.
7. Se a rotação da Terra durasse mais que 24 horas, as diferenças de temperatura seriam grandes demais entre a noite e o dia. Se o período de rotação fosse menor, a velocidade dos ventos atmosféricos seria grande demais.
8. A inclinação de 23° do eixo da Terra é exata. Se essa inclinação se alterasse levemente, a variação da temperatura da superfície da Terra seria muito extrema.
9. Se a taxa de descarga atmosférica (raios) fosse maior, haveria muita destruição pelo fogo; se fosse menor, haveria pouco nitrogênio se fixando no solo.
10. Se houvesse mais atividade sísmica, muito mais vidas seriam perdidas; se houvesse menos, os nutrientes do piso do oceano e do leito dos rios não seriam reciclados de volta para os continentes por meio da sublevação tectônica (sim, até mesmo os terremotos são necessários para sustentar a vida como a conhecemos!).
O astrofísico Hugh Ross calculou a probabilidade de que essas e outras constantes — 122 ao todo — pudessem existir hoje em qualquer outro planeta no Universo por acaso (i.e., sem um projeto divino). Partindo da ideia de que existem 10^22 planetas no Universo (um número bastante grande, ou seja, o número 1 seguido de 22 zeros), sua resposta é chocante: uma chance em 10^138 — isto é, uma chance em 1 seguido de 138 zeros! [1] Existem apenas 10^70 átomos em todo o Universo. Com efeito, existe uma chance zero de que qualquer planeta no Universo possa ter condições favoráveis à vida que temos, a não ser que exista um Projetista inteligente por trás de tudo.
Existem muitas outras constantes finamente sintonizadas da natureza além dessas forças. Considere a proporção de massas para prótons e elétrons, como um exemplo final. A massa de um próton é de aproximadamente 1836.1526 vezes a massa do elétron.[2] Se essa proporção fosse alterada em qualquer grau significativo, a estabilidade de muitos produtos químicos comuns seria comprometida. No fim, isso impediria a formação de moléculas como o DNA, os blocos de construção da vida.[3] Mas no que diz respeito ao desenvolvimento da vida na Terra, às vezes se afirma que a seleção natural encontraria um modo de desenvolver-se, não importa quais as circunstâncias. Desta forma, a natureza às vezes é dita por se sintonizar sozinha. Entretanto, o ajuste fino do carbono é responsável pela habilidade da natureza de ajustar-se a qualquer grau. Como o professor Alister McGrath apontou:
“[Todo o processo biológico] evolutivo depende da química incomum do carbono, o que lhe permite ligar-se a si próprio, bem como outros elementos, criando moléculas altamente complexas que são estáveis sobre as temperaturas terrestres predominantes e são capazes de transmitir informação genética ADN. […] Embora se possa argumentar que a natureza cria seu próprio ajuste fino, isso só pode ser feito se os constituintes primordiais do universo são tais que um processo evolutivo pode ser iniciado. A química única do carbono é o fundamento último da capacidade da natureza para sintonizar-se.” [4]
O ganhador do Prêmio Nobel Amo Penzias, um dos descobridores da radiação posterior ao Big Bang, expõe as coisas da seguinte maneira:
“A astronomia nos leva a um acontecimento único, um Universo que foi criado do nada e cuidadosamente equilibrado para prover com exatidão as condições requeridas para a existência da vida. Na ausência de um acidente absurdamente improvável, as observações da ciência moderna parecem sugerir um plano por trás de tudo ou, como alguém poderia dizer, algo sobrenatural.” [5]
O cosmologista Ed Harrison usa a palavra “prova” quando considera as implicações do princípio antrópico na questão de Deus. Ele escreve:
“Aqui está a prova cosmológica da existência de Deus — o argumento do projeto de Paley atualizado e reformado. O ajuste uno do Universo nos dá evidências prima facie do projeto deístico.” [6]
[Outras citações de físicos]:
“Onde quer que os físicos olhem, eles vêem exemplos de ajuste fino.” – Sir Martin Rees
“O fato notável é que os valores desses números parecem ter sido muito bem ajustado para tornar possível o desenvolvimento da vida.” – Stephen Hawking
“Se alguém diz não estar surpreso pelas características especiais que o universo tem, está escondendo sua cabeça na areia, tais características são surpreendentes e improváveis” – David Deutsch
“Uma interpretação de senso comum dos fatos sugere que uma superinteligência brincou com a física … e que não há nenhuma força cega das quais devemos falar na natureza. Os números calculados dos fatos me parecem tão esmagadores como que colocam esta conclusão quase além da discussão.” – Fred Hoyle
“Há para mim fortes provas de que há algo acontecendo por trás de tudo … parece que alguém ajustou os números para criar o universo. A impressão do design é esmagadora”. -Paul Davies [7]
Os exemplos de ajuste preciso são tantos e tão variados que é improvável que eles desapareçam com o avanço da ciência. Quer gostemos ou não, o ajuste preciso é somente um fato da vida que é cientificamente bem consolidado.
Uma possível objeção e sua resposta
Ora, alguns de vocês podem pensar: Mas se essas constantes e quantidades tivessem tido valores diferentes, então talvez diferentes formas de vida pudessem ter se desenvolvido. No entanto, essa afirmação subestima as consequências verdadeiramente desastrosas de uma alteração nessas constantes e quantidades. Quando os cientistas dizem que um universo admite a existência da vida, eles não estão se referindo apenas as formas de vida atuais. Por “vida” querem dizer apenas a propriedade de organismos se alimentarem, extraírem energia desse processo, crescerem, adaptarem-se ao seu meio e se reproduzirem. O que quer que seja que possa cumprir essas funções conta como forma de vida, qualquer que seja essa forma. E para que a vida assim definida exista, as constantes e quantidades presentes no universo têm que ser inacreditável e precisamente ajustadas. Na ausência desse ajuste preciso, nem mesmo a matéria ou sequer a química existiriam, menos ainda os planetas onde a vida pudesse se desenvolver!
Outra objeção e sua resposta
Algumas pessoas podem retrucar: Mas quem sabe em um universo controlado por diferentes leis da natureza essas consequências desastrosas pudessem não resultar. No entanto, essa objeção demonstra uma compreensão equivocada do argumento.
Não estamos preocupados com universos controlados por diferentes leis da natureza. Não temos a menor ideia de como tais universos seriam! Antes, estamos preocupados somente com universos controlados pelas mesmas leis da natureza, mas com diferentes constantes e quantidades arbitrárias. Pelo fato de as leis serem as mesmas, podemos determinar o que aconteceria se as constantes e quantidades fossem alteradas. E os resultados se mostram desastrosos. Dentre universos controlados por leis da natureza como as nossas, não existe praticamente a menor chance de que um universo casualmente escolhido pudesse admitir a existência de vida.
Um argumento em favor do design
Assim, a questão que enfrentamos é esta: Qual é a melhor explicação para o ajuste preciso do universo? Muitos acreditam que o motivo de o universo ser precisamente ajustado para a vida está no fato de ele ter sido desenhado ou projetado por um designer inteligente de modo a permitir a existência de vida.
Mas o design não é a única alternativa. Temos também a necessidade física e o acaso. O segredo para inferir que o design é a melhor explicação está em eliminar essas outras duas alternativas. De acordo com isso, podemos apresentar um argumento muito simples de três passos:
1. O ajuste preciso do universo se deve ou a uma necessidade física ou ao acaso ou ao design.
2. O ajuste preciso do universo não se deve a uma necessidade física ou ao acaso.
3. Logo, ele se deve ao design.
Esse é um argumento logicamente válido cuja conclusão se segue necessariamente das duas premissas anteriores. A questão que resta é saber se essas premissas são mais plausivelmente verdadeiras ou falsas. Portanto, vamos analisá-las.
Primeira Premissa
O ajuste preciso do universo se deve ou a uma necessidade físíca ou ao acaso ou ao design.
A primeira premissa não pode sofrer objeções pois ela apenas cita as três alternativas que existem para explicar o ajuste preciso. Se alguém tiver mais alguma outra alternativa, pode ficar à vontade para acrescentá-la a essa lista e então a levaremos em consideração quando chegarmos à segunda premissa. No entanto, parece que não há mais alternativas além dessas três mencionadas.
Segunda Premissa
O ajuste preciso do universo não se deve a uma necessidade física ou ao acaso.
Assim, a premissa crucial é a segunda. Vamos examinar cada uma das alternativas que ela cita por vez.
Necessidade física?
Segundo a primeira alternativa, a necessidade física, o universo tem que admitir a existência de vida. As constantes e as quantidades devem ter os valores que têm, de modo que um universo que não admite a existência de vida é algo fisicamente impossível.
A implausibilidade da necessidade física.
Ora, diante dessa alternativa vemos que ela parece fantasticamente implausível. Ela requer que digamos que um universo onde a vida não fosse possível é uma impossibilidade física. Porém, por que tomar uma visão tão radical? As constantes não são determinadas pelas leis da natureza. Então, como elas não poderiam ser diferentes? Além disso, as quantidades arbitrárias são apenas condições-limite nas quais as leis da natureza operam. Nada parece fazê-las necessárias. Vemos, com isso, que os opositores do design estão tomando uma linha de raciocínio radical que exige alguma prova. Mas não há prova alguma. Essa alternativa é posta como uma possibilidade nua e crua.
Às vezes alguns cientistas falam em uma “Teoria Do Tudo” (TOE , sigla da expressão em inglês: Theory Of Everything) que certamente soa como uma explicação física de tudo, inclusive do ajuste preciso. No entanto, como os tantos nomes pitorescos que são dados às teorias cientificas, esse rótulo também é bastante enganoso. Uma teoria como essa, se bem-sucedida, possibilitaria que uníssemos as quatro forças básicas da natureza (gravidade, a força nuclear fraca, a força nuclear forte e o electromagnetismo) em uma única força carregada por um único tipo de partícula. Isso resultaria em uma grande simplificação da física. Mas não chegaria nem perto de tentar explicar literalmente coisa nenhuma. Por exemplo, a candidata mais promissora a uma teoria desse tipo que se conhece até hoje, a chamada Teoria M ou teoria da supercorda somente funciona se existirem onze dimensões. Mas a própria teoria simplesmente não consegue explicar por que esse número específico de dimensões deve existir.
Além do mais, a teoria M não prevê unicamente um universo que admita a existência de vida. Ele permite uma vasta gama de cerca de 10^500 diferentes universos possíveis, todos consistentes com as mesmas leis, mas com variações nos valores das constantes da natureza. Quase todos esses possíveis universos não admitem a existência de vida. Assim, é necessária uma explicação do por que, dentre todas essas possibilidades, existe um universo que admite a existência de vida. Não podemos dizer que universos que admitem a existência de vida são fisicamente necessários, uma vez que, ao menos com base na teoria M isso claramente é falso.
Logo, não há evidências de que um universo que admite a existência de vida seja algo fisicamente necessário. Muito pelo contrário, toda a evidencia indica que universos que não admitem a existência de vida não são apenas possíveis, mas também bem mais prováveis do que qualquer universo que admite a existência de vida.
Acaso?
Isso nos leva à nossa segunda alternativa: O ajuste preciso poderia dever-se simplesmente ao acaso? Segundo esta alternativa de que falamos, é um mero acidente o fato de que todas as constantes e quantidades caiam no âmbito em que se admite a existência de vida. Nós basicamente somos uns sortudos! O problema fundamental que temos aqui é que as chances de que o universo que existe acontecer de admitir a existência de vida são tão remotas que essa alternativa se torna não razoável.
A improbabilidade de um universo que admita a existência de vida
Alguns às vezes objetam que não faz sentido falar da probabilidade de um universo precisamente ajustado existir porque só existe, afinal, um único universo. Assim, não podemos dizer que um dentre cada dez universos, por exemplo, admite a existência de vida. No entanto, a ilustração que apresentaremos a seguir, do físico John Barrow, esclarece em que sentido é improvável um universo que admita a existência de vida. Pegue uma folha de papel e faça sobre ela um ponto vermelho. Esse ponto representa o nosso universo. novo conjunto de constantes e quantidades descrever um universo que permite a existência dc vida, faça um ponto vermelho; do contrário, faça um ponto azul. Agora repita esse procedimento até que a folha está cheia de pontos. Você acabará com uma folha repleta de pontos azuis e apenas alguns pontos vermelhos. E nesse sentido que é avassaladoramente improvável que o universo deva admitir a existência de vida, pois existe um número imensamente maior de universos que não permitem a existência de vida do que o oposto, ou seja, universos que a permitam.
Ilustrações da loteria
Alguns apelam ao exemplo de uma loteria para justificar a alternativa do acaso. Em uma loteria em que todos os bilhetes estejam vendidos, é incrivelmente improvável de que alguém ganhe, contudo alguém tem que ganhar! Não se justificaria que um ganhador, qualquer que fosse ele, dissesse: “As chances de que eu não ganhasse eram de 20 milhões contra 1. Mas ainda assim eu ganhei! A loteria deve ter sido fraudada!”. Do mesmo modo, dizem essas pessoas, algum universo que esteja da escala dos universos possíveis tem que existir. O ganhador dessa loteria do universo também não teria justificativas para pensar que, porque o universo dele existe, isso deve ser fruto do design, e não do acaso. Todos os universos são igualmente improváveis, mas um deles, por acaso, tem que vencer.
Essa analogia é na verdade muito útil, pois nos possibilita ver com clareza em que ponto aqueles que defendem o acaso entenderam mal o argumento em favor do design e, com isso, podemos oferecer uma analogia melhor e mais precisa em substituição. Ao contrário da impressão que as pessoas têm, o argumento do design não está tentando explicar porque este universo em particular existe. Antes, ela tenta explicar porque um universo que admite a existência de vida existe. A analogia da loteria está equivocada porque ela se volta unicamente para o porquê de uma única pessoa ter ganhado.
A analogia correta seria a de uma loteria em que bilhões e bilhões de bolas brancas de pingue pongue estivessem todas misturadas com uma única bola preta, e alguém lhe diria que uma bola seria aleatoriamente tirada do meio de todas as outras. Se a bola retirada fosse a preta, você poderia viver; se fosse uma das brancas, você seria morto.
Ora, observe que qualquer bola em particular que seja aleatoriamente escolhida é igualmente improvável: não importa qual bola desça pela canaleta, as chances contra aquela bola em particular são fantasticamente improváveis. No entanto, alguma das bolas deve rolar canaleta abaixo. Esse é o ponto que foi ilustrado pela primeira analogia da loteria. Esse ponto, porém, é irrelevante, pois não estamos tentando explicar porque essa bola em particular foi escolhida O ponto crucial é que, qualquer que seja a bola que role canaleta abaixo, é avassaladoramente mais provável que ela será uma das bolas brancas, e não a preta. O fato de pegar uma bola preta não é mais improvável do que pegar qualquer uma das bolas brancas. Mas é mais provável de uma forma além da nossa compreensão que você pegue uma bola branca em vez da preta. Por isso, se a bola preta rolar pela canaleta, você pode estar certo em suspeitar que a loteria foi fraudada para permitir que você viva.
Assim, segundo a analogia correta, não estamos interessados em saber porque você pegou a bola específica que pegou. Antes, estamos tentando entender por que, a despeito de todas as chances contrárias, você pegou uma bola que permite a existência de vida, e não o contrário. E essa questão não é tratada quando se diz apenas: “Ora, alguma bola tinha que ser escolhida!”.
Do mesmo modo, algum universo existe, mas qualquer que seja ele, é incompreensivelmente mais provável que seja um universo que não permita a existência de vida, em vez de um universo que permita. Assim, ainda precisamos de uma explicação do por que um universo que permite a existência de vida existe.
É necessária uma explicação?
Algumas pessoas já argumentaram que não é necessária uma explicação para um universo que permite a existência de vida, pois esse é o único tipo de universo que podemos observar! Se o universo não permitisse a existência de vida, então não estaríamos aqui para perguntar nada. (Isso é chamado princípio antrópico, pois afirma que podemos observar apenas as propriedades do universo que são compatíveis com a nossa existência).
Esse raciocínio é uma falácia. O fato de que podemos observar apenas um universo que permita a existência de vida não elimina a necessidade de uma explicação para a existência desse universo. Mais uma vez uma ilustração poderá nos ajudar. Imagine que você viajou para o exterior e acabou sendo preso por uma falsa acusação de porte de drogas. Então, você é arrastado para frente de um pelotão de cem atiradores altamente treinados que estão à distância de um tiro à queima-roupa. Você ouve o comando: “Preparar… Apontar… Fogo!” Ouve o som ensurdecedor das armas sendo disparadas. E então nota que ainda está vivo! E que todos os cem atiradores erraram o tiro! Ora, o que você pode concluir disso?
Ora, acredito que eu não devo ficar surpreso pelo fato de todos os cem atiradores terem errado o tiro! Afinal, se isso não tivesse acontecido, não estaria aqui para me surpreender com isso! Não há nada aqui a ser explicado!”
E claro que não! É verdade que você não deve ficar surpreso pelo fato de não poder observar que você está morto, uma vez que, se estivesse morto, não poderia mesmo observar esse fato. Mas ainda assim deve ficar surpreso em observar que você está vivo, à luz da enorme improbabilidade dc que todos os cem atiradores errassem o tiro. Na verdade, você provavelmente chegou à conclusão de que todos eles erraram o tiro de propósito, que era tudo uma armação preparada por alguém, por algum motivo.
A hipótese dos muitos mundos
Portanto, os teóricos vieram a reconhecer que o princípio antrópico não pode eliminar a necessidade de uma explicação do ajuste preciso a menos que seja combinado com a hipótese dos muitos mundos. Segundo essa hipótese, nosso universo não passa de um elemento integrante de um conjunto de mundos ou “multiverso” de universo aleatoriamente ordenados, e preferivelmente infinitos em números. Se todos esses universo realmente existirem, então, por puro acaso outros mundo que permitem a existência de vida irão aparecer em algum lugar desse conjunto de mundos. E uma vez que apenas os universos que universos que têm um ajuste preciso terão observadores, quaisquer observadores que existam nesse conjunto de mundos naturalmente observarão que o seu respectivo mundo goza de um ajuste preciso. Portanto, nenhum apelo ao design é necessário para explicar o ajuste preciso, é puro acaso.
Primeira resposta à hipótese dos muitos mundos
Uma forma de responder à hipótese dos muitos mundos seria mostrar que o próprio multiverso envolve o ajuste preciso. Pois, para que seja cientificamente crível, deve ser sugerido algum tipo de mecanismo para a geração dos muitos mundos. Porém, se é para que a hipótese dos muitos mundos seja bem-sucedida em atribuir o ajuste preciso exclusivamente ao acaso, então é melhor que esse próprio mecanismo de geração dos muitos mundos não seja ele mesmo parte de um ajuste preciso! Pois, se ele for, acabaremos com o mesmo problema do início: Como explicar o ajuste preciso do multiverso?
Os mecanismos propostos para a geração de um conjunto de mundos são tão vagos que está longe de estar claro se a física que controla o multiverso não envolverá algum tipo de ajuste preciso. Por exemplo, se a teoria M for a física do multiverso, então continua sem explicação, como vimos, porque existem exatamente onze dimensões. E o mecanismo que torna atuais todas essas possibilidades na paisagem cósmica pode envolver um ajuste preciso. Assim, o postulado de um conjunto de mundos não é em si mesmo suficiente a ponto de justificar a alternativa do acaso.
Segunda resposta à hipótese dos muitos mundos
Além do mais, muitos teóricos olham a hipótese dos muitos mundos com certo ceticismo. Por que pensar que um conjunto de mundos tenha existência atual? (…) O teorema Borde-Guth-Vilenkin exige que mesmo um multiverso de universos de bolha tenha uma origem. No caso em questão, o mecanismo que gera os universos de bolhas vem mantendo-os afastados por apenas uma quantidade finita de tempo. Assim, até esta altura em que vivemos, pode muito bem existir apenas uma quantidade finita de bolhas no conjunto de mundos, as quais podem não ser suficientes para garantir o surgimento de um universo precisamente ajustado somente por acaso. Não há qualquer evidência de que esse tipo de conjunto de mundos exigido pela hipótese dos muitos mundos tenha existência atual.
Em contraste, temos boas e independentes razões para acreditar em um Designer do cosmo, como mostram os argumentos de Leibniz e Al-Ghazali.
Terceira resposta à hipótese dos muitos mundos
Além disso, a hipótese dos muitos mundos enfrenta o que pode ser uma objeção devastadora. (…) O que afundou a hipótese de Boltzmann foi o fato de que, se o nosso mundo é apenas um membro aleatório de um conjunto de mundos, então é amplamente mais provável que deveríamos estar observando uma região de ordem bem menor. Acontece que a hipótese dos muitos mundos enfrenta um problema paralelo como explicação do ajuste preciso do cosmos.
Roger Penrose tem defendido com veemência essa objeção.[8] Ele enfatiza que as chances de que as condições iniciais de baixa entropia do nosso universo tenham sido exclusivamente aleatórias estão na proporção de uma chance em 10^10 (123). Por contraste, as chances de nosso sistema solar ter se formado de repente, pela colisão aleatória de partículas é da proporção de uma chance em 10^10 (60). Esse número, segundo Penrose, é “café pequeno” em comparação com uma chance em 10^10 (123). O que isso significa é que é bem mais provável que devêssemos estar observando um universo ordenado não mais amplo do que nosso sistema solar, uma vez que um mundo desse tamanho é algo incomensuravelmente mais provável do que um universo precisamente ajustado como o nosso.
Na verdade, acabamos com o mesmo tipo de ilusionismo que pesou sobre a hipótese de Boltzmann. Um pequeno mundo com a ilusão de um universo maior e ordenado é mais provável do que um universo real e precisamente ajustado. Levada ao extremo, essa ideia levou ao que os teóricos chamaram de “a invasão do cérebro de Boltzmann”. Pois o universo observável mais provável é aquele que consiste de um único cérebro que brota na existência por meio de uma flutuação aleatória com percepções ilusórias de um cosmo ordenado! Assim, se você aceitar a hipótese dos muitos mundos será obrigado a acreditar que você é tudo o que existe e que este livro, o seu corpo, a terra e tudo o mais que você percebe no mundo são meras ilusões.
Ninguém em sã consciência acredita ser um produto do cérebro de Boltzmann. Portanto, dado o ateísmo, é altamente improvável que exista um conjunto de mundos aleatoriamente ordenado. Ironicamente, a melhor das esperanças para os partidários do multiverso é manter que Deus criou o multiverso e ordenou seus mundos, de modo que eles não são aleatoriamente ordenados. Deus poderia dar preferência a mundos observáveis que são precisamente ajustados cosmicamente. Ou seja, para ser racionalmente aceitável, a hipótese dos muitos mundos precisa de Deus.
Com a falha da hipótese dos muitos mundos, o último elo de defesa para uma alternativa baseada no acaso entra em colapso. Nem a necessidade física nem o acaso fornecem uma boa explicação para o ajuste preciso do universo.
O design: A objeção de Dawkins
E quanto ao design? Essa explicação é melhor do que a explicação da necessidade física ou que o acaso, ou é igualmente implausível?
Aqueles que não concordam com o design às vezes apresentam a objeção de que na hipótese do design é o próprio Designer do cosmo que permanece sem explicação. Foi essa objeção que Richard Dawkins chama de “o argumento central do meu livro”, The God Delusion [Deus, um delírio]. Ele sintetiza seu argumento da seguinte forma:
1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano tem sido explicar como surgiu no universo o complexo e improvável design.
2. A tentação natural é atribuir o surgimento do design ao próprio design atual.
3. Essa tentação e falsa, pois a hipótese do designer imediatamente faz surgir o problema maior de quem criou o designer.
4. A explicação mais engenhosa e poderosa é a evolução de Darwin baseada na seleção natural.
5. Não temos uma explicação equivalente para a física.
6. Não devemos desistir da esperança de surgir uma explicação melhor no campo da física, algo que seja tão poderoso quanto o darwinismo é para a biologia. Logo, é praticamente certo que Deus não existe.
A invalidade do argumento de Dawkins: a conclusão não se segue das premissas
O argumento de Dawkins é chocante pelo fato de a conclusão artista — “Logo, é praticamente certo que Deus não existe” — não se segue das seis premissas anteriores, mesmo que façamos a concessão de dizer que cada uma delas é verdadeira. Não há na lógica regras que permitam tal inferência. O argumento de Dawkins é claramente inválido. Na melhor das hipóteses, tudo que se segue a partir do argumento de Dawkins é que não devemos inferir a existência de Deus com base no surgimento do design no universo. Mas essa conclusão é bastante compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa justificável crença na existência de Deus. Talvez devêssemos acreditar em Deus com base no argumento cosmológico ou moral. Talvez nossa crença em Deus não seja de modo algum baseada em argumentos, mas sim em nossa experiência religiosa ou na revelação divina. O ponto é que refutar os argumentos do design em favor da existência de Deus não faz nada mais do que provar que o ateísmo é verdade ou que a crença em Deus não se justifica. A falta de profundidade teológica de Dawkins fica claramente exposta aqui.
Na melhor das hipóteses, tudo que se segue a partir do argumento de Dawkins é que não devemos inferir a existência de Deus com base no surgimento do design no universo. Mas essa conclusão é bastante compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa justificável crença na existência de Deus. Talvez devêssemos acreditar em Deus com base no argumento cosmológico ou moral. Talvez nossa crença em Deus não seja de modo algum baseada em argumentos, mas sim em nossa experiência religiosa ou na revelação divina. O ponto é que refutar os argumentos do design em favor da existência de Deus não faz nada mais do que provar que o ateísmo é verdade ou que a crença em Deus não se justifica. A falta de profundidade teológica de Dawkins fica claramente exposta aqui.
A falsidade das premissas de Dawkins
Porém, será que o argumento de Dawkins é bem-sucedido ao menos em minar o argumento em favor do De modo algum. pois várias das premissas do argumento de Dawkins são plausivelmente falsas. A quinta premissa refere-se ao ajuste preciso do universo, que tem sido o foco de nossa discussão. Dawkins não tem nada a apresentar como explicação para isso e, portanto, a esperança expressada na premissa 6 não representa nada mais do que a fé de um naturalista.
Além do mais, considere a terceira premissa. Dawkins alega aqui que não temos justificativas para inferir que o design seja a melhor explicação para a complexa ordem do universo, pois, se o fizermos, surge um novo problema: Quem criou o Designer?
Primeiro problema com a terceira premissa: “você não precisa explicar a explicação”
Essa alegação falha em pelo menos dois aspectos. Primeiro, para reconhecer uma explicação como sendo a melhor, você não precisa ter uma explicação da explicação. Essa é uma questão elementar da filosofia da ciência. Se um grupo de arqueólogos, em suas escavações, encontrassem objetos que se parecessem com flechas e alguns cacos de cerâmica, seria plenamente justificável que eles inferissem que tais artefatos eram produtos de alguma civilização desconhecida, e não um resultado aleatório da sedimentação e metamorfose, mesmo que eles não tivessem ainda uma explicação de quem foi essa civilização ou de onde ela viera. Da mesma forma, se um grupo de astronautas se deparasse com um amontoado de máquinas em algum ponto da superfície lunar, seria plenamente justificável que eles inferissem que isso era um produto de agentes inteligentes, mesmo que eles não tivessem a mais remota ideia de quem fossem esses agentes e de como eles tinham chegado ali.
Assim, a fim de reconhecer uma explicação como sendo a melhor, você não precisa ser capaz de explicar a explicação. Na verdade, tal exigência levaria a uma regressão infinita de explicações, de modo que nada poderia jamais ser explicado e a ciência estaria destruída! Pois antes que uma explicação pudesse ser aceitável, você precisaria ter uma explicação para ela, e então uma explicação para a explicação da primeira explicação, e assim por diante… Nada jamais poderia ser explicado.
Por isso, no caso em questão, a fim de reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para o surgimento do design no universo, ninguém precisa ser capaz de explicar o Designer. O fato de o D esigner ter ou não uma explicação é uma questão que pode ser deixada em aberto para futuras investigações.
Segundo problema com a terceira premissa: “Deus é notavelmente simples”
Segundo, Dawkins pensa que, caso se aceite a hipótese do Designer divino do universo, o Designer é tão complexo quanto é complexa a coisa a ser explicada, de modo que explicação de antemão é feita. Essa objeção levanta todos os tipos de questões sobre o papel que a simplicidade desempenha em permitir acesso a explicações competentes. Por exemplo, existem muitos outros fatores além da simplicidade que os cientistas pesam quando estão determinando qual é a melhor explicação, como o poder da explicação, seu escopo e assim por diante. Uma explicação que possua um escopo mais amplo pode ser menos simples que uma explicação concorrente, mas ainda assim ser preferida por explicar mais coisas. A simplicidade não é o único critério, nem mesmo o mais importante para se avaliar teorias.
Mas deixemos essas questões de lado. O erro fundamental de Dawkins está em presumir que um Designer divino seja tão complexo quanto o universo. Isso é decididamente falso. Como uma mente pura, sem um corpo, Deus é um ente notavelmente simples. Uma mente (ou alma) não é um objeto físico composto de partes. Em contraste com um universo contingente e diversificado, com todas as suas inexplicáveis constantes e quantidades, uma mente divina é algo surpreendentemente simples. Por certo que tal mente pode ter ideias complexas — pode estar pensando, por exemplo, em um cálculo infinitesimal — mas essa mente em si é um ente espiritual incrivelmente simples. Dawkins evidentemente confundiu as ideias de uma mente, que podem na verdade ser complexas, com a própria mente em si, que é um ente incrivelmente simples. Portanto, postular que há uma mente divina por trás do universo representa em definitivo um avanço em termos de simplicidade, qualquer que seja seu valor.
Há outras premissas no argumento de Dawkins que são problemáticas, mas acho que já foi dito o suficiente para mostrar que o argumento dele em nada contribuiu para minimizar o argumento do ajuste preciso em favor de um Designer do universo, sem mencionar o fato de que o argumento dele serviu como uma justificação do ateísmo. Há muitos anos Quentin Smith, um filósofo ateu, sem a menor cerimônia, elegeu o argumento de Stephen Hawking contra Deus, em A Brief History of Time [Um breve história do tempo], como “o pior argumento ateísta de toda a história do pensamento ocidental”.[9] Com o lançamento da obra The God Delusion chegou o tempo, assim creio, de livrar o argumento de Hawking do peso desse título e de passar o título de pior argumento para a tese de Richard Dawkins.
Conclusão
Portanto, parece-me que das três alternativas que temos diante de nós — a necessidade física, o acaso e o design — a mais plausível da três é o design. Platão e Aristóteles sem sombra de dúvida iriam se sentir gratificados pelo fato de a ciência moderna defender as visões deles. Temos, então, um terceiro argumento em nossa série de argumentos em favor da existência de Deus.
[1] ROSS, Hugh. “Why I Believe in Divine Creation“, em: GEISLER, Norman.; HOFFMAN, Paul. Why I Am a Christian: Leading Thinkers Explain Why They Believe. Grand Rapids: Baker, 2001, p. 138-41.
[2] FUNDAMENTAL PHYSICAL CONSTANTS. Proton-electron mass ratio. Disponível em: <https://physics.nist.gov/cgi-bin/cuu/Value?mpsme> Acesso em: 06 de fevereiro de 2019.
[3] HOLDER, R. D. Is the Universe Designed? Disponível em: <https://faraday-institute.org/resources/Faraday%20Papers/Faraday%20Paper%2010%20Holder_EN.pdf> Acesso em: 06 de fevereiro de 2019.
[4] MCGRATH, Alister. A Finely-Tuned Universe: The Quest for God in Science and Theology. Louisville: Westminster John Knox Press, 2009. Para mais informações sobre o ajuste biológico do ambiente, veja especificamente os capítulos 10 e 11.
[5] Apud BRADLEY, Walter. “The ‘Just-so’ Universe: The Fine-Tuning of Constants and Conditions in the Cosmos”, em: DEMBSKI, William.; KUSHINER, James. Signs of Intelligence. Grand Rapids: Baker, 2001, p. 168.
[6] Apud GEISLER, Norman.; HOFFMAN, Paul. Why I Am a Christian: Leading Thinkers Explain Why They Believe. Grand Rapids: Baker, 2001, p. 142.
[7] REASONABLE FAITH. Transcript: Fine Tuning Argument. Disponível em:<https://web.archive.org/web/20171005063416/http://www.reasonablefaith.org/transcript-fine-tuning-argument> Acesso em: 06 de fevereiro de 2019.
[8] PENROSE, Roger. The Road to Reality. New York: Alfred A. Knopf, 2005, p. 762-765.
[9] SMITH, Quentin. “The Wave Function of a Godless Universe”, em: CRAIG, W. L.; SMITH, Quentin. Theism, Atheism and Big Bang Cosmology. Oxford: Clarendon Press, 1993, p. 322.
Traduzido, retirado e adaptado de: http://biologos.org/common-questions/gods-relationship-to-creation/fine-tuning
Em Guarda – William Lane Craig
Não tenho fé suficiente para ser ateu – Norman Geisler