Podemos ser bons, se Deus não existir? À primeira vista, a reposta a essa pergunta pode parecer tão óbvia que só o fato de fazê-la causa indignação. Pois, embora nós, cristãos teístas, tenhamos em Deus, sem nenhuma dúvida, uma fonte de força e de determinação moral que nos capacita a viver vidas melhores do que viveríamos sem ele, soaria arrogante e ignorante afirmar que os que não partilham de uma fé em Deus nem sempre têm uma vida moral saudável — na verdade, para nosso embaraço, vidas que às vezes nos envergonham do modo como vivemos.
Mas espere aí! Seria mesmo arrogante e ignorante afirmar que as pessoas não podem ser boas se não acreditarem em Deus. Mas a pergunta não foi essa. A pergunta foi: podemos ser bons, se Deus não existir? Quando a fazemos, levantamos de maneira provocativa a questão metaética da objetividade dos valores morais. Existem valores que consideramos preciosos e que guiam a nossa vida por meras convenções sociais, como dirigir do lado esquerdo e não do lado direito da rua, ou por meras expressões de preferência pessoal, como gostar ou não do sabor de certo tipo de comida? Ou será que essas coisas são válidas a despeito da nossa percepção delas, e, se o forem, qual o seu fundamento? Ademais, se a moralidade for somente uma convenção humana, por que deveríamos nos comportar moralmente, sobretudo quando isso conflita com nosso próprio interesse? Ou, ainda, seríamos de algum modo responsáveis por nossas decisões e ações morais?
Hoje, quero demonstrar que, se Deus existe, a objetividade dos valores morais, dos deveres morais e da responsabilidade moral é garantida, e que, na ausência de Deus, ou seja, se Deus não existe, então, a moralidade não passa de uma convenção humana, quer dizer, é totalmente subjetiva e não obrigatória. Poderíamos proceder exatamente das mesmas maneiras que de fato procedemos, mas, com a ausência de Deus, tais procedimentos não seriam mais considerados como bons (ou maus), uma vez que, se Deus não existe, não existem valores morais objetivos. Logo, não podemos ser verdadeiramente bons, se Deus não existir. Por outro lado, se de fato acreditamos que valores e deveres morais são objetivos, isso proporciona fundamentos morais para acreditar na existência de Deus.
Considere-se, então, a hipótese de que Deus existe. Primeiro, se Deus existir, existem valores morais. Dizer que existem valores morais é afirmar que algo é certo ou errado, a despeito de alguém acreditar nisso ou não. É dizer, por exemplo, que o antissemitismo nazista era moralmente errado, mesmo que os nazistas realizadores do Holocausto achassem que era bom; e que o Holocausto ainda seria errado, mesmo que os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial, conseguindo exterminar ou fazer lavagem cerebral em todos quantos discordassem deles.
Do ponto de vista teísta, os valores morais objetivos estão arraigados em Deus. A própria natureza santa e perfeitamente boa de Deus fornece o padrão absoluto pelo qual todas as ações e decisões são mensuradas. A natureza moral de Deus é o que Platão chamou de “Bem”. Ele é o cerne e a fonte do valor moral. Por natureza, ele é amoroso, generoso, justo, fiel, benigno, e assim por diante.
Além disso, a natureza moral de Deus se expressa com relação a nós na forma de mandamentos divinos, que constituem nossos deveres ou obrigações morais. Longe de serem arbitrários, esses mandamentos fluem necessariamente da sua natureza moral. Na tradição judaico-cristã, todo o dever moral do homem pode ser resumido em dois grandes mandamentos: o primeiro é amarás o Senhor teu Deus de toda a tua força, de toda a tua alma, de todo o teu coração e de todo teu entendimento; e o segundo é amarás o teu próximo como a ti mesmo. Fundamentados nesse alicerce, podemos afirmar a bondade e a retidão objetivas do amor, da generosidade, do autossacrifício, da equidade, e condenar como objetivamente mal e errado o egoísmo, o ódio, a violência, a discriminação e a opressão.
Por fim, no que tange à hipótese teísta, Deus considera todas as pessoas como moralmente responsáveis pelos seus atos. O mal e o erro serão punidos; a retidão será reconhecida. No futuro, o bem triunfará sobre o mal e veremos por fim que vivemos de fato num universo moral. Malgrado as iniquidades desta vida, no final, os pratos da balança da justiça de Deus estarão equilibrados. Assim, as escolhas morais que fazemos nesta vida estão impregnadas de significado eterno. Podemos, com consistência, fazer escolhas morais que contrariam nosso interesse pessoal e, até, levar a cabo atitudes de profundo autossacrifício, sabendo que essas decisões não são gestos vazios nem, em última análise, desprovidos de sentido. Antes, nossa vida moral tem sentido supremo. Portanto, considero que seja evidente que o teísmo fornece um fundamento seguro para a moralidade.
Contraste-se o que foi dito com a hipótese ateísta. Primeiro, se o ateísmo for verdadeiro, não existem valores morais objetivos. Se Deus não existe, então, qual seria o fundamento dos valores morais? Mais particularmente, qual é a base para o valor dos seres humanos? Se Deus não existe, fica difícil, nesse caso, ver alguma razão para considerar que os seres humanos sejam especiais ou que a moralidade deles seja objetivamente verdadeira. Além disso, por que razão acharíamos que temos obrigações morais para fazer qualquer coisa? Quem ou o quê nos imporia algum dever moral? Michael Ruse, filósofo da ciência, escreve:
“A posição dos evolucionistas modernos […] é que os humanos têm consciência de moralidade […] pois esse tipo de consciência tem importância biológica. A moralidade não é menos uma adaptação biológica do que mãos, pés e dentes […] Considerada como um conjunto de alegações racionalmente justificáveis sobre coisas objetivas, a ética é ilusória. Acho louvável que, ao dizerem “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, as pessoas achem que estão se referindo acima e além de si mesmas. […] No entanto, […] tal referência é, de fato, desprovida de fundamento. A moralidade é somente um auxílio à sobrevivência e à reprodução […] e qualquer significado mais profundo é ilusório […]” [1]
Como resultado de pressões sociobiológicas, entre o Homo sapiens evoluiu um tipo de “moralidade gregária” que funciona bem na perpetuação de nossas espécies na luta pela sobrevivência. Mas não parece realmente haver alguma coisa a respeito do Homo sapiens que torne essa moralidade objetivamente verdadeira.
Ademais, da perspectiva ateia não existe nenhum legislador divino. Então, qual é a fonte da obrigação moral? Richard Taylor, eminente especialista em ética, escreve:
“A era moderna, ao repudiar em maior ou menor medida a ideia de um legislador divino, tem, no entanto, procurado preservar as ideias do que é moralmente certo e errado, sem perceber que, ao descartar Deus, as pessoas aboliram, da mesma maneira, as condições de significado para o que é moralmente certo ou errado. Assim, até mesmo indivíduos letrados declaram que certas coisas como guerra, aborto ou violação de certos direitos humanos são “moralmente erradas” e imaginam terem dito algo verdadeiro e cheio de sentido. Entretanto, é dispensável dizer a pessoas instruídas que questões desse tipo jamais foram respondidas fora do âmbito da religião.” [2]
Ele conclui:
“Contemporaneamente, os autores que escrevem sobre ética, que discursam descuidadamente sobre o que é moralmente certo ou errado e sobre a obrigação moral sem nenhuma referência à religião, na verdade só estão tecendo teias intelectuais no ar rarefeito; isso equivale a dizer que o discurso deles não tem sentido.” [3]
Ora, é importante que tenhamos clareza em entender a questão posta diante de nós. A questão não é: temos de crer em Deus para viver vidas morais? Não há razão para pensar que tanto ateus como teístas não possam viver de acordo com o que caracterizamos normalmente como vidas boas e decentes. Semelhantemente, a questão não é: podemos formular um sistema de ética sem referência a Deus? Se o não-teísta assegura que os seres humanos têm de fato valor objetivo, não há por que pensar que ele não seja capaz de produzir um sistema de ética com o qual a maioria dos teístas também concordaria. Ou, ainda, a questão não é: podemos reconhecer a existência de valores morais objetivos sem referência a Deus? A defesa típica dos teístas será que não é necessário crer em Deus para, digamos, reconhecer que devemos amar nossos filhos. Antes, como explica o filósofo humanista Paul Kurtz: “A questão central quanto a princípios morais e éticos tem tudo a ver com esse fundamento ontológico. Se tais princípios não derivam de Deus nem estão ancorados em nenhum fundamento transcendente, são eles puramente efêmeros?”.[4]
Se não existe Deus, parece, então, que se eliminou qualquer razão que leve a considerar como objetivamente verdadeiro que a moralidade gregária evoluiu por meio do Homo sapiens. Afinal de contas, o que há de tão especial nos seres humanos? Eles não passam de subprodutos acidentais da natureza — que evoluiu até relativamente pouco tempo numa partícula infinitesimal de poeira perdida em algum lugar num universo hostil e irracional — condenados a perecerem individual e coletivamente num intervalo de tempo relativamente curto. Certo tipo de atividade, digamos, como o incesto, pode não ser biológica nem socialmente vantajosa e, portanto, no curso da evolução humana foi convertida em tabu. Mas, da perspectiva ateísta, não há nada realmente errado quanto ao cometimento do incesto. Se, conforme declara Kurtz, “os princípios morais que governam nosso comportamento estão enraizados no hábito e no costume, no sentimento e na moda”,[5] então, o inconformado que prefere debochar da moralidade gregária não está fazendo nada mais grave do que andar fora da moda.
A falta de valor objetivo dos seres humanos segundo a cosmovisão naturalista é sublinhada por duas implicações dessa visão de mundo: materialismo e determinismo. Os naturalistas são tipicamente adeptos do materialismo ou do fisicalismo e consideram o homem como organismo puramente animal. Mas, se o homem não tiver nenhum aspecto imaterial relacionado ao seu ser (chame-o de alma ou mente ou do que quiser), então, ele não será qualitativamente diferente de nenhuma outra espécie animal. Para o homem, considerar a moralidade humana como objetiva é cair na armadilha do especismo. Para a antropologia materialista, não há razão para considerar que os seres humanos sejam objetivamente mais valiosos do que ratos. Em segundo lugar, se mente e cérebro são a mesmíssima coisa, tudo quanto pensamos e fazemos é determinado pela percepção dos nossos cinco sentidos e pela nossa estrutura genética. Inexiste o agente pessoal que tudo decide livremente. Sem liberdade, nenhuma de nossas escolhas é moralmente importante. São como os gestos espasmódicos dos membros de uma marionete, controlada pelos cordões da percepção sensorial e da constituição física. E que valor moral tem uma marionete ou seus movimentos?
Assim, se o naturalismo for verdadeiro, torna-se impossível condenar a guerra, a opressão ou o crime como malignos. Nem será possível enaltecer a fraternidade, a igualdade ou o amor como benignos. Não importa quais valores se escolham, pois não há certo nem errado; bem e mal não existem. Isso significa que uma atrocidade como a do Holocausto, na realidade, seria moralmente indiferente. Pode ser que você o ache errado, mas a sua opinião não seria mais válida do que a do criminoso de guerra nazista, que o considerava bom. Em seu livro Morality after Auschwitz [A moralidade após Auschwitz], Peter Haas questiona como seria possível toda uma sociedade participar voluntariamente de um programa de tortura em massa e de genocídio patrocinado pelo Estado por mais de uma década, sem qualquer oposição séria. Ele defende que:
“Longe de desdenharem da ética, os perpetradores agiram em total conformidade com uma ética que sustentava que, por mais difícil e desagradável que a tarefa pudesse ser, a exterminação maciça de judeus e ciganos era plenamente justificável […] o Holocausto, como esforço sustentado, só foi possível porque vigorava uma nova ética que não definia como erradas a prisão e deportação de judeus e, de fato, considerava tais ações como eticamente toleráveis e absolutamente boas.” [6]
Além disso, aponta Haas, em razão de sua coerência e consistência interna, a ética nazista não poderia ser desacreditada internamente. Essa crítica só poderia ser lançada a partir de uma posição privilegiada transcendente, acima dos costumes morais socioculturais relativistas. Porém, na ausência de Deus, falta exatamente essa perspectiva privilegiada. Um rabino aprisionado em Auschwitz disse que era como se todos os Dez Mandamentos tivessem sido invertidos: matarás, mentirás, furtarás. A humanidade jamais tinha visto esse inferno. E, todavia, em sentido legítimo, se o naturalismo for verdadeiro, o nosso mundo é Auschwitz. Não existe mal nem bem, nem certo ou errado. Não existem valores morais objetivos.
Ademais, se o ateísmo for verdadeiro, ninguém responde moralmente por suas atitudes. Ainda que, sob o naturalismo, houvesse valores e deveres morais, eles seriam irrelevantes, pois não há responsabilidade moral. Se a vida termina na sepultura, não faz diferença viver como um Stálin ou como um santo. Como escreveu corretamente o autor russo Fiódor Dostoiévski: “Se não há imortalidade, tudo é permitido”.[7]
Os torturadores estatais das prisões soviéticas entenderam isso bem demais. Richard Wurmbrand relata:
“É difícil de acreditar na crueldade do ateísmo, no qual o homem não tem fé na recompensa do bem nem no castigo do mal. Não há razão para ser humano. Não há limites para as profundezas do mal que há no homem. Os torturadores comunistas diziam sempre: “Não há Deus, não há vida futura, não há castigo para o mal. Podemos fazer o que quisermos”. Certa vez ouvi um torturador dizer: “Dou graças a Deus, em quem não creio, por ter vivido até agora, quando posso expressar toda a maldade do meu coração”. Ele a expressava com brutalidade e tortura inacreditáveis, infligidas aos prisioneiros.” [8]
Dado o caráter definitivo da morte, não importa realmente o modo como se vive. Portanto, o que dizer a alguém que chegou à conclusão de que podemos também viver conforme nos agradar, por puro interesse próprio? É o que representa a imagem um tanto sinistra de um ateu ético como Kai Nielsen, da Universidade de Calgary. Eis o que ele escreveu:
“Não conseguimos mostrar que a razão demanda o ponto de vista moral, nem que todas as pessoas realmente racionais não deveriam ser egoístas individuais nem amoralistas clássicos. A razão não manda aqui. A imagem que lhes pintei não é nada agradável. Refletir acerca dela me deprime […] A razão pura e prática, mesmo com um bom conhecimento dos fatos, não o levará à moralidade.” [9]
Talvez se diga que está em nosso maior benefício pessoal adotar um estilo de vida moralizado. Obviamente, isso nem sempre é verdade. Todos conhecemos situações em que o interesse pessoal se choca de cara com a moralidade. Ademais, quando se é tão poderoso como um Ferdinando Marcos, um Papa Doc Duvalier ou mesmo um Donald Trump, pode-se muito bem ignorar os ditames da consciência e viver seguramente na autoindulgência. O historiador Stewart C. Easton resume bem isso quando escreve: “Não existe razão objetiva para que o homem aja moralmente, a não ser que a moralidade ‘renda dividendos’ na sua vida social ou o faça ‘sentir-se bem’. Não há nenhuma razão objetiva para que o homem deva fazer algo, a não ser pelo prazer que isso lhe proporciona”.[10]
Atitudes de autossacrifício tornam-se particularmente disparatadas na perspectiva naturalista. Por que você deveria sacrificar seu interesse pessoal, e especialmente a sua vida, por causa de outra pessoa? Do ponto de vista naturalista, não existe nenhuma boa razão para adotar um curso de ação que leve à negação de si mesmo. Considerado pelo ângulo sociobiológico, tal comportamento altruísta é meramente resultado do condicionamento evolucionário que ajuda a perpetuar a espécie. A mãe que corre para dentro da casa em chamas para salvar os filhos, ou o soldado que lança o corpo sobre a granada para salvar seus companheiros, não faz nada mais importante nem digno de louvor, moralmente falando, do que uma formiga soldado que se sacrifica em prol do formigueiro. O senso comum determina que, se pudermos, devemos resistir às pressões sociobiológicas para cometer ações autodestrutivas, procurando, então, agir em interesse próprio. O filósofo da religião John Hick convida-nos a imaginar uma formiga subitamente dotada das percepções da sociobiologia e da liberdade de tomar decisões pessoais. Ele escreve:
“Vamos supor que ela seja convocada para imolar a si mesma em prol do formigueiro. Ela sente a poderosa pressão do instinto empurrando-a para essa autodestruição. No entanto, ela se interroga, por que razão deveria voluntariamente […] levar adiante o programa suicida para o qual o instinto a impulsiona? Por que deveria considerar a existência futura de milhões e milhões de outras formigas como mais importante para ela do que a própria existência? […] Uma vez que tudo que ela é e tem, ou que ainda possa ter, é a sua própria presente existência, com certeza, visto que está livre do domínio da força cega do instinto, ela optará pela vida — a sua própria vida.” [11]
Então, por que faríamos escolha diferente? A vida é breve demais para arriscá-la por qualquer outro motivo que não o do puro interesse pessoal. O sacrifício por outra pessoa não passa de estupidez. Assim, a falta de responsabilidade moral decorrente da filosofia do naturalismo converte em abstração vazia a ética da compaixão e do autossacrifício. R. Z. Friedman, filósofo da Universidade de Toronto, conclui: “Sem a religião, não é possível estabelecer a coerência de uma ética da compaixão. O princípio de respeito pelas pessoas e o princípio da sobrevivência dos mais aptos são mutuamente exclusivos”.[12]
Chegamos, portanto, a perspectivas radicalmente diferentes acerca da moralidade, dependentes da existência ou inexistência de Deus. Se Deus existir, há um fundamento sólido para a moralidade. Se Deus não existir, então, assim como via Nietzsche, estamos, em última análise, atracados no niilismo.
A escolha entre as duas não precisa ser feita arbitrariamente. Pelo contrário, as próprias considerações que discutimos podem constituir a justificação moral para a existência de Deus.
Por exemplo, se considerarmos que existem valores morais, logo seremos levados logicamente à conclusão de que Deus existe. E algo poderia ser mais óbvio do que valores morais objetivos realmente existirem? Não há mais razão para negar a realidade objetiva de valores morais do que para negar a realidade objetiva do mundo físico. O arrazoado de Ruse é, na pior das hipóteses, um exemplo de falácia genética num livro escolar, e, na melhor, só prova que a nossa percepção subjetiva de valores morais evoluiu. Contudo, se os valores morais são descobertos gradualmente, e não inventados, essa apreensão gradual e falível do universo moral mina a realidade objetiva desse âmbito, tanto quanto a nossa percepção gradual e falível do mundo físico mina a objetividade desse outro âmbito. O fato é que realmente apreendemos valores morais objetivos, e todos sabemos disso. Ações como estupro, tortura, abuso infantil e brutalidade não são apenas comportamento social inaceitável: são abominações morais.
Como o próprio Ruse declara: “Quem afirma que é socialmente aceitável estuprar criancinhas está tão errado quanto quem diz que 2+2=5”.[13]
Pela mesma razão, amor, generosidade, equidade e autossacrifício são realmente bons. As pessoas que não conseguem ver isso não passam de moralmente incapacitadas, e não há razão para permitir que a sua visão deficiente ponha em dúvida aquilo que vemos com clareza. Portanto, a existência de valores morais objetivos serve para demonstrar a existência de Deus.
Ou consideremos a natureza da obrigação moral. Para nós, o que torna determinadas ações certas ou erradas? O que ou quem nos impõe deveres morais? Por que devemos fazer umas coisas e outras, não? Qual a origem desse “devemos”? Pensava-se, tradicionalmente, que as nossas obrigações morais nos foram impostas pelos mandamentos morais de Deus. Mas, se negamos a existência de Deus, fica difícil compreender o que seja dever moral, ou certo e errado, conforme explica Richard Taylor:
“Um dever é algo que é devido […] Mas, às vezes, pode ser devido a uma ou umas pessoas. Não é possível existir algo como um dever isolado. […] A ideia de obrigação política ou jurídica é clara o bastante […] Semelhantemente, a ideia de uma obrigação mais elevada do que essas, referida como obrigação moral, é bastante clara, desde que haja referência a algum legislador mais elevado […] em consideração do que os do Estado. Em outras palavras, é possível […] entender que as nossas obrigações morais são impostas por Deus. Isso torna claro o sentido da reivindicação de que nossas obrigações morais são mais forçosas sobre nós do que as nossas obrigações políticas […] Mas e se o legislador sobre-humano não for mais levado em consideração? O conceito de obrigação moral […] ainda fará sentido? […] sem a ideia de Deus, o conceito de obrigação moral [é] ininteligível. As palavras permanecem, mas o seu sentido se foi.” [14]
Disso, infere-se que as obrigações morais e os conceitos de certo e errado necessitam da existência de Deus. Com certeza, temos mesmo tais obrigações. Em palestra recente no campus de uma universidade canadense, chamou-me atenção um cartaz distribuído pelo Centro de Informação & Ataque Sexual [Sexual Assault & Information Center], no qual se lia: “Ataque sexual: ninguém tem o direito de violentar crianças, homens ou mulheres”. A maioria de nós reconhece que essa declaração é evidentemente verdadeira. Mas é possível ao ateu não compreender o direito de alguém não ser violentado por outra pessoa. A melhor resposta acerca da fonte da obrigação moral é que a retidão ou a maldade moral consiste na concordância ou discordância com a vontade ou mandamentos de um Deus santo e amoroso.
Por último, consideremos o problema da responsabilidade moral. Temos aqui um argumento poderosamente prático para acreditar em Deus. Segundo William James, os argumentos práticos só podem ser usados quando os argumentos teóricos são insuficientes para decidir uma questão de importância urgente e pragmática. Mas parece óbvio que um argumento prático poderia também ser usado para amparar ou motivar a aceitação da conclusão de um argumento teórico consistente. Portanto, crer que Deus não existe e que por isso não há razão para a prestação de contas e responsabilidade moral seria literalmente bem des-moralizante, pois assim teríamos que acreditar que as nossas escolhas morais são totalmente insignificantes, uma vez que tanto o nosso destino como o do universo serão o mesmo, não importa o que fizermos.
Com “des-moralizante”, quero dizer deterioração da motivação moral. É duro fazer a coisa certa, quando ela significa sacrificar o próprio interesse pessoal, e é duro também resistir à tentação de cometer o mal quando esse desejo é forte; a crença de que, no final das contas, não importa o que você escolha ou faça pode solapar a força moral de alguém, arruinando, portanto, a sua vida moral.
Como destaca Robert Adams: “A consideração de que seja muito provável que a história do universo, na sua totalidade, não será boa, não importa o que se faça, parece tender a induzir a um senso cínico de futilidade da vida moral, solapando a determinação e o interesse pessoal nas considerações morais”.[15] Em comparação, não há nada tão provavelmente capaz de fortalecer a vida moral como acreditar que haverá prestação de contas pelas próprias ações e que tais escolhas fazem de fato a diferença em promover o bem. O teísmo é, portanto, uma crença moralmente vantajosa, e isso, na falta de qualquer argumento teórico que estabeleça que o ateísmo é verdade, fornece fundamentos práticos para crer em Deus, bem como motivação para aceitar a conclusão dos dois argumentos teóricos que acabei de apresentar acima.
Resumindo, parece que os fundamentos teológicos metaéticos são realmente indispensáveis à moralidade. Se Deus não existe, é plausível considerar que não existem valores morais objetivos, que não temos obrigações morais e que não há prestação de contas e responsabilidade morais para o modo como vivemos e agimos. O horror de um mundo moralmente neutro é óbvio. Se, por outro lado, sustentarmos, como parece racional fazê-lo, que valores e deveres objetivos morais existem de fato, temos fundamentos para acreditar na existência de Deus. Além disso, temos poderosas razões práticas para adotar o teísmo em vista dos efeitos moralmente estimulantes que a crença na responsabilidade moral produz. Não podemos, portanto, ser realmente bons, se Deus não existir; mas, se podemos ser bons em certa medida, logo se conclui que Deus existe.
[1] RUSE, Michael. “Evolutionary Theory and Christian Ethics”, em: The Darwinian Paradigm. London: Routledge, 1989, p. 262, 268-269.
[2] TAYLOR, Richard. Ethics, Faith, and Reason. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1985, p. 2-3.
[6] Comentário crítico de: HAAS, Peter. Morality after Auschwitz: The Radical Challenge of the Nazi Ethic. Filadélfia: Fortress Press, 1988, por: RUBENSTEIN, R. L. Journal of the American Academy of Religion, 1992, p. 158.
[7] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. The Brothers Karamazov. Traduzido por C. Garnett. New York: Signet Classics, 1957, livro II, cap. 6.; livro V, cap. 4; livro XI, cap. 8 [publicado em português com o título Os irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2008].
[8] WURMBRAND, Richard. Tortured for Christ. Londres: Hodder & Stoughton, 1967, p. 34 [publicado em português com o título Torturado por amor a Cristo. São Paulo: A. D. Santos, 1998].
[9] NIELSEN, Kai. Why Should I Be Moral? American Philosophical Quarterly 21, 1984, p. 90.
[10] EASTON, S. C. The Western Heritage. 2.ed. New York: Holt, Rinehart & Winston, 1966, p. 878.
[11] HICK, John. Arguments for the Existence of God. New York: Herder & Herder, 1971, p. 63.
[12] FRIEDMAN, R. Z. Does the ‘Death of God’ Really Matter?International Philosophical Quarterly 23, 1983, p. 322.
[13] RUSE, Michael. Darwinism Defended. London: Addison-Wesley, 1982, p. 275.
[14] TAYLOR, Richard. Ethics, Faith, and Reason. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1985, p. 2-3.
[15] ADAMS, R. M. Moral Arguments for Theistic Belief. em: DELANEY, C. F. Rationality and Religious Belief, org. Notre Dame: University of Notre dame Press, 1979, p. 127.
Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas (Romanos 1:20)
Os antigos filósofos gregos ficavam impressionados com a ordem que há por todo o cosmo. As estrelas e os planetas em sua constante evolução pelo céu noturno eram algo que os impressionava de modo especial. Os acadêmicos dedicavam tempo e reflexão consideráveis ao estudo da astronomia, pois, como acreditava Platão, esta era a ciência que despertaria o homem para seu destino divino. Segundo Platão, havia duas coisas que levavam a humanidade a acreditar em Deus: o argumento sobre a existência da alma e o argumento “sobre a ordem do movimento das estrelas e de todas as coisas sob o domínio de uma Mente que colocara ordem no universo” (Leisxn, 966e.).
Platão usou esses argumentos para refutar o ateísmo e concluiu que deve haver uma “alma superior” que e o Pai e Criador de tudo, o “Rei” que colocou ordem no caos anterior, transformando-o no cosmo racional que observamos hoje (Leisx, 893b— 899c). Uma declaração ainda mais magnífica sobre o design divino pode ser encontrada em um fragmento de uma obra perdida de Aristóteles intitulada Da Filosofia. Ele também ficava tomado de profundo encanto diante da amplitude das hostes brilhantes através do céu noturno da Grécia antiga. Qualquer pessoa que já tenha pessoalmente se dedicado a estudar os céus deve dar ouvidos a esses filósofos da antiguidade que observavam o céu à noite, intocado pela poluição, e o brilho das luzes noturnas, e assistiam o girar lento mas irresistível do cosmo, repleto com seus planetas, estrelas e constelações conhecidas diante de seus olhos e se indagavam: O que causa tudo isso? Aristóteles concluiu que a causa era uma inteligência divina. Ele imaginava o impacto que a visão do mundo teria sobre uma raça de homens que tivesse vivido no subterrâneo sem jamais ter visto o céu:
Quando, então, eles tivessem de súbito a visão da terra, dos mares e do céu; quando eles viessem a conhecer a imensidão das nuvens e o poder dos ventos; quando eles vissem o sol e viessem a conhecer sua grandeza, sua beleza, bem como seu poder de fazer nascer o dia, ao lançar luz sobre o céu; e quando a noite outra vez tivesse lançado suas sombras sobre a terra e quando então eles pudessem admirar o céu salpicado e enfeitado de estrelas; e quando eles pudessem ver as mutantes luzes da lua, à medida que ela se enche e míngua, e o nascer e o se pôr de todos esses corpos celestiais com seus cursos fixos e imutáveis por toda a eternidade — quando eles admirassem todas essas coisas, eles, com toda certeza teria chegado à conclusão de que os deuses existem e que todas essas coisas maravilhosas são obras de suas mãos – Da Filosofia
Em sua Metafísica, Aristóteles levou adiante o argumento de que deve existir uma causa primeira não causada, que é Deus — um ser vivo, inteligente, imaterial, eterno e supremamente bom, que é a ponte de toda a ordem do cosmo.
Quem ler as obras desses filósofos da antiguidade não pode evitar pensar nas palavras de Paulo em sua carta aos Romanos: “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas” (Rm 1.20). Desde os primeiros tempos homens que desconheciam completamente a Bíblia chegaram à conclusão, com base no desenho do universo, que deve existir um Deus.
O renascer do design divino
Muitos astrônomos de hoje, em consequência de recentes descobertas, estão chegando a essa mesma conclusão.
Os cientistas costumavam pensar que como quer que tenha sido o universo em sua origem, dados tempo suficiente e algum acaso, formas de vida inteligente como o próprio ser humano viriam a se desenvolver com o tempo. Devido a descobertas feitas ao longo dos últimos quarenta e poucos anos, hoje sabemos que esse pressuposto estava errado. De fato, a verdade é exatamente o oposto disso.
Os astrônomos ficaram boquiabertos com a descoberta de quão complexo e delicado equilíbrio das condições iniciais deveria estar presente no próprio big bang, para que se tornasse possível existir no universo formas de vida inteligente onde quer que fosse no cosmo.
Esse delicado equilíbrio das condições iniciais veio a ser conhecido como o ajuste preciso (ou “sintonia fina”) do universo para a vida. O homem veio a descobrir que o universo é precisamente ajustado para a existência de vida inteligente com uma complexidade e delicadeza que literalmente desafiam a compreensão humana.
Dois tipos de ajustes precisos
Há dois tipos de ajustes precisos. O primeiro envolve as constantes da natureza e o segundo envolve certas quantidades físicas arbitrárias.
Constantes da natureza
Vamos falar primeiro das constantes da natureza. O que é uma constante? Quando as leis da natureza são expressas na forma de equações matemáticas, nota-se que aparecem nessas equações certos símbolos que representam quantidades imutáveis, como a força da gravidade, a força eletromagnética e a força subatômica “fraca”.
Essas quantidades imutáveis são chamadas constantes. As leis da natureza não determinam o valor dessas constantes. E possível que tivessem existido universos governados por essas mesmas leis da natureza ainda que essas constantes tivessem tido outros valores. Logo, o valor atual das várias constantes não é determinado pelas leis da natureza. Dependendo dos valores dessas constantes, universos controlados pelas mesmas leis da natureza pareceriam diferentes.
Quantidades arbitrárias
Além dessas constantes, existem certas quantidades arbitrárias que são meramente colocadas como condições iniciais dentro das quais as leis da natureza operam. Por serem arbitrárias essas quantidades também não são determinadas pelas leis da natureza. Um exemplo disso seria a quantidade de desordem termodinâmica (ou entropia) no universo de origem. Foi apenas dada no Big-Bang, como uma condição inicial, e então as leis da natureza assumiram o controle e determinaram como o universo evoluiria dali para frente. Se as quantidades iniciais tivessem sido diferentes, então as leis da natureza iriam prever que o resultado seria um universo bem diferente do que hoje conhecemos.
Definição de “precisamente ajustado”
Agora, o que os cientistas ficaram surpresos em descobrir é o fato de que essas constantes e quantidades devem se encaixar em um âmbito de valores extraordinariamente restrito para que possa permitir a existência de vida no universo. É isso que se pretende significar quando se diz que o universo é precisamente ajustado para a vida.
Exemplos desse ajuste preciso
O ajuste preciso nesse sentido neutro é algo incontroverso e bem estabelecido. Os físicos têm diversos exemplos de ajuste preciso. Antes de compartilhar alguns, permita-me lhe dar alguns números para que possa sentir a sofisticação desse ajuste preciso. O número de segundos em toda a história do universo é cerca de 10^17 (ou seja, o número 1 seguido por dezessete zeros: 100.000.000.000.000.000). Afirma-se que o número de partículas subatômicas em todo universo é cerca de 10^80 (o número 1 seguido por oitenta zeros). Tais números são tão grandes que são simplesmente incompreensíveis.
Agora, com esses números em mente, considere os seguintes exemplos de ajuste preciso. A chamada força fraca, uma das quatro forças fundamentais da natureza, que opera dentro do núcleo de um átomo, é algo tão precisamente ajustado que uma alteração em seu valor que fosse de uma parte em 10^100 teria impedido a existência de vida no universo!De modo semelhante, uma alteração na chamada constante cosmológica, que dirige a aceleração da expansão do universo, que fosse de uma parte em 10^120 teria resultado em um universo onde a vida não seria possível.
Roger Penrose, da Universidade de Oxford, calculou que as chances de que o estado de baixa entropia venha existir exclusivamente por acaso está na ordem de uma chance em 10^10 (123), um número que é tão inconcebível que chamá-lo de astronômico seria uma grosseira simplificação.
O ajuste preciso aqui está além da compreensão. Ter uma precisão de sequer uma parte em 10^60 é como mirar com um revólver em direção ao outro lado do universo observável, distante 20 bilhões de anos-luz, e acertar um alvo de 1 polegada!
[Outras constantes]:
Constante antrópica 1: Nível de oxigênio. Aqui na Terra, o oxigênio responde por 21 % da atmosfera. Esse número preciso é uma constante antrópica que torna possível a vida no planeta. Se o oxigênio estivesse numa concentração de 25%, poderia haver incêndios espontâneos; se fosse de 15%, os seres humanos ficariam sufocados.
Constante antrópica 2: Transparência atmosférica. Se a atmosfera fosse menos transparente, não haveria radiação solar suficiente sobre a superfície da Terra. Se fosse mais transparente, seríamos bombardeados com muito mais radiação solar aqui embaixo (além da transparência atmosférica, a composição da atmosfera, com níveis precisos de nitrogênio, oxigênio, dióxido de carbono e ozônio, é, por si só, uma constante antrópica).
Constante antrópica 3: Interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Enquanto começam a se preparar para circundar a Lua, os astronautas deparam-se com outra constante antrópica. Essa constante está relacionada à interação gravitacional que a Terra tem com a Lua. Se essa interação fosse maior do que é atualmente, os efeitos sobre as marés dos oceanos, sobre a atmosfera e sobre o tempo de rotação seriam bastante severos. Se fosse menor, as mudanças orbitais provocariam instabilidades no clima. Em qualquer das situações, a vida na Terra seria impossível.
Constante antrópica 4: Nível de dióxido de carbono. É claro que esse tipo de implementação não é necessária aqui na Terra porque a atmosfera terrestre mantém o nível correto de dióxido de carbono. Essa é outra constante antrópica. Se o nível de CO2 fosse mais alto do que é agora, teríamos o desenvolvimento de um enorme efeito estufa (todos nós seríamos queimados). Se o nível fosse menor, as plantas não seriam capazes de manter uma fotossíntese eficiente (todos nós ficaríamos sufocados).
Constante antrópica 5: Gravidade. Sua força pode ser impressionante, mas não poderia ser em nada diferente para que a vida existisse aqui no planeta. Se a força gravitacional fosse alterada em 0,00000000000000000000000000000000000001 por cento, nosso Sol não existiria e, portanto, nós também não. Isso é que é precisão!
O alcance da precisão do Universo faz o princípio antrópico ser talvez o mais poderoso argumento para a existência de Deus. Não se trata de simplesmente haver algumas constantes definidas de maneira bem aberta que talvez tenham aparecido por acaso. Não. Existem mais de cem constantes definidas com bastante precisão que apontam definitivamente para um Projetista inteligente. Já identificamos cinco delas. Vejamos outras dez:
1. Se a força centrífuga do movimento planetário não equilibrasse precisamente as forças gravitacionais, nada poderia ser mantido numa órbita ao redor do Sol.
2. Se o Universo tivesse se expandido numa taxa um milionésimo mais lento do que o que aconteceu, a expansão teria parado, e o Universo desabaria sobre si mesmo antes que qualquer estrela pudesse ser formada. Se tivesse se expandido mais rapidamente, então as galáxias não teriam sido formadas.
3. Qualquer uma das leis da física pode ser descrita como uma função da velocidade da luz (agora definida em 299.792.458 m por segundo). Até mesmo uma pequena variação na velocidade da luz alteraria as outras constantes e impediria a possibilidade de vida no planeta Terra.
4. Se os níveis de vapor d’água na atmosfera fossem maiores do que são agora, um efeito estufa descontrolado faria as temperaturas subirem a níveis muito altos para a vida humana; se fossem menores, um efeito estufa insuficiente faria a Terra ficar fria demais para a existência da vida humana.
5. Se Júpiter não estivesse em sua rota atual, a Terra seria bombardeada com material espacial. O campo gravitacional de Júpiter age como um aspirador de pó cósmico, atraindo asteróides e cometas que, de outra maneira, atingiriam a Terra.
6. Se a espessura da crosta terrestre fosse maior, seria necessário transferir muito mais oxigênio para a crosta para permitir a existência de vida. Se fosse mais fina, as atividades vulcânica e tectônica tornariam a vida impossível.
7. Se a rotação da Terra durasse mais que 24 horas, as diferenças de temperatura seriam grandes demais entre a noite e o dia. Se o período de rotação fosse menor, a velocidade dos ventos atmosféricos seria grande demais.
8. A inclinação de 23° do eixo da Terra é exata. Se essa inclinação se alterasse levemente, a variação da temperatura da superfície da Terra seria muito extrema.
9. Se a taxa de descarga atmosférica (raios) fosse maior, haveria muita destruição pelo fogo; se fosse menor, haveria pouco nitrogênio se fixando no solo.
10. Se houvesse mais atividade sísmica, muito mais vidas seriam perdidas; se houvesse menos, os nutrientes do piso do oceano e do leito dos rios não seriam reciclados de volta para os continentes por meio da sublevação tectônica (sim, até mesmo os terremotos são necessários para sustentar a vida como a conhecemos!).
O astrofísico Hugh Ross calculou a probabilidade de que essas e outras constantes — 122 ao todo — pudessem existir hoje em qualquer outro planeta no Universo por acaso (i.e., sem um projeto divino). Partindo da ideia de que existem 10^22 planetas no Universo (um número bastante grande, ou seja, o número 1 seguido de 22 zeros), sua resposta é chocante: uma chance em 10^138 — isto é, uma chance em 1 seguido de 138 zeros![1] Existem apenas 10^70 átomos em todo o Universo. Com efeito, existe uma chance zero de que qualquer planeta no Universo possa ter condições favoráveis à vida que temos, a não ser que exista um Projetista inteligente por trás de tudo.
Existem muitas outras constantes finamente sintonizadas da natureza além dessas forças. Considere a proporção de massas para prótons e elétrons, como um exemplo final. A massa de um próton é de aproximadamente 1836.1526 vezes a massa do elétron.[2]Se essa proporção fosse alterada em qualquer grau significativo, a estabilidade de muitos produtos químicos comuns seria comprometida. No fim, isso impediria a formação de moléculas como o DNA, os blocos de construção da vida.[3] Mas no que diz respeito ao desenvolvimento da vida na Terra, às vezes se afirma que a seleção natural encontraria um modo de desenvolver-se, não importa quais as circunstâncias. Desta forma, a natureza às vezes é dita por se sintonizar sozinha. Entretanto, o ajuste fino do carbono é responsável pela habilidade da natureza de ajustar-se a qualquer grau. Como o professor Alister McGrath apontou:
“[Todo o processo biológico] evolutivo depende da química incomum do carbono, o que lhe permite ligar-se a si próprio, bem como outros elementos, criando moléculas altamente complexas que são estáveis sobre as temperaturas terrestres predominantes e são capazes de transmitir informação genética ADN. […] Embora se possa argumentar que a natureza cria seu próprio ajuste fino, isso só pode ser feito se os constituintes primordiais do universo são tais que um processo evolutivo pode ser iniciado. A química única do carbono é o fundamento último da capacidade da natureza para sintonizar-se.” [4]
O ganhador do Prêmio Nobel Amo Penzias, um dos descobridores da radiação posterior ao Big Bang, expõe as coisas da seguinte maneira:
“A astronomia nos leva a um acontecimento único, um Universo que foi criado do nada e cuidadosamente equilibrado para prover com exatidão as condições requeridas para a existência da vida. Na ausência de um acidente absurdamente improvável, as observações da ciência moderna parecem sugerir um plano por trás de tudo ou, como alguém poderia dizer, algo sobrenatural.” [5]
O cosmologista Ed Harrison usa a palavra “prova” quando considera as implicações do princípio antrópico na questão de Deus. Ele escreve:
“Aqui está a prova cosmológica da existência de Deus — o argumento do projeto de Paley atualizado e reformado. O ajuste uno do Universo nos dá evidências prima facie do projeto deístico.” [6]
[Outras citações de físicos]:
“Onde quer que os físicos olhem, eles vêem exemplos de ajuste fino.” – Sir Martin Rees
“O fato notável é que os valores desses números parecem ter sido muito bem ajustado para tornar possível o desenvolvimento da vida.” – Stephen Hawking
“Se alguém diz não estar surpreso pelas características especiais que o universo tem, está escondendo sua cabeça na areia, tais características são surpreendentes e improváveis” – David Deutsch
“Uma interpretação de senso comum dos fatos sugere que uma superinteligência brincou com a física … e que não há nenhuma força cega das quais devemos falar na natureza. Os números calculados dos fatos me parecem tão esmagadores como que colocam esta conclusão quase além da discussão.” – Fred Hoyle
“Há para mim fortes provas de que há algo acontecendo por trás de tudo … parece que alguém ajustou os números para criar o universo. A impressão do design é esmagadora”. -Paul Davies [7]
Os exemplos de ajuste preciso são tantos e tão variados que é improvável que eles desapareçam com o avanço da ciência. Quer gostemos ou não, o ajuste preciso é somente um fato da vida que é cientificamente bem consolidado.
Uma possível objeção e sua resposta
Ora, alguns de vocês podem pensar: Mas se essas constantes e quantidades tivessem tido valores diferentes, então talvez diferentes formas de vida pudessem ter se desenvolvido. No entanto, essa afirmação subestima as consequências verdadeiramente desastrosas de uma alteração nessas constantes e quantidades. Quando os cientistas dizem que um universo admite a existência da vida, eles não estão se referindo apenas as formas de vida atuais. Por “vida” querem dizer apenas a propriedade de organismos se alimentarem, extraírem energia desse processo, crescerem, adaptarem-se ao seu meio e se reproduzirem. O que quer que seja que possa cumprir essas funções conta como forma de vida, qualquer que seja essa forma. E para que a vida assim definida exista, as constantes e quantidades presentes no universo têm que ser inacreditável e precisamente ajustadas. Na ausência desse ajuste preciso, nem mesmo a matéria ou sequer a química existiriam, menos ainda os planetas onde a vida pudesse se desenvolver!
Outra objeção e sua resposta
Algumas pessoas podem retrucar: Mas quem sabe em um universo controlado por diferentes leis da natureza essas consequências desastrosas pudessem não resultar. No entanto, essa objeção demonstra uma compreensão equivocada do argumento.
Não estamos preocupados com universos controlados por diferentes leis da natureza. Não temos a menor ideia de como tais universos seriam! Antes, estamos preocupados somente com universos controlados pelas mesmas leis da natureza, mas com diferentes constantes e quantidades arbitrárias.Pelo fato de as leis serem as mesmas, podemos determinar o que aconteceria se as constantes e quantidades fossem alteradas. E os resultados se mostram desastrosos. Dentre universos controlados por leis da natureza como as nossas, não existe praticamente a menor chance de que um universo casualmente escolhido pudesse admitir a existência de vida.
Um argumento em favor do design
Assim, a questão que enfrentamos é esta: Qual é a melhor explicação para o ajuste preciso do universo? Muitos acreditam que o motivo de o universo ser precisamente ajustado para a vida está no fato de ele ter sido desenhado ou projetado por um designer inteligente de modo a permitir a existência de vida.
Mas o design não é a única alternativa. Temos também a necessidade física e o acaso. O segredo para inferir que o design é a melhor explicação está em eliminar essas outras duas alternativas. De acordo com isso, podemos apresentar um argumento muito simples de três passos:
1. O ajuste preciso do universo se deve ou a uma necessidade física ou ao acaso ou ao design. 2. O ajuste preciso do universo não se deve a uma necessidade física ou ao acaso. 3. Logo, ele se deve ao design.
Esse é um argumento logicamente válido cuja conclusão se segue necessariamente das duas premissas anteriores. A questão que resta é saber se essas premissas são mais plausivelmente verdadeiras ou falsas. Portanto, vamos analisá-las.
Primeira Premissa
O ajuste preciso do universo se deve ou a uma necessidade físíca ou ao acaso ou ao design.
A primeira premissa não pode sofrer objeções pois ela apenas cita as três alternativas que existem para explicar o ajuste preciso. Se alguém tiver mais alguma outra alternativa, pode ficar à vontade para acrescentá-la a essa lista e então a levaremos em consideração quando chegarmos à segunda premissa. No entanto, parece que não há mais alternativas além dessas três mencionadas.
Segunda Premissa
O ajuste preciso do universo não se deve a uma necessidade física ou ao acaso.
Assim, a premissa crucial é a segunda. Vamos examinar cada uma das alternativas que ela cita por vez.
Necessidade física?
Segundo a primeira alternativa, a necessidade física, o universo tem que admitir a existência de vida. As constantes e as quantidades devem ter os valores que têm, de modo que um universo que não admite a existência de vida é algo fisicamente impossível.
A implausibilidade da necessidade física.
Ora, diante dessa alternativa vemos que ela parece fantasticamente implausível. Ela requer que digamos que um universo onde a vida não fosse possível é uma impossibilidade física. Porém, por que tomar uma visão tão radical? As constantes não são determinadas pelas leis da natureza. Então, como elas não poderiam ser diferentes? Além disso, as quantidades arbitrárias são apenas condições-limite nas quais as leis da natureza operam. Nada parece fazê-las necessárias. Vemos, com isso, que os opositores do design estão tomando uma linha de raciocínio radical que exige alguma prova. Mas não há prova alguma. Essa alternativa é posta como uma possibilidade nua e crua.
Às vezes alguns cientistas falam em uma “Teoria Do Tudo” (TOE , sigla da expressão em inglês: Theory Of Everything) que certamente soa como uma explicação física de tudo, inclusive do ajuste preciso. No entanto, como os tantos nomes pitorescos que são dados às teorias cientificas, esse rótulo também é bastante enganoso. Uma teoria como essa, se bem-sucedida, possibilitaria que uníssemos as quatro forças básicas da natureza (gravidade, a força nuclear fraca, a força nuclear forte e o electromagnetismo) em uma única força carregada por um único tipo de partícula. Isso resultaria em uma grande simplificação da física. Mas não chegaria nem perto de tentar explicar literalmente coisa nenhuma. Por exemplo, a candidata mais promissora a uma teoria desse tipo que se conhece até hoje, a chamada Teoria M ou teoria da supercorda somente funciona se existirem onze dimensões. Mas a própria teoria simplesmente não consegue explicar por que esse número específico de dimensões deve existir.
Além do mais, a teoria M não prevê unicamente um universo que admita a existência de vida. Ele permite uma vasta gama de cerca de 10^500 diferentes universos possíveis, todos consistentes com as mesmas leis, mas com variações nos valores das constantes da natureza. Quase todos esses possíveis universos não admitem a existência de vida. Assim, é necessária uma explicação do por que, dentre todas essas possibilidades, existe um universo que admite a existência de vida. Não podemos dizer que universos que admitem a existência de vida são fisicamente necessários, uma vez que, ao menos com base na teoria M isso claramente é falso.
Logo, não há evidências de que um universo que admite a existência de vida seja algo fisicamente necessário. Muito pelo contrário, toda a evidencia indica que universos que não admitem a existência de vida não são apenas possíveis, mas também bem mais prováveis do que qualquer universo que admite a existência de vida.
Acaso?
Isso nos leva à nossa segunda alternativa: O ajuste preciso poderia dever-se simplesmente ao acaso? Segundo esta alternativa de que falamos, é um mero acidente o fato de que todas as constantes e quantidades caiam no âmbito em que se admite a existência de vida. Nós basicamente somos uns sortudos! O problema fundamental que temos aqui é que as chances de que o universo que existe acontecer de admitir a existência de vida são tão remotas que essa alternativa se torna não razoável.
A improbabilidade de um universo que admita a existência de vida
Alguns às vezes objetam que não faz sentido falar da probabilidade de um universo precisamente ajustado existir porque só existe, afinal, um único universo. Assim, não podemos dizer que um dentre cada dez universos, por exemplo, admite a existência de vida. No entanto, a ilustração que apresentaremos a seguir, do físico John Barrow, esclarece em que sentido é improvável um universo que admita a existência de vida. Pegue uma folha de papel e faça sobre ela um ponto vermelho. Esse ponto representa o nosso universo. novo conjunto de constantes e quantidades descrever um universo que permite a existência dc vida, faça um ponto vermelho; do contrário, faça um ponto azul. Agora repita esse procedimento até que a folha está cheia de pontos. Você acabará com uma folha repleta de pontos azuis e apenas alguns pontos vermelhos. E nesse sentido que é avassaladoramente improvável que o universo deva admitir a existência de vida, pois existe um número imensamente maior de universos que não permitem a existência de vida do que o oposto, ou seja, universos que a permitam.
Ilustrações da loteria
Alguns apelam ao exemplo de uma loteria para justificar a alternativa do acaso. Em uma loteria em que todos os bilhetes estejam vendidos, é incrivelmente improvável de que alguém ganhe, contudo alguém tem que ganhar! Não se justificaria que um ganhador, qualquer que fosse ele, dissesse: “As chances de que eu não ganhasse eram de 20 milhões contra 1. Mas ainda assim eu ganhei! A loteria deve ter sido fraudada!”. Do mesmo modo, dizem essas pessoas, algum universo que esteja da escala dos universos possíveis tem que existir. O ganhador dessa loteria do universo também não teria justificativas para pensar que, porque o universo dele existe, isso deve ser fruto do design, e não do acaso. Todos os universos são igualmente improváveis, mas um deles, por acaso, tem que vencer.
Essa analogia é na verdade muito útil, pois nos possibilita ver com clareza em que ponto aqueles que defendem o acaso entenderam mal o argumento em favor do design e, com isso, podemos oferecer uma analogia melhor e mais precisa em substituição. Ao contrário da impressão que as pessoas têm, o argumento do design não está tentando explicar porque este universo em particular existe. Antes, ela tenta explicar porque um universo que admite a existência de vida existe. A analogia da loteria está equivocada porque ela se volta unicamente para o porquê de uma única pessoa ter ganhado.
A analogia correta seria a de uma loteria em que bilhões e bilhões de bolas brancas de pingue pongue estivessem todas misturadas com uma única bola preta, e alguém lhe diria que uma bola seria aleatoriamente tirada do meio de todas as outras. Se a bola retirada fosse a preta, você poderia viver; se fosse uma das brancas, você seria morto.
Ora, observe que qualquer bola em particular que seja aleatoriamente escolhida é igualmente improvável: não importa qual bola desça pela canaleta, as chances contra aquela bola em particular são fantasticamente improváveis. No entanto, alguma das bolas deve rolar canaleta abaixo. Esse é o ponto que foi ilustrado pela primeira analogia da loteria. Esse ponto, porém, é irrelevante, pois não estamos tentando explicar porque essa bola em particular foi escolhida O ponto crucial é que, qualquer que seja a bola que role canaleta abaixo, é avassaladoramente mais provável que ela será uma das bolas brancas, e não a preta. O fato de pegar uma bola preta não é mais improvável do que pegar qualquer uma das bolas brancas. Mas é mais provável de uma forma além da nossa compreensão que você pegue uma bola branca em vez da preta. Por isso, se a bola preta rolar pela canaleta, você pode estar certo em suspeitar que a loteria foi fraudada para permitir que você viva.
Assim, segundo a analogia correta, não estamos interessados em saber porque você pegou a bola específica que pegou. Antes, estamos tentando entender por que, a despeito de todas as chances contrárias, você pegou uma bola que permite a existência de vida, e não o contrário. E essa questão não é tratada quando se diz apenas: “Ora, alguma bola tinha que ser escolhida!”.
Do mesmo modo, algum universo existe, mas qualquer que seja ele, é incompreensivelmente mais provável que seja um universo que não permita a existência de vida, em vez de um universo que permita. Assim, ainda precisamos de uma explicação do por que um universo que permite a existência de vida existe.
É necessária uma explicação?
Algumas pessoas já argumentaram que não é necessária uma explicação para um universo que permite a existência de vida, pois esse é o único tipo de universo que podemos observar! Se o universo não permitisse a existência de vida, então não estaríamos aqui para perguntar nada. (Isso é chamado princípio antrópico, pois afirma que podemos observar apenas as propriedades do universo que são compatíveis com a nossa existência).
Esse raciocínio é uma falácia. O fato de que podemos observar apenas um universo que permita a existência de vida não elimina a necessidade de uma explicação para a existência desse universo. Mais uma vez uma ilustração poderá nos ajudar. Imagine que você viajou para o exterior e acabou sendo preso por uma falsa acusação de porte de drogas. Então, você é arrastado para frente de um pelotão de cem atiradores altamente treinados que estão à distância de um tiro à queima-roupa. Você ouve o comando: “Preparar… Apontar… Fogo!” Ouve o som ensurdecedor das armas sendo disparadas. E então nota que ainda está vivo! E que todos os cem atiradores erraram o tiro! Ora, o que você pode concluir disso?
Ora, acredito que eu não devo ficar surpreso pelo fato de todos os cem atiradores terem errado o tiro! Afinal, se isso não tivesse acontecido, não estaria aqui para me surpreender com isso! Não há nada aqui a ser explicado!”
E claro que não! É verdade que você não deve ficar surpreso pelo fato de não poder observar que você está morto, uma vez que, se estivesse morto, não poderia mesmo observar esse fato. Mas ainda assim deve ficar surpreso em observar que você está vivo, à luz da enorme improbabilidade dc que todos os cem atiradores errassem o tiro. Na verdade, você provavelmente chegou à conclusão de que todos eles erraram o tiro de propósito, que era tudo uma armação preparada por alguém, por algum motivo.
A hipótese dos muitos mundos
Portanto, os teóricos vieram a reconhecer que o princípio antrópico não pode eliminar a necessidade de uma explicação do ajuste preciso a menos que seja combinado com a hipótese dos muitos mundos. Segundo essa hipótese, nosso universo não passa de um elemento integrante de um conjunto de mundos ou “multiverso” de universo aleatoriamente ordenados, e preferivelmente infinitos em números. Se todos esses universo realmente existirem, então, por puro acaso outros mundo que permitem a existência de vida irão aparecer em algum lugar desse conjunto de mundos. E uma vez que apenas os universos que universos que têm um ajuste preciso terão observadores, quaisquer observadores que existam nesse conjunto de mundos naturalmente observarão que o seu respectivo mundo goza de um ajuste preciso. Portanto, nenhum apelo ao design é necessário para explicar o ajuste preciso, é puro acaso.
Primeira resposta à hipótese dos muitos mundos
Uma forma de responder à hipótese dos muitos mundos seria mostrar que o próprio multiverso envolve o ajuste preciso. Pois, para que seja cientificamente crível, deve ser sugerido algum tipo de mecanismo para a geração dos muitos mundos. Porém, se é para que a hipótese dos muitos mundos seja bem-sucedida em atribuir o ajuste preciso exclusivamente ao acaso, então é melhor que esse próprio mecanismo de geração dos muitos mundos não seja ele mesmo parte de um ajuste preciso! Pois, se ele for, acabaremos com o mesmo problema do início: Como explicar o ajuste preciso do multiverso?
Os mecanismos propostos para a geração de um conjunto de mundos são tão vagos que está longe de estar claro se a física que controla o multiverso não envolverá algum tipo de ajuste preciso. Por exemplo, se a teoria M for a física do multiverso, então continua sem explicação, como vimos, porque existem exatamente onze dimensões. E o mecanismo que torna atuais todas essas possibilidades na paisagem cósmica pode envolver um ajuste preciso. Assim, o postulado de um conjunto de mundos não é em si mesmo suficiente a ponto de justificar a alternativa do acaso.
Segunda resposta à hipótese dos muitos mundos
Além do mais, muitos teóricos olham a hipótese dos muitos mundos com certo ceticismo. Por que pensar que um conjunto de mundos tenha existência atual? (…) O teorema Borde-Guth-Vilenkin exige que mesmo um multiverso de universos de bolha tenha uma origem. No caso em questão, o mecanismo que gera os universos de bolhas vem mantendo-os afastados por apenas uma quantidade finita de tempo. Assim, até esta altura em que vivemos, pode muito bem existir apenas uma quantidade finita de bolhas no conjunto de mundos, as quais podem não ser suficientes para garantir o surgimento de um universo precisamente ajustado somente por acaso. Não há qualquer evidência de que esse tipo de conjunto de mundos exigido pela hipótese dos muitos mundos tenha existência atual.
Em contraste, temos boas e independentes razões para acreditar em um Designer do cosmo, como mostram os argumentos de Leibniz e Al-Ghazali.
Terceira resposta à hipótese dos muitos mundos
Além disso, a hipótese dos muitos mundos enfrenta o que pode ser uma objeção devastadora. (…) O que afundou a hipótese de Boltzmann foi o fato de que, se o nosso mundo é apenas um membro aleatório de um conjunto de mundos, então é amplamente mais provável que deveríamos estar observando uma região de ordem bem menor. Acontece que a hipótese dos muitos mundos enfrenta um problema paralelo como explicação do ajuste preciso do cosmos.
Roger Penrose tem defendido com veemência essa objeção.[8] Ele enfatiza que as chances de que as condições iniciais de baixa entropia do nosso universo tenham sido exclusivamente aleatórias estão na proporção de uma chance em 10^10 (123). Por contraste, as chances de nosso sistema solar ter se formado de repente, pela colisão aleatória de partículas é da proporção de uma chance em 10^10 (60). Esse número, segundo Penrose, é “café pequeno” em comparação com uma chance em 10^10 (123). O que isso significa é que é bem mais provável que devêssemos estar observando um universo ordenado não mais amplo do que nosso sistema solar, uma vez que um mundo desse tamanho é algo incomensuravelmente mais provável do que um universo precisamente ajustado como o nosso.
Na verdade, acabamos com o mesmo tipo de ilusionismo que pesou sobre a hipótese de Boltzmann. Um pequeno mundo com a ilusão de um universo maior e ordenado é mais provável do que um universo real e precisamente ajustado. Levada ao extremo, essa ideia levou ao que os teóricos chamaram de “a invasão do cérebro de Boltzmann”. Pois o universo observável mais provável é aquele que consiste de um único cérebro que brota na existência por meio de uma flutuação aleatória com percepções ilusórias de um cosmo ordenado! Assim, se você aceitar a hipótese dos muitos mundos será obrigado a acreditar que você é tudo o que existe e que este livro, o seu corpo, a terra e tudo o mais que você percebe no mundo são meras ilusões.
Ninguém em sã consciência acredita ser um produto do cérebro de Boltzmann. Portanto, dado o ateísmo, é altamente improvável que exista um conjunto de mundos aleatoriamente ordenado. Ironicamente, a melhor das esperanças para os partidários do multiverso é manter que Deus criou o multiverso e ordenou seus mundos, de modo que eles não são aleatoriamente ordenados. Deus poderia dar preferência a mundos observáveis que são precisamente ajustados cosmicamente. Ou seja, para ser racionalmente aceitável, a hipótese dos muitos mundos precisa de Deus.
Com a falha da hipótese dos muitos mundos, o último elo de defesa para uma alternativa baseada no acaso entra em colapso. Nem a necessidade física nem o acaso fornecem uma boa explicação para o ajuste preciso do universo.
O design: A objeção de Dawkins
E quanto ao design? Essa explicação é melhor do que a explicação da necessidade física ou que o acaso, ou é igualmente implausível?
Aqueles que não concordam com o design às vezes apresentam a objeção de que na hipótese do design é o próprio Designer do cosmo que permanece sem explicação. Foi essa objeção que Richard Dawkins chama de “o argumento central do meu livro”, The God Delusion [Deus, um delírio]. Ele sintetiza seu argumento da seguinte forma:
1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano tem sido explicar como surgiu no universo o complexo e improvável design.
2. A tentação natural é atribuir o surgimento do design ao próprio design atual.
3. Essa tentação e falsa, pois a hipótese do designer imediatamente faz surgir o problema maior de quem criou o designer.
4. A explicação mais engenhosa e poderosa é a evolução de Darwin baseada na seleção natural.
5. Não temos uma explicação equivalente para a física.
6. Não devemos desistir da esperança de surgir uma explicação melhor no campo da física, algo que seja tão poderoso quanto o darwinismo é para a biologia. Logo, é praticamente certo que Deus não existe.
A invalidade do argumento de Dawkins: a conclusão não se segue das premissas
O argumento de Dawkins é chocante pelo fato de a conclusão artista — “Logo, é praticamente certo que Deus não existe” — não se segue das seis premissas anteriores, mesmo que façamos a concessão de dizer que cada uma delas é verdadeira. Não há na lógica regras que permitam tal inferência. O argumento de Dawkins é claramente inválido. Na melhor das hipóteses, tudo que se segue a partir do argumento de Dawkins é que não devemos inferir a existência de Deus com base no surgimento do design no universo. Mas essa conclusão é bastante compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa justificável crença na existência de Deus. Talvez devêssemos acreditar em Deus com base no argumento cosmológico ou moral. Talvez nossa crença em Deus não seja de modo algum baseada em argumentos, mas sim em nossa experiência religiosa ou na revelação divina. O ponto é que refutar os argumentos do design em favor da existência de Deus não faz nada mais do que provar que o ateísmo é verdade ou que a crença em Deus não se justifica. A falta de profundidade teológica de Dawkins fica claramente exposta aqui.
Na melhor das hipóteses, tudo que se segue a partir do argumento de Dawkins é que não devemos inferir a existência de Deus com base no surgimento do design no universo. Mas essa conclusão é bastante compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa justificável crença na existência de Deus. Talvez devêssemos acreditar em Deus com base no argumento cosmológico ou moral. Talvez nossa crença em Deus não seja de modo algum baseada em argumentos, mas sim em nossa experiência religiosa ou na revelação divina. O ponto é que refutar os argumentos do design em favor da existência de Deus não faz nada mais do que provar que o ateísmo é verdade ou que a crença em Deus não se justifica. A falta de profundidade teológica de Dawkins fica claramente exposta aqui.
A falsidade das premissas de Dawkins
Porém, será que o argumento de Dawkins é bem-sucedido ao menos em minar o argumento em favor do De modo algum. pois várias das premissas do argumento de Dawkins são plausivelmente falsas. A quinta premissa refere-se ao ajuste preciso do universo, que tem sido o foco de nossa discussão. Dawkins não tem nada a apresentar como explicação para isso e, portanto, a esperança expressada na premissa 6 não representa nada mais do que a fé de um naturalista.
Além do mais, considere a terceira premissa. Dawkins alega aqui que não temos justificativas para inferir que o design seja a melhor explicação para a complexa ordem do universo, pois, se o fizermos, surge um novo problema: Quem criou o Designer?
Primeiro problema com a terceira premissa: “você não precisa explicar a explicação”
Essa alegação falha em pelo menos dois aspectos. Primeiro, para reconhecer uma explicação como sendo a melhor, você não precisa ter uma explicação da explicação. Essa é uma questão elementar da filosofia da ciência. Se um grupo de arqueólogos, em suas escavações, encontrassem objetos que se parecessem com flechas e alguns cacos de cerâmica, seria plenamente justificável que eles inferissem que tais artefatos eram produtos de alguma civilização desconhecida, e não um resultado aleatório da sedimentação e metamorfose, mesmo que eles não tivessem ainda uma explicação de quem foi essa civilização ou de onde ela viera. Da mesma forma, se um grupo de astronautas se deparasse com um amontoado de máquinas em algum ponto da superfície lunar, seria plenamente justificável que eles inferissem que isso era um produto de agentes inteligentes, mesmo que eles não tivessem a mais remota ideia de quem fossem esses agentes e de como eles tinham chegado ali.
Assim, a fim de reconhecer uma explicação como sendo a melhor, você não precisa ser capaz de explicar a explicação. Na verdade, tal exigência levaria a uma regressão infinita de explicações, de modo que nada poderia jamais ser explicado e a ciência estaria destruída! Pois antes que uma explicação pudesse ser aceitável, você precisaria ter uma explicação para ela, e então uma explicação para a explicação da primeira explicação, e assim por diante… Nada jamais poderia ser explicado.
Por isso, no caso em questão, a fim de reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para o surgimento do design no universo, ninguém precisa ser capaz de explicar o Designer. O fato de o D esigner ter ou não uma explicação é uma questão que pode ser deixada em aberto para futuras investigações.
Segundo problema com a terceira premissa: “Deus é notavelmente simples”
Segundo, Dawkins pensa que, caso se aceite a hipótese do Designer divino do universo, o Designer é tão complexo quanto é complexa a coisa a ser explicada, de modo que explicação de antemão é feita. Essa objeção levanta todos os tipos de questões sobre o papel que a simplicidade desempenha em permitir acesso a explicações competentes. Por exemplo, existem muitos outros fatores além da simplicidade que os cientistas pesam quando estão determinando qual é a melhor explicação, como o poder da explicação, seu escopo e assim por diante. Uma explicação que possua um escopo mais amplo pode ser menos simples que uma explicação concorrente, mas ainda assim ser preferida por explicar mais coisas. A simplicidade não é o único critério, nem mesmo o mais importante para se avaliar teorias.
Mas deixemos essas questões de lado. O erro fundamental de Dawkins está em presumir que um Designer divino seja tão complexo quanto o universo. Isso é decididamente falso. Como uma mente pura, sem um corpo, Deus é um ente notavelmente simples. Uma mente (ou alma) não é um objeto físico composto de partes. Em contraste com um universo contingente e diversificado, com todas as suas inexplicáveis constantes e quantidades, uma mente divina é algo surpreendentemente simples. Por certo que tal mente pode ter ideias complexas — pode estar pensando, por exemplo, em um cálculo infinitesimal — mas essa mente em si é um ente espiritual incrivelmente simples. Dawkins evidentemente confundiu as ideias de uma mente, que podem na verdade ser complexas, com a própria mente em si, que é um ente incrivelmente simples. Portanto, postular que há uma mente divina por trás do universo representa em definitivo um avanço em termos de simplicidade, qualquer que seja seu valor.
Há outras premissas no argumento de Dawkins que são problemáticas, mas acho que já foi dito o suficiente para mostrar que o argumento dele em nada contribuiu para minimizar o argumento do ajuste preciso em favor de um Designer do universo, sem mencionar o fato de que o argumento dele serviu como uma justificação do ateísmo. Há muitos anos Quentin Smith, um filósofo ateu, sem a menor cerimônia, elegeu o argumento de Stephen Hawking contra Deus, em A Brief History of Time [Um breve história do tempo], como “o pior argumento ateísta de toda a história do pensamento ocidental”.[9] Com o lançamento da obra The God Delusion chegou o tempo, assim creio, de livrar o argumento de Hawking do peso desse título e de passar o título de pior argumento para a tese de Richard Dawkins.
Conclusão
Portanto, parece-me que das três alternativas que temos diante de nós — a necessidade física, o acaso e o design — a mais plausível da três é o design. Platão e Aristóteles sem sombra de dúvida iriam se sentir gratificados pelo fato de a ciência moderna defender as visões deles. Temos, então, um terceiro argumento em nossa série de argumentos em favor da existência de Deus.
[1] ROSS, Hugh. “Why I Believe in DivineCreation“, em: GEISLER, Norman.; HOFFMAN, Paul. Why I Am a Christian: Leading Thinkers Explain Why They Believe. Grand Rapids: Baker, 2001, p. 138-41.
[4] MCGRATH, Alister. A Finely-Tuned Universe: The Quest for God in Science and Theology. Louisville: Westminster John Knox Press, 2009. Para mais informações sobre o ajuste biológico do ambiente, veja especificamente os capítulos 10 e 11.
[5] Apud BRADLEY, Walter. “The ‘Just-so’ Universe: The Fine-Tuning of Constants and Conditions in the Cosmos”, em: DEMBSKI, William.; KUSHINER, James. Signs of Intelligence. Grand Rapids: Baker, 2001, p. 168.
[6] Apud GEISLER, Norman.; HOFFMAN, Paul. Why I Am a Christian: Leading Thinkers Explain Why They Believe. Grand Rapids: Baker, 2001, p. 142.
[8] PENROSE, Roger. The Road to Reality. New York: Alfred A. Knopf, 2005, p. 762-765.
[9] SMITH, Quentin. “The Wave Function of a Godless Universe”, em: CRAIG, W. L.; SMITH, Quentin. Theism, Atheism and Big Bang Cosmology. Oxford: Clarendon Press, 1993, p. 322.
Traduzido, retirado e adaptado de: http://biologos.org/common-questions/gods-relationship-to-creation/fine-tuning
Em Guarda – William Lane Craig
Não tenho fé suficiente para ser ateu – Norman Geisler
As raízes do argumento moral a favor da existência de Deus são encontradas em Romanos 2:12-15, onde o Apóstolo Paulo fala que a humanidade é indesculpável porque tem a “lei escrita no coração”. Nos últimos 250 anos, este argumento tem sido proposto de diversas forma s, sendo que sua forma mais popular vem de C. S. Lewis (1898-1963), na primeira parte do seu conhecido livro Mere Christianity (Cristianismo Simples). O cerne do argumento segue a seguinte estrutura básica:
(1) A Lei Moral implica um Legislador Moral. (2) Existe uma lei moral objetiva. (3) Portanto, existe também um Legislador Moral objetivo.
A primeira premissa é auto-evidente. Uma lei moral é um preceito, e preceitos são passados por preceptores. Ao contrário das leis da natureza (que são somente descritivas), as leis morais são preceptivas: Elas não descrevem o que as coisas são; elas prescrevem como elas deveriam ser. Elas não são somente uma descrição da maneira como as pessoas se comportam, mas imperativos de como deveriam se comportar.
A força do argumento moral a favor da existência de Deus está na segunda premissa—aquela que afirma a existência de uma lei moral objetiva. Ou seja, existe uma lei moral que não somente é prescrita pelos seres humanos, mas também para os seres humanos. A questão é se existe alguma evidência a favor de um preceito objetivo e universal que englobe todos os seres humanos.
A evidência a favor de uma lei moral objetiva é forte; ela fica implícita nos julgamentos morais que fazemos: “O mundo está ficando melhor (ou pior)”. Como podemos saber disso, se não há algum tipo de parâmetro através do qual possamos medir o grau de melhora no mundo? Da mesma forma, frases como “Hitler estava errado” perdem o seu significado quando se tratam de simples questão de opinião ou são culturalmente relativizadas. Só que se Hitler estava realmente (e objetivamente) errado, precisa haver uma lei moral por detrás de todos nós, e à qual todos precisamos nos subordinar. E, se existe esta lei moral objetiva que nos prende a todos, então existe também, necessariamente, um Legislador Moral (Deus).
C. S. Lewis responde de forma efetiva às objeções típicas a este argumento moral, conforme parafraseado no texto a seguir (veja Lewis, CPS, parte 1).
1) Esta Lei Moral não é um Mero Instinto Coletivo:
O que chamamos de lei moral não pode ser o resultado de uma espécie de instinto coletivo, senão o impulso mais forte em nós sempre sairia vitorioso. Ele não é. Além disso, nós sempre agiríamos a partir dos nossos instintos, para reforçá-los, e não em direção a eles, a fim de dominá-los (por exemplo, para ajudar uma pessoa em perigo), como fazemos poucas vezes. Por fim, se a lei moral fosse somente um instinto coletivo, concluiríamos que os instintos sempre estão certos, mas sabemos que as coisas não são assim. Até mesmo o amor e o patriotismo são, às vezes, errados.
2) Esta Lei Moral não pode ser uma Convenção Social:
Nem tudo o que se aprende por intermédio da sociedade está baseado em convenções sociais (por exemplo, a matemática ou a lógica), da mesma forma que a lei moral também não é meramente uma norma social. Evidências a favor deste argumento podem ser vistas em todas as sociedades, já que praticamente todas apresentam as mesmas leis morais, sejam estas civilizações presentes ou passadas. Além disso, juízos sobre o progresso social não seriam possíveis se a sociedade fosse a base para os julgamentos.
3) Esta Lei Moral é diferente das leis da natureza:
A lei moral não deve ser identificada com as leis da natureza, porque estas últimas são descritivas (são), e não prescritivas (deveriam), como as leis morais o são. Na verdade, situações factualmente diferentes (o modo como as coisas são) podem ser moralmente erradas e vice-versa. Por exemplo, se alguém tenta passar por cima de mim e não consegue, esta pessoa cometeu um erro e é culpada, enquanto que alguém que acidentalmente tropeça por cima de mim não pode ser considerada culpada por isso.
4) A Lei Moral não é simplesmente um capricho humano:
A lei moral também não pode ser simplesmente um capricho humano, porque não podemos nos livrar dela, mesmo em situações em que isto seria interessante para nós. Nós não a criamos; ela foi claramente impressa em nós, a partir do nosso exterior. E se ela não passasse de fantasia, todos os juízos de valores perderiam o seu significado, inclusive afirmativas como “o assassinato é errado”, ou “o racismo é errado”. Mas, se a lei moral não é nem uma descrição nem uma prescrição meramente humana, ela passa a ser uma prescrição moral vinda de um Preceptor Moral que transcende a humanidade. Como notou Lewis, este Legislador Moral está mais para uma mente do que para a natureza. Ele é tão parte da natureza quanto um arquiteto é parte de um prédio que ele projeta.
5) A injustiça não desabona o legislador moral:
A principal objeção a um Legislador Moral perfeito é o argumento a partir do mal que existe no mundo. Nenhuma pessoa séria pode fechar os olhos e deixar de reconhecer que todos os assassinatos, os estupros, o ódio e a crueldade tornam o mundo um lugar muito longe da perfeição. Mas, se o mundo é imperfeito, como poderia existir um Deus absolutamente perfeito? A resposta de Lewis é simples e vai direto ao ponto: A única forma pela qual poderíamos saber que o mundo é imperfeito é ter um padrão absolutamente perfeito de justiça com o qual possamos compará-lo, a fim de saber se ele não é justo. E a injustiça absoluta é somente possível se houver um padrão absoluto de justiça. Lewis esclarece, nas suas próprias palavras:
“O meu argumento contra Deus era que o universo me parecia demasiadamente cruel e injusto. Mas de onde foi que tirei esta idéia de justo e injusto? Um homem jamais pode afirmar que uma linha é torta se não tiver algum tipo de noção do que é uma linha reta […] Assim, na minha própria tentativa de provar a inexistência de Deus — em outras palavras, que a realidade como um todo era sem sentido —, descobri que eu era forçado a considerar que uma parte da realidade — ou seja, a minha idéia de justiça — estava cheia de sentido. Consequentemente, o Ateísmo passou a ser demasiadamente simplista para mim” (Lewis, CPS, 45-46).
Em vez de tentar provar a inexistência de um Ser moralmente perfeito, na verdade o mal que existe no mundo pressupõe um padrão absolutamente perfeito. Alguém poderia levantar a objeção de que o Legislador Máximo não é mesmo todo-poderoso, mas jamais a de que Ele não é perfeito.
Retirado de: NORMAN GEISLER, Teologia Sistemática Vol I.
Para começarmos, Al-Gazali, filósofo do século XI, formula seu argumento de forma muito simples: “Todo ser que começa tem uma causa para seu começo; ora, o mundo é um ser que começa; logo, ele possui uma causa para seu começo”.[1]
O raciocínio de Gazali envolve três passos simples:
1. Tudo que começa a existir tem uma causa.
2. O universo começou a existir.
3. Logo, o universo tem uma causa.
Atentemos para cada passo de seu argumento.
Premissa 1
Observe que Gazali não precisa de uma premissa tão forte quanto (1) para que seu argumento tenha êxito. A primeira premissa pode ser afirmada de forma mais modesta.
1’. Se o universo começou a existir, o universo tem uma causa para seu começo.
Esta versão mais modesta da primeira premissa nos permitirá evitar distrações sobre a possibilidade de partículas subatômicas que são o resultado de processos de decaimento quântico virem a existir sem uma causa. Esta suposta exceção a (1) é irrelevante a (1’). Pois o universo compreende toda realidade contígua de espaço-tempo. Logo, o universo vir a existir sem uma causa significa vir a existir do nada, o que é absurdo. Nos eventos de decaimento quântico, as partículas não vêm a existir do nada. Como adverte Christopher Isham, o principal cosmólogo quântico da Grã-Bretanha,
“É preciso tomar cuidado ao usar a palavra “criação” em contexto físico. Exemplo familiar é a criação de partículas elementares em um acelerador. O que ocorre, porém, nessa situação, é a conversão de um tipo de matéria em outro, com a quantidade total de energia sendo preservada no processo.” [2]
Assim, essa suposta exceção a (1) não é exceção a (1’).
Dou aqui três razões a favor da premissa (1’):
1. Algo não pode vir do nada. Alegar que algo pode vir a existir do nada é pior do que mágica. Quando um mágico tira o coelho da cartola, ao menos se tem o mágico, sem contar a cartola! Mas, se a premissa (1’) é negada, é preciso pensar que o universo inteiro apenas apareceu em algum ponto no passado por nenhuma razão. Ninguém, porém, acredita sinceramente que coisas — digamos, um cavalo ou uma vila esquimó — podem aparecer sem uma causa.
2. Se algo pode vir à existência do nada, torna-se inexplicável por que nada ou coisa alguma não vem a existir do nada. Pense assim: por que bicicletas e Beethoven e cerveja de raiz simplesmente não apareceram do nada? O que torna o nada algo tão discriminatório? O nada não pode ter coisa alguma que favoreça universos, pois o nada não tem nenhuma propriedade. E coisa alguma pode limitar o nada, pois não há coisa alguma para ser limitada!
3. A experiência comum e as informações científicas confirmam a verdade da premissa 1’. A ciência da cosmogonia se baseia no pressuposto de que existem condições causais para a origem do universo. É difícil, então, entender como alguém comprometido com a ciência moderna conseguiria negar que (1’) tem mais plausibilidade de ser verdadeiro do que falso.
Penso, pois, que a primeira premissa do argumento cosmológico kalam é certamente verdadeira.
Premissa 2
A premissa mais controversa no argumento é a premissa 2, de que o universo começou a existir. Isto não é de forma alguma evidente. Examinemos tanto argumentos filosóficos quanto indícios científicos a favor da premissa 2.
• Primeiro argumento filosófico
Gazali argumentou que, se o universo nunca começou a existir, há um número infinito de eventos anteriores a hoje. Ainda argumentou, porém, que um número infinito de coisas não pode existir. Gazali admitiu que um número potencialmente infinito de coisas pudesse existir, mas negou que um número realmente infinito de coisas pudesse existir.
Quando se diz que algo é potencialmente infinito, infinidade serve simplesmente como limite ideal que jamais é alcançado. Por exemplo, seria possível dividir qualquer distância finita pela metade, e em seguida em quartos, depois em oitavos, em dezesseis partes, e assim por diante até o infinito. O número de divisões é potencialmente infinito, no sentido de que seria possível continuar dividindo sem parar, mas nunca se chegaria a uma divisão em “infinitas partes”. James se poderia ter um número realmente infinito de partes ou divisões.
Pois bem, Gazali não tem nenhum problema com a existência de infinitos meramente potenciais, pois se tratam apenas de limites ideais. Ele argumentou, porém, que, se um número realmente infinito de coisas pudesse existir, diversos absurdos surgiriam. Se quisermos evitar tais absurdos, devemos negar que um número realmente infinito de coisas exista. Isso implica que um número de eventos passados não pode ser realmente infinito. Logo, o universo não pode ser sem começo; antes, o universo começou a existir.
Alega-se com muita frequência que esse tipo de argumento foi invalidado por avanços na matemática moderna. Na teoria moderna dos conjuntos, o uso de conjuntos realmente infinitos é comum. Por exemplo, o conjunto de números naturais {0, 1, 2, …} possui um número realmente infinito de membros. O número de membros nesse conjunto não é apenas potencialmente infinito, de acordo com a teoria moderna dos conjuntos; antes, o número de membros é realmente infinito. Muitas pessoas inferem que esses avanços solapam o argumento de Gazali.
Será que é isso mesmo? A teoria moderna dos conjuntos mostra que, caso se adotem alguns axiomas e regras, pode-se falar de conjuntos realmente infinitos de forma coerente, sem se contradizer. Tudo que se consegue com isso é mostrar como elaborar determinado universo de discurso para falar coerentemente de infinitos reais. Isso nada faz para mostrar que tais entidades matemáticas realmente existem ou que um número realmente infinito de coisas pode realmente existir. Se Gazali está certo, este universo de discurso pode ser considerado como apenas um domínio da ficção, como o mundo de Sherlock Holmes ou algo que existe em sua mente.
O modo como Gazali revela a impossibilidade de um número realmente infinito de coisas é imaginando como seria se tal conjunto pudesse existir e, então, elaborando consequências absurdas. Compartilho aqui uma das minhas ilustrações favoritas chamada “Hotel de Hilbert”, criação do grande matemático alemão David Hilbert.
Hilbert primeiramente nos convida a imaginar um hotel comum com um número finito de quartos. Suponha ainda que todos os quartos estão ocupados. Se um novo hóspede aparece na recepção à procura de um quarto, o gerente diz: “Sinto muito, todos os quartos estão ocupados”, e é o fim da história.
Imaginemos, porém, diz Hilbert, um hotel com número infinito de quartos, e suponhamos novamente que todos os quartos estão ocupados. Este fato deve ser considerado com cuidado. Não há uma vaga sequer em todo o hotel infinito; cada quarto tem uma pessoa de carne e osso. Suponha, então, que um novo hóspede apareça na recepção à procura de um quarto. “Sem problemas”, diz o gerente. Ele desloca a pessoa que se hospedava no quarto 1 para o quarto 2, a pessoa que se hospedava no quarto 2 para o quarto 3, a pessoa que se hospedava no quarto 3 para o quarto 4, e assim sucessivamente até o infinito. Em consequência dessas mudanças de quarto, o quarto 1 agora está vago e o novo hóspede, agradecido, pode entrar nele. Mas, antes dele chegar, todos os quartos já estavam ocupados!
A coisa fica cada vez pior! Suponhamos, então, diz Hilbert, que uma infinidade de novos hóspedes apareça na recepção à procura de quartos. “Sem problemas, sem problemas!”, diz o gerente. Ele desloca a pessoa que se hospedava no quarto 1 para o quarto 2, a pessoa que se hospedava no quarto 2 para o quarto 4, a pessoa que se hospedava no quarto 3 para o quarto 6, sempre deslocando o hóspede antigo para o quarto que tem o número duas vezes maior que seu quarto atual. Uma vez que qualquer número multiplicado por duas é par, todos os hóspedes acabam parando em quartos de número par. Consequentemente, todos os quartos de número ímpar ficam vagos e a infinidade de novos hóspedes pode ser acomodada facilmente. Na verdade, o gerente poderia fazer isso um número infinito de vezes e sempre acomodar infinitamente mais hóspedes. Porém, antes deles chegarem, todos os quartos já estavam ocupados!
Como um aluno comentou comigo uma vez, o Hotel de Hilbert, se pudesse existir, teria o seguinte cartaz na entrada: “Não há mais vagas (ainda aceitamos hóspedes)”. Será que um hotel desses pode existir na realidade?
O Hotel de Hilbert é absurdo. Como nada se atém à ilustração envolvendo um hotel, o argumento pode ser generalizado para mostrar que a existência de um número realmente infinito de coisas é absurdo.
Às vezes, há quem reaja ao Hotel de Hilbert dizendo que esses absurdos surgem porque o conceito de infinidade está além de nossa capacidade e não conseguimos entendê-lo. Uma reação dessas, porém, é equivocada e ingênua. Como disse, a teoria dos conjuntos infinitos é ramo muitíssimo avançado e bem compreendido da matemática moderna. Os absurdos surgem porque entendemos, sim, a natureza do infinito real. Hilbert era um cara esperto e sabia muito bem como ilustrar as consequências bizarras da existência de um número realmente infinito de coisas.
Na verdade, a única coisa que o crítico pode fazer a essa hora é aguentar o tranco e dizer que o Hotel de Hilbert não é absurdo. Às vezes, os críticos tentarão justificar essa mudança dizendo que, se um infinito real pudesse existir, tais situações seriam exatamente o que esperaríamos. A resposta, no entanto, é inadequada. Hilbert, obviamente, concordaria que, se um infinito atual pudesse existir, a situação com o hotel imaginário é o que esperaríamos. Do contrário, não seria uma boa ilustração! Mas a questão é se um hotel desses é realmente possível.
Penso, então, que o primeiro argumento de Gazali é bom. Mostra que o número de eventos passados deve ser finito. Portanto, o universo deve ter tido um começo. Podemos resumir o argumento de Gazali como segue:
1. Um infinito real não pode existir.
2. Um regresso temporal infinito de eventos é um infinito real.
3. Logo, um regresso temporal infinito de eventos não pode existir.
• Segundo argumento filosófico
Gazali tem um segundo argumento independente para a existência do universo. A série de eventos passados, observa Gazali, foi formada adicionando-se um evento após o outro. A série de eventos passados é como uma sequência de peças de dominó caindo uma após a outra até a última peça, hoje, ser atingida. Argumenta, porém, que nenhuma série formada pelo acréscimo de um membro após o outro pode ser realmente infinita. Pois não se pode passar por um número infinito de elementos um de cada vez.
É fácil ver isso no caso da tentativa de contar até o infinito. Não importa quanto se conte, sempre haverá ainda uma infinidade de números para contar.
Se não é possível contar até o infinito, como seria possível fazer contagem regressiva a partir do infinito? Seria como se alguém alegasse ter feito contagem regressiva de todos os números negativos, terminando no zero: …, -3, -2, -1, 0. Parece loucura. Pois, antes de poder contar 0, seria preciso contar -1, e, antes de contar -1, seria preciso contar -2, e assim sucessivamente, de volta ao infinito. Antes que qualquer número pudesse ser contado, uma infinidade de números teria de ser contada primeiro. Acaba-se arrastando cada vez mais longe no passado, a tal ponto que não é possível mais contar nenhum número.
Então, a última peça do dominó jamais poderia cair, se um número infinito de peças tivesse que cair primeiro. Hoje, portanto, nunca poderia chegar. Mas, obviamente, estamos aqui! Isto mostra que a série de eventos passados deve ser finita e ter um começo.
Gazali buscou aumentar a impossibilidade de formar um passado infinito ao dar ilustrações dos absurdos que surgiriam, caso fosse possível realizá-lo. Por exemplo, suponha que, para cada órbita que Saturno completa ao redor do sol, Júpiter completa duas. Quanto maior a órbita, mais Saturno fica para trás. Se continuarem a orbitar para sempre, chegarão perto de um limite em que Saturno está infinitamente atrás de Júpiter. Obviamente, nunca chegarão realmente a esse limite.
Agora invertamos a história: suponha que Júpiter e Saturno orbitam o sol desde a eternidade passada. Qual terá completado mais órbitas? A resposta é que o número de órbitas é exatamente o mesmo: infinito! (Não podemos escapar deste argumento dizendo que infinito não é um número. Na matemática moderna, é, sim, um número, o número de elementos no conjunto {0, 1, 2, 3, …}.) Mas isso parece absurdo, pois, quanto mais orbitam, mais cresce a disparidade. Como, então, o número de órbitas magicamente se torna igual, ao fazer que os planetas orbitem desde a eternidade passada?
Outra ilustração: suponha que encontremos alguém que afirma estar em contagem regressiva desde a eternidade passada e está agora prestes a completar: … -3, -2, -1, 0! Ufa! Por que, pode-se perguntar, a pessoa está para completar sua contagem regressiva só hoje? Por que não terminou ontem ou anteontem? Afinal, até ali uma quantidade infinita de tempo já passara. Assim, se a pessoa estivesse contando numa velocidade de um número por segundo, já teve um número infinito de segundos para completar sua contagem regressiva. Já deveria ter acabado! Na verdade, em qualquer ponto no passado, já teve tempo infinito e, por isso, já deveria ter terminado. Mas, assim, em nenhum ponto no passado é possível encontrar a pessoa prestes a completar sua contagem regressiva, o que contradiz a hipótese de que já conta desde a eternidade.
Alexander Pruss e Robert Koons recentemente defenderam uma atraente versão contemporânea do argumento de Gazali chamada de Paradoxo do Anjo da Morte. Existem infinitos Anjos da Morte (que podemos identificar como deuses, para evitar quaisquer objeções físicas). Você está vivo à meia-noite. O Anjo 1 o fulminará à uma da manhã, se você ainda estiver vivo àquela hora. O Anjo 2 o fulminará à meia-noite e meia, se você ainda estiver vivo na ocasião. O Anjo 3 o fulminará à meia-noite e quinze, e assim por diante. Uma situação dessas parece obviamente concebível, dada a possibilidade de um número realmente infinito de coisas, mas leva a uma impossibilidade: você não pode sobreviver depois da meia-noite e, ainda, você não pode ser morto por qualquer Anjo da Morte a qualquer momento. Pruss e Koons mostram como reformular o paradoxo para que os Anjos da Morte se espalhem por um tempo infinito, e não em uma única hora, por exemplo, fazendo com que cada Anjo da Morte ataque com sua foice no 1º. de janeiro de cada ano passado, se você tiver conseguido viver tanto assim.
Estas ilustrações apenas corroboram a afirmação de Gazali segundo a qual nenhuma série formada pelo acréscimo de um membro após outro pode ser realmente infinita. Uma vez que a série de eventos passados foi formada pelo acréscimo de um evento após o outro, não pode ser realmente infinita. Deve ter tido um começo. Temos, pois, um segundo bom argumento para a premissa 2, de que o universo começou a existir. Podemos resumir este argumento como segue:
1. Um conjunto formado pelo acréscimo sucessivo não pode ser um infinito real.
2. A série temporal de eventos é um conjunto formado por acréscimo sucessivo.
3. Logo, a série temporal de eventos não pode ser um infinito real.
Primeira confirmação científica
Um dos avanços mais espantosos da astronomia moderna, que Gazali nunca teria previsto, é que agora temos fortes indícios científicos para o começo do universo. A primeira confirmação científica do começo do universo advém da expansão do universo.
Por toda a história, os homens pressupuseram que o universo como um todo não mudava. Evidentemente, as coisas no universo se moviam e mudavam, mas o universo em si simplesmente existe, por assim dizer. Foi este o pressuposto de Albert Einstein quando começou a aplicar ao universo sua nova teoria da gravidade, chamada de Teoria Geral da Relatividade, em 1917.
Einstein, porém, achava que algo estava terrivelmente errado. Suas equações descreviam um universo que inflava como um balão ou, então, ruía em si mesmo. Durante a década de 1920, o matemático russo Alexander Friedmann e o astrônomo belga Georges Lemaître decidiram levar as equações de Einstein ao pé da letra e, consequentemente, formularam independentemente um do outro modelos de um universo em expansão. Em 1929, o astrônomo americano Edwin Hubble, por meio de incansáveis observações no Observatório do Monte Wilson, fez uma sensacional descoberta que validou a teoria de Friedmann e Lemaître. Ele descobriu que a luz de galáxias distantes parecia ser mais vermelha do que se esperava. Era muito mais plausível que este “deslocamento vermelho” na luz fosse devido ao alongamento das ondas de luz, à proporção que as galáxias se afastam de nós. Toda vez que Hubble mirava seu telescópio no céu noturno, observava o mesmo deslocamento vermelho na luz das galáxias. Parecia que estamos no centro de uma explosão cósmica e todas as outras galáxias fogem de nós a velocidades fantásticas!
Pois bem, de acordo com o modelo de Friedmann-Lemaître, não estamos, na verdade, no centro do universo. Antes, um observador em qualquer galáxia olhará e perceberá as outras galáxias como se estivessem se afastando de si mesmo. Isso porque, de acordo com a teoria, é, na verdade, o próprio espaço que está em expansão. As galáxias estão de fato em repouso no espaço, mas recuam umas das outras à medida que o próprio espaço se expande.
O modelo de Friedmann-Lemaître no devido tempo veio a ser conhecido como a teoria do Big Bang ou Grande Expansão. O nome, porém, pode gerar equívocos. Pensar na expansão do universo como uma espécie de explosão pode nos fazer pensar equivocadamente que as galáxias estão se movendo e entrando em espaço vazio pré-existente a partir de um ponto central. Seria uma total falha de compreensão do modelo. A teoria é muito mais radical do que isso.
Ao rastrear a expansão do espaço de volta no tempo, tudo se aproxima cada vez mais. Eventualmente, a distância entre dois pontos quaisquer no espaço se torna zero. Mais perto do que isso, impossível! Naquele ponto, então, atingiu-se o limite de espaço e tempo. Espaço e tempo não podem ser recuados mais ainda. É literalmente o começo de espaço e tempo.
Eventualmente, a distância entre dois pontos quaisquer no espaço se torna zero. Assim, o espaço-tempo pode ser representado geometricamente como um cone. Significativo é que, embora um cone possa se estender indefinidamente em uma direção, ele possui um ponto de fronteira na outra direção. Como esta direção representa o tempo e o ponto de fronteira se encontra no passado, o modelo implica que o tempo passado é finito e teve um começo.
Como o espaço-tempo é a esfera em que toda matéria e energia existem, o começo do espaço-tempo também é o começo de toda matéria e energia. É o começo do universo.
Observe que não há absolutamente nada antes do limite inicial de espaço-tempo. Não nos equivoquemos com palavras, no entanto. Quando os cosmólogos dizem: “Não existe nada antes do limite inicial”, não querem dizer que existe uma situação anterior a ele, sendo um estado de inexistência. Seria como tratar nada como se fosse algo! Pelo contrário, querem dizer que, no ponto de fronteira, é falso dizer que “existe algo antes deste ponto”.
O modelo padrão do Big Bang prevê, pois, um começo absoluto do universo. Se o modelo está correto, temos confirmação científica incrível da segunda premissa do argumento cosmológico kalam.
O modelo padrão está, então, correto, ou — o que é mais importante — ele está correto ao prever um começo do universo? A despeito de sua confirmação empírica, o modelo padrão do Big Bang precisará ser modificado de diversas maneiras. O modelo é baseado, como vimos, na Teoria Geral da Relatividade de Einstein. Mas a teoria de Einstein pára quando o espaço é encolhido em proporções subatômicas. Precisaremos introduzir a física quântica nesse ponto, e ninguém sabe exatamente como se deve fazê-lo. Além disso, a expansão do universo provavelmente não é constante, como no modelo padrão. Provavelmente está acelerando e talvez tenha tido um breve momento de expansão super-rápida no passado.
Nenhum desses ajustes, todavia, afetaria a previsão fundamental do começo absoluto do universo. Na verdade, físicos propuseram inúmeros modelos alternativos ao longo das décadas desde o trabalho de Friedmann e Lemaître, e aquelas que não têm um começo absoluto repetidamente se mostraram impraticáveis. Visto de modo mais positivo, os únicos modelos não-convencionais viáveis são aqueles que envolvem um começo absoluto do universo. Tal começo pode ou não envolver um ponto de começo. Mas, segundo teorias (como a proposta “sem limite” de Stephen Hawking) que não têm um começo com algo como um ponto, o passado ainda é finito, e não infinito. O universo não existiu eternamente, de acordo com essas teorias, mas veio à existência, mesmo que não o tenha feito em um ponto precisamente definido.
Em certo sentido, a história da cosmologia do século XX pode ser encarada como uma série de uma tentativa frustrada após a outra para evitar o começo absoluto previsto pelo modelo padrão do Big Bang. Tal perdição se manteve por praticamente cem anos, durante período de enormes avanços na astronomia de observação e trabalho teórico criativo na astrofísica.
Nesse ínterim, uma série de notáveis teoremas de singularidade cada vez mais consagrou modelos empiricamente defensáveis, ao mostrar que, em condições cada vez mais generalizadas, um começo é inevitável. Em 2003, Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin conseguiram mostrar que qualquer qualquer universo que está, em média, em estado de expansão cósmica ao longo de cada história, não pode ser infinito no passado, mas deve ter um começo. Isso se aplica a hipóteses de multiversos também. Em 2012, Vilenkin mostrou que modelos que não correspondem a essa condição ainda são incapazes, por outras razões, de evitar o começo do universo. Vilenkin concluiu: “nenhuma dessas hipóteses pode ser de fato eterna no passado”.[3] “Todos os indícios que possuímos dizem que o universo teve um começo”.[4]
O teorema de Borde-Guth-Vilenkin prova que o espaço-tempo clássico, sob uma única condição muito geral, não pode ser estendido para o infinito passado, mas deve atingir uma fronteira em algum momento no passado finito. Ora, havia algo no outro lado da fronteira ou não havia. Se não havia, a fronteira simplesmente é o começo do universo. Se havia algo no outro lado, será uma região descrita pela teoria da gravidade quântica, ainda a ser descoberta. No caso, diz Vilenkin, esse algo será o começo do universo. Seja como for, o universo começou a existir.
Evidentemente, conclusões científicas são sempre provisórias. Podemos esperar perfeitamente que novas teorias serão propostas, na tentativa de evitar o começo do universo. Tais propostas devem ser bem-vindas e examinadas. Todavia, é bastante claro para qual lado os indícios apontam. Atualmente, o proponente do argumento cosmológico de Gazali se posiciona comodamente dentro da ciência dominante ao defender que o universo começou a existir.
• Segundo argumento científico
Como se não bastasse, existe na realidade uma segunda confirmação científica do começo do universo, desta vez da Segunda Lei da Termodinâmica. De acordo com a Segunda Lei, a menos que energia seja introduzida num sistema, este ficará cada vez mais desordenado.
Pois bem, já no século XIX, os cientistas notaram que a Segunda Lei implicava uma sombria previsão para o futuro do universo. Dado tempo o suficiente, toda a energia no universo se espalhará uniformemente por todo o universo. O universo virará um caldo descaracterizado em que a vida não é possível. É um estado de equilíbrio. Os cientistas o designaram de a “morte térmica” do universo.
Essa previsão indesejada fez surgir outro enigma: se, dado tempo suficiente, o universo inevitavelmente no futuro estagnará em estado de morte térmica, por que, se ele existiu eternamente, não está agora em estado de morte térmica? Se em quantidade finita de tempo o universo no futuro atingirá equilíbrio, dado tempo passado infinito, ele deveria já estar agora mesmo em estado de equilíbrio. Mas não o está. Estamos em estado de desequilíbrio, em que energia ainda está disponível para ser usada e o universo tem uma estrutura ordenada.
O físico alemão Ludwig Boltzmann, do século XIX, propôs solução ousada a esse problema. Boltzmann sugeriu que talvez o universo esteja, de fato, em estado de equilíbrio geral. Não obstante, somente pelo acaso, surgirão focos de desequilíbrio mais ordeiros aqui e ali. Boltzmann refere-se a essas regiões isoladas de desequilíbrio como “mundos”. Nosso universo apenas calha de ser um desses mundos. No devido tempo, de acordo com a Segunda Lei, ele reverterá para o estado geral de equilíbrio.
Físico contemporâneos rejeitaram universalmente a ousada Hipótese de Muitos Mundos de Boltzmann como explicação do desequilíbrio observado no universo. Seu erro fatal é que, se nosso mundo é meramente uma flutuação fortuita de um estado de equilíbrio geral, deveríamos estar observando uma extensão muito menor de ordem. Por quê? Porque uma pequena flutuação do equilíbrio é muitíssimo mais provável que a enorme flutuação contínua necessária para criar o universo que vemos, e ainda assim uma pequena flutuação seria suficiente para nossa existência. Por exemplo, uma flutuação que formou um mundo não muito maior do que nosso sistema solar deveria bastar para que nós estivéssemos vivos e seria inimaginavelmente mais provável de acontecer do que uma flutuação que formou todo o universo que vemos!
Na realidade, a hipótese de Boltzmann, se aplicada de forma coerente, levaria a uma estranha espécie de ilusionismo: com toda probabilidade, habitamos, sim, um mundo menor, e as estrelas e planetas que observamos são apenas ilusões, meras imagens nos céus. Pois essa espécie de mundo é muito mais provável do que um universo que, a despeito da Segunda Lei da Termodinâmica, deslocou-se do equilíbrio por bilhões de anos para formar o universo que observamos.
A descoberta da expansão do universo na década de 1920 modificou o tipo de morte térmica predita com base na Segunda Lei, mas não alterou a questão fundamental. Descobertas recentes indicam que a expansão cósmica está, na verdade, em aceleração. Como o volume de espaço aumenta tão rapidamente, o universo realmente fica cada vez mais longe de um estado de equilíbrio em que matéria e energia se distribuem uniformemente. A aceleração da expansão do universo, no entanto, somente apressa sua morte. Pois agora as diferentes regiões do universo se tornam cada vez mais isoladas umas das outras no espaço e cada região abandonada se torna sombria, fria, difusa e morta. Mais uma vez, por que nossa região não está nesse estado, se o universo já existe por tempo infinito?
A implicação óbvia de tudo isso é que a questão se baseia em pressuposto falso, a saber, que o universo existe por tempo infinito. Hoje em dia, a maioria dos físicos diria que a matéria e a energia foram simplesmente colocadas no universo como condição inicial, e o universo continua a seguir o caminho traçado pela Segunda Lei desde seu começo, um tempo finito atrás.
É claro que houve tentativas de evitar o começo do universo previsto com base na Segunda Lei da Termodinâmica. Nenhuma, porém, teve êxito. Os céticos talvez mantenham a esperança de que a gravidade quântica servirá para evitar as implicações da Segunda Lei da Termodinâmica. Em 2013, porém, o cosmólogo Aron Wall, da Universidade da Califórnia, conseguiu formular um novo teorema de singularidade que parece fechar a porta àquela possibilidade. Wall mostra que, dada a validade da Segunda Lei geral da Termodinâmica na gravidade quântica, o universo deve ter começado a existir, a menos que se postule uma inversão na flecha do tempo (o tempo caminhando para trás!) em algum ponto no passado, o que, conforme ele observa corretamente, envolve um começo termodinâmico no tempo que “pareceria trazer à tona os mesmos tipos de questões filosóficas que qualquer outro tipo de começo no tempo traria”.[5]Wall relata que suas conclusões exigem a validade de apenas alguns conceitos básicos, de modo que “é razoável crer que as conclusões se sustentarão em uma teoria completa da gravidade quântica”.
Assim, mais uma vez, os indícios científicos confirmam a verdade da segunda premissa do argumento cosmológico de Gazali.
• Conclusão
Com base, portanto, tanto em indícios filosóficos quanto científicos, temos bons motivos para crer que o universo começou a existir. Logo, segue que o universo tem uma causa para seu começo.
Quais propriedades essa causa do universo deve possuir? Essa causa deve ser em si não-causada, pois vimos que uma série infinita de causas é impossível. Trata-se, portanto, da Causa Primeira Não-causada. Deve transcender espaço e tempo, já que criou espaço e tempo. Deve, portanto, ser imaterial e não-física. Deve ser inimaginavelmente poderosa, uma vez que criou toda matéria e energia.
Por fim, Gazali argumentou que a Causa Primeira Não-causada deve também se tratar de um ser pessoal. É a única forma de explicar como uma causa eterna é capaz de produzir um efeito com um começo, como o universo.
Eis aí o problema: se uma causa é suficiente para produzir seu efeito, então, se a causa existe, o efeito deve existir também. Por exemplo, a causa do congelamento da água é a temperatura abaixo de 0 grau Celsius. Se a temperatura está abaixo de 0 grau Celsius desde a eternidade, qualquer água existente estaria congelada desde a eternidade. Seria impossível que a água começasse a congelar apenas algum tempo finito atrás. Ora, a causa do universo existe permanentemente, por ser atemporal. Por que, então, o universo não existe permanentemente também? Por que o universo veio a existir apenas 14 bilhões de anos atrás? Por que não é tão permanente quanto sua causa?
Gazali manteve que a resposta para esse problema é que a Causa Primeira deve se tratar de um ser pessoal dotado de livre-arbítrio. Sua criação do universo é ato livre, independente de quaisquer condições determinantes anteriores. Assim, seu ato de criação pode ser algo espontâneo e novo. Livre-arbítrio permite que se consiga um efeito com um começo a partir de uma causa atemporal e permanente. Assim, somos conduzidos não simplesmente a uma causa transcendente do universo, mas a seu criador pessoal.
Deve-se admitir a dificuldade de imaginar isso, mas uma forma de pensar a esse respeito é vislumbrar Deus como se ele existisse sozinho sem o universo, sendo sem mudanças e atemporal. Seu livre ato de criação é evento temporal simultâneo ao evento do universo ao vir à existência. Portanto, Deus entra no tempo quando cria o universo. Sendo assim, Deus é atemporal sem o universo e está no tempo com o universo.
O argumento cosmológico de Gazali nos oferece, portanto, fortes motivos para acreditar na existência de um criador pessoal do universo que é sem começo, sem causa, atemporal, não-espacial, sem mudanças, imaterial e imensamente poderoso.
Bibliografia:
[1] Al-Gazali, Kitab al-Iqtisad fi’l-I’tiqad, citado em S. de Beaurecueil, “Gazzali et S. Thomas d’Aquin: Essai sur la preuve de l’existence de Dieu proposée dans l’Iqtisad et sa comparaison avec les ‘voies’ thomistes”, Bulletin de l’Institut français d’archéologie orientale 46 (1947): 203.
[2] Christopher Isham, “Creation of the Universe as a Quantum Process”, p. 378.
[3] Audrey Mithani e Alexander Vilenkin, “Did the universe have a beginning?”, <http://arxiv.org/abs/1204.4658> (20 de abril de 2012), p. 5. Para um vídeo acessível, ver <http://www.youtube.com/watch?v=NXCQelhKJ7A>, em que Vilenkin conclui que “não há no momento modelos que forneçam um modelo satisfatório de um universo sem começo”.
[5] Aron C. Wall, “The Generalized Second Law implies a Quantum Singularity Theorem”, arXiv: 1010.5513v3 [gr-qc] 24 (janeiro de 2013), p. 38, <http://arxiv.org/abs/1010.5513>.
A verdade do Cristianismo se firma ou cai sobre a ressurreição corporal de Jesus Cristo. Como o próprio Apóstolo Paulo disse: “Se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm.” [1] Aqui, o apóstolo fornece um critério objetivo para julgar a legitimidade da cosmovisão cristã. Mostre que Cristo não foi ressuscitado dos mortos e você terá provado com sucesso que o Cristianismo é falso. Por outro lado, se Jesus ressuscitou dentre os mortos, então sua vida e ensinamentos estão corretos. A fé cristã, como se vê, é falseável. É a única religião que baseia sua fé em um evento empiricamente verificável.[2]
O próprio Cristo testemunhou que a Sua ressurreição é o sinal dado ao mundo como prova de suas afirmações extraordinárias: “Ele, porém, replicou: Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o do profeta Jonas. Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra.” [3] Além disso, a ressurreição foi a mensagem central proclamada pela igreja primitiva como claramente demonstrado no livro de Atos.[4] Portanto, é inteiramente apropriado que um exame objetivo do cristianismo foque o evento histórico mais crucial da fé: a ressurreição.
• A ABORDAGEM DOS FATOS MÍNIMOS
Este método “considera apenas os dados que são tão fortemente comprovados historicamente que são concordados por quase todos os estudiosos que estudam o assunto, mesmo os bastante céticos.”[5] deve notar-se que esta abordagem não assume a infalibilidade ou inspiração divina de qualquer documento do Novo Testamento. Em vez disso, apenas mantém esses escritos como documentos históricos escritos durante o primeiro século d.C.[6]
Embora há 12 fatos mínimos em torno da morte e ressurreição de Cristo que podem ser examinados,[7] a brevidade deste artigo limita a nossa análise a quatro (apesar de que mencionaremos os outros pontos de forma simplificada): a morte de Jesus por crucificação, o túmulo vazio,[8] aparições pós-ressurreição e a origem da fé cristã. Nós afirmamos que a melhor explicação para esses fatos mínimos é que Jesus foi ressuscitado corporalmente do túmulo.
Finalmente, se esses fatos “podem ser estabelecidos e nenhuma explicação natural plausível pode ser evidenciável tão bem quanto a hipótese da ressurreição, então uma pessoa está justificada ao inferir a ressurreição de Jesus como a explicação mais plausível dos dados.”[9]
• UMA QUESTÃO DE HISTÓRIA
Antes de examinar os fatos que cercam a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, é importante identificar um conjunto de critérios objetivos pelos quais a validade de eventos históricos pode ser julgada. Em outras palavras, que critérios podem ser usados para estabelecer a ocorrência de um evento com razoável certeza histórica? Os estudiosos do Novo Testamento Gary Habermas e Michael Licona listam os seguintes cinco critérios observando que “um historiador que é capaz de aplicar um ou mais dos seguintes princípios em um texto pode concluir com muito mais confiança se um determinado evento ocorreu:” [10]
As reivindicações históricas são fortes quando apoiadas por múltiplas fontes independentes.
As reivindicações históricas, que também são atestadas pelos inimigos são mais propensas a serem autênticas, pois os inimigos são antipáticos, e muitas vezes hostis testemunhas.
As reivindicações históricas, que incluem consentimento de fatos embaraçosos, refletem um relato honesto e não uma narrativa criativa.
As reivindicações históricas são fortes quando apoiadas por testemunho ocular.
As afirmações históricas que são apoiadas por testemunhos primitivos são mais confiáveis e menos prováveis de serem o resultado de um desenvolvimento lendário.[11]
Portanto, quando é investigado um evento histórico “os pentes do historiador passam através dos dados, considerando todas as possibilidades, e procura determinar qual melhor cenário explica esses dados.” [12]
Alguns céticos argumentam que a ressurreição de Jesus não pode ser investigada historicamente. Mas isso está errado. Os fatos que cercam a ressurreição são de natureza histórica e estão disponíveis para qualquer um examinar. Consequentemente, “o significado da ressurreição é uma questão teológica, mas o fato da ressurreição é uma questão histórica.”[13] Assim, é possível verificar se a ressurreição corporal de Jesus realmente ocorreu na história ou não. Ou a ressurreição é a melhor explicação para os dados históricos conhecidos ou não é. Independentemente disso, o que não podemos fazer é simplesmente descartá-lo por ser “sobrenatural” ou “milagroso” em uma tentativa de removê-lo do conjunto de opções disponíveis a priori. Além disso, precisamos ter cuidado para não confundir “a evidência para a ressurreição com a melhor explicação das evidências. A ressurreição de Jesus é uma explicação milagrosa da evidência. Mas a evidência em si não é milagrosa. Nenhum destes quatro fatos é sobrenatural ou inacessíveis para o historiador.” [14] Assim, embora a ressurreição possa ser classificada como um “evento milagroso”, é um evento histórico e deve ser investigado como tal. John Warwick Montgomery fornece uma visão útil sobre o assunto:
“A única maneira que podemos saber se um evento pode ocorrer é ver se na verdade ele ocorreu. O problema dos “milagres”, então, deve ser resolvido no campo da investigação histórica, não no campo da especulação filosófica. E note que um historiador, ao enfrentar um suposto “milagre”, realmente não está enfrentando nada novo. Todos os eventos históricos são únicos, e o teste de seu caráter factual pode ser apenas verificado com a abordagem documental aceita que nós seguimos. Nenhum historiador tem o direito de se trancar num sistema fechado de causalidade natural (…) ” [15]
Portanto, se Jesus ressuscitou dos mortos é realmente muito simples: “Se Jesus estava morto no ponto A, e vivo novamente no ponto B, então a ressurreição ocorreu: res ipsa loquitur.” [16]
FATO # 1 – A MORTE DE JESUS POR CRUCIFIXÃO
Talvez nenhum outro fato que rodeia a vida do Jesus histórico seja melhor atestado do que Sua morte pela crucificação. Não só é a história de crucificação incluída em cada narrativa do evangelho,[17] mas também é confirmada por várias fontes não-cristãs. Estes incluem o historiador judeu Josefo, o historiador romano Tácito, o sátiro grego Luciano de Samosata, bem como o Talmude judaico.[18] Josefo nos diz que “Pilatos, por sugestão dos principais homens entre nós (…) condenou-o à cruz (…)”[19] Do ponto de vista da historiografia, a crucificação de Jesus cumpre os critérios históricos de testemunha ocular múltipla, independentes e de testemunhas oculares, incluindo de inimigos. John Dominic Crossan, não-cristão, erudito crítico e co-fundador do Seminário de Jesus, afirma, “que ele foi crucificado é tão certo como qualquer outra coisa histórica jamais poderia ser.” [20]
Jesus crucificado (33 d.C)
Objeção # 1: Jesus não morreu realmente (A Teoria do Desmaio)
Alguns céticos argumentam que Jesus pode ter sido crucificado, mas Ele realmente não morreu. Em vez disso, ele perdeu a consciência (desmaiou) e apenas parecia estar morto só para depois ser lançado no túmulo frio e úmido. Depois de ter sido reanimado, Ele saiu do túmulo e se apresentou aos Seus discípulos como o Messias “ressuscitado”. Assim começa a religião cristã. Essa teoria é problemática por várias razões:
Primeiro, a Teoria do Desmaio não leva a sério o que sabemos sobre a flagelação horrenda e a tortura associada à crucificação. Como uma equipe de peritos do Journal of the American Medical Association conclui: “As interpretações baseadas na suposição de que Jesus não morreu na cruz parecem estar em desacordo com o conhecimento médico moderno”.[21]
Segundo, Jesus fingindo Sua própria ressurreição vai contra tudo o que sabemos sobre Seu ministério ético.
Terceiro, um “messias” meio morto e meio ressuscitado dificilmente poderia servir como base para a crença dos discípulos na ressurreição. O teólogo alemão David Friederick Strauss explica:
“É impossível que um ser que tivesse meio morto dentro do sepulcro, que se arrastasse enquanto fraco e doente, que precisasse de tratamento médico, que precisasse de curativos, de fortalecimento e de ajuda, que ainda se rendesse aos seus sofrimentos, poderia ter dado aos discípulos a impressão de que ele era um Conquistador da morte e do túmulo, o Príncipe da Vida, uma impressão que estava no fundo do seu futuro ministério. Tal reanimação só poderia ter enfraquecido a impressão que Ele tinha feito sobre eles na vida e na morte, no máximo, poderia ter-lhe dado apenas uma voz elegíaca, mas não poderia de forma alguma ter mudado sua tristeza em entusiasmo, ter elevado sua reverência em adoração.” [22]
Em quarto lugar, essa teoria é anacrônica ao postular que os discípulos, ao verem Jesus em seu estado semi-comatoso, seriam levados a concluir que Ele havia sido ressuscitado dentre os mortos, em oposição à crença judaica em uma ressurreição final no fim dos tempos. Pelo contrário, vê-Lo novamente os levaria a concluir que Ele não morreu.[23]
Em quinto lugar, os soldados romanos eram executores profissionais e tudo o que sabemos sobre a tortura e a crucificação de Jesus confirma Sua morte, tornando esta teoria fisicamente impossível.
Sexto, nenhuma evidência ou testemunho primitivo existe afirmando que Jesus estava meramente ferido.
Finalmente, esta teoria não pode explicar a conversão de céticos como Paulo, que também testemunhou ter visto o Senhor ressuscitado e ter sofrido e morrido por sua crença na ressurreição.
FATO # 2- A TUMBA VAZIA
Algo aconteceu com o corpo de Jesus. Disto podemos ter certeza. Não só Jesus foi executado publicamente em Jerusalém, mas “suas aparições post-mortem e do túmulo vazio foram pela primeira vez proclamados publicamente lá.” [24] Isto teria sido impossível com um cadáver em decomposição ainda no túmulo. “Teria sido totalmente não-judaico”, observa William Lane Craig, “sem dizer quer seria tolice em acreditar que um homem foi ressuscitado dentre os mortos quando seu corpo ainda estava no túmulo.”[25] As autoridades judaicas tinham muita motivação em mostrar um corpo e silenciar estes homens que “viraram o mundo de cabeça para baixo”,[26] efetivamente acabando com a religião cristã. Mas ninguém conseguiu. A única teoria oposta inicial registrada pelos inimigos do cristianismo é que os discípulos roubaram o corpo.[27] Ironicamente, isso pressupõe o sepulcro vazio.
Além disso, todas as quatro narrativas do evangelho atestam o sepultamento de Jesus por José de Arimatéia e colocam as mulheres como testemunhas primárias do túmulo vazio.[28] Ambos são altamente improváveis de serem invenções cristãs.
Primeiro, com relação a José de Arimatéia, o estudioso bíblico James G.D. Dunn explica que ele:
“é um personagem histórico muito plausível: ele é atestado em todos os quatro Evangelhos … e no Evangelho de Pedro …; quando a tendência da tradição era a de transferir a culpa para o conselho judaico, a criação ex nihilo de um simpatizante deles seria surpreendente; E ‘Arimatéia’, uma cidade muito difícil de identificar e que não lembra nenhum simbolismo bíblico torna uma tese de invenção ainda mais implausível.” [29]
O ateu Jeffery Lowder concorda que “o sepultamento de Jesus por José de Arimatéia tem uma alta probabilidade histórica.”[30]
A tumba vazia impactou os seguidores de Jesus e também os que não O seguiam
Em segundo lugar, tão pouco provável de ser inventado é o relato das mulheres seguidoras de Jesus descobrindo a tumba vazia, especialmente quando se considera o baixo status social das mulheres nas culturas judaica e romana e sua incapacidade de testemunhar como testemunhas legais.[31] Se a história do túmulo vazio era uma história fabricada destinada a persuadir os céticos então teria sido melhor usar os discípulos homens como as testemunhas primárias. Em outras palavras, tanto o sepultamento quanto o túmulo vazio demonstram um anel de autenticidade que confere credibilidade às narrativas dos evangelhos.
Tal como acontece com a crucificação, a história do sepulcro vazio preenche os critérios históricos de fontes de testemunhas oculares múltiplas, independentes e primitivas,[32] incluindo o atestado inimigo, bem como o princípio do embaraço. Além disso, os relatos do sepultamento e túmulo vazio são simples e falta desenvolvimento teológico ou lendário.
Finalmente, o historiador e cético Michael Grant admite que “o historiador (…) não pode justificadamente negar o túmulo vazio”, já que os critérios históricos aplicados mostram que “a evidência é firme e plausível o suficiente para exigir a conclusão de que o túmulo foi realmente encontrado vazio.”[33]
Objeção 2: Os Discípulos Roubaram o Corpo (A Fraude ou Teoria da Conspiração)
Como mencionado acima, a mais antiga polêmica registrada contra o túmulo vazio é a acusação das autoridades judaicas de que os discípulos roubaram o corpo. Isso é comumente referido como a Fraude ou Teoria da Conspiração. Este cenário postula que os seguidores de Jesus roubaram o corpo sem o conhecimento de ninguém e mentiram sobre as aparições da ressurreição, fazendo com que essa seja o maior embuste da história humana. Entretanto há vários problemas com essa visão:
Em primeiro lugar, esta teoria não explica bem a simplicidade das narrativas da ressurreição nem porque os discípulos inventariam as mulheres como testemunhas primárias do túmulo vazio.[34] Este não é o caminho inteligente para se criar uma teoria da conspiração.
Em segundo lugar, isso também não explica porque os discípulos iriam perpetuar uma história que eles roubaram o corpo (Mateus 28:11-15), se na verdade eles roubaram o corpo. Propagar uma explicação que incrimina a si mesmo está novamente em desacordo com uma teoria da conspiração.
O aparecimento de Jesus aos seus discípulos
Terceiro, como será discutido abaixo, esta teoria não explica o fato de que os discípulos de Jesus tiveram experiências genuínas em que eles acreditavam terem visto o Cristo ressuscitado. Tão convencidos estavam esses homens que a partir daí suas vidas foram transformadas em seguidores comprometidos dispostos a sofrer e morrer por sua crença.
Quarto, esta teoria é oposta a tudo o que sabemos sobre os discípulos. Como afirma J.N.D. Anderson:
“Isso seria totalmente contrário a tudo o que sabemos deles: seu ensino ético, a qualidade de suas vidas, sua firmeza no sofrimento e na perseguição. Nem explicaria as suas transformações dramáticas de fujões abatidos e desanimados em testemunhas que nenhuma oposição poderia calar.” [35]
Em quinto lugar, esta teoria é completamente anacrônica. Não havia nenhuma expectativa dos primeiros judeus de um Messias sofrendo que seria vergonhosamente executado por gentios como um criminoso, reaparecendo novamente corporalmente antes da ressurreição final no fim dos tempos. William Lane Craig, referenciando N.T Wright, diz:
“Como Wright bem coloca, se o seu Messias favorito fosse crucificado, então você voltaria para casa ou então arranjaria um novo Messias. Mas a ideia de roubar o corpo de Jesus e dizer que Deus o havia ressuscitado dos mortos é uma ideia que dificilmente teria entrado na cabeça dos discípulos.” [36]
Finalmente, esta teoria não pode explicar também a conversão de céticos como Paulo, que também testemunhou ter visto o Senhor ressuscitado e ter sofrido e morrido por sua crença na ressurreição.
FATO # 3 – A APRESENTAÇÃO DA RESSURREIÇÃO
Em 1 Coríntios 15: 3-9, o Apóstolo Paulo relata o que os eruditos bíblicos reconhecem como um credo cristão primitivo datado dentro de poucos anos da crucificação. Observe a natureza do credo e a estrutura repetitiva desta passagem quando dividida da seguinte forma:
“Pois eu vos entreguei primeiramente o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, e que foi sepultado,
e que foi ressuscitado ao terceiro dia segundo as Escrituras,
e que apareceu a Cefas e então aos doze.
Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte permanece até agora, mas alguns já dormiram;
depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos;
e por último de todos apareceu também a mim como a um abortivo.
Pois eu sou o mínimo dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus;” [37]
Incluídos neste credo estão três de nossos fatos mínimos: a morte de Jesus, o túmulo vazio, e as aparições pós-ressurreição. Além disso, nosso quarto fato mínimo (a origem do cristianismo) é facilmente explicado, tendo em conta os primeiros fatos. Paulo não só menciona as múltiplas aparições pós-ressurreição, como também inclui a si mesmo como tendo visto Jesus ressuscitado. Vários indicadores no texto confirmam que este é um credo cristão primitivo.
Primeiramente, como mostrado acima, a passagem usa o fraseio estilizado e a estrutura paralela comum às fórmulas de credo.
Em segundo lugar, as palavras “entreguei” e “recebi” são termos técnicos que indicam uma herança rabínica em vista.
Terceiro, as frases “Ele foi ressuscitado”, “terceiro dia” e “os doze” são termos paulinos incomuns tornando improvável que isso tenha se originado do próprio Apóstolo Paulo.
Em quarto lugar, o termo aramaico “Cefas” é usado para o Apóstolo Pedro indicando uma origem extremamente primitiva.[38] O estudioso do Novo Testamento e cético Gerd Lüdemann atribui esta passagem uma data muito inicial afirmando que “os elementos da tradição devem ser datada dos dois primeiros anos após a crucificação de Jesus (…) ou não tardar que três anos (…) a formação de aparentes tradições mencionadas em 1 Cor. 15: 3-8 cai entre 30 e 33 d.C” [39]
A data inicial desse credo exclui a possibilidade de mito ou desenvolvimento lendário como uma explicação plausível e demonstra que os discípulos começaram a proclamar a morte de Jesus, a ressurreição e as aparições pós-ressurreição muito cedo. O filósofo e teólogo cristão J.P. Moreland elabora:
“Simplesmente não havia tempo suficiente para que uma grande quantidade de mitos e lendas acumulassem e distorcessem os fatos históricos de maneira significativa. Nesse sentido, A.N. Sherwin-White, estudioso da antiga história romana e grega em Oxford, estudou o ritmo com que uma lenda se acumulava no mundo antigo, usando os escritos de Heródoto como teste. Ele argumenta que mesmo num período de duas gerações não é suficiente para uma lenda destruir um núcleo sólido de fatos históricos. A imagem de Jesus no Novo Testamento foi estabelecida bem dentro desse período de tempo.” [40]
Novamente Lüdemann reconhece, “pode ser tomado como historicamente certo que Pedro e os discípulos tiveram experiências após a morte de Jesus nas quais Jesus apareceu para eles como o Cristo ressuscitado.”[41] Não há controvérsia entre os estudiosos que os discípulos experienciaram alguma coisa.
Há mais. Os discípulos não só proclamaram que Jesus ressuscitou, mas eles acreditavam sinceramente que a ressurreição ocorreu como demonstrado pelas suas vidas transformadas. Onze fontes iniciais testemunham a disposição dos apóstolos de sofrer e morrer por sua crença na ressurreição.[42] Por exemplo, sabemos por fontes extra-bíblicas que o irmão de Jesus, Tiago foi apedrejado até a morte pelo Sinédrio e que o apóstolo Paulo foi decapitado em Roma sob Nero.[43] Muitas pessoas vão morrer por aquilo que acreditam ser verdade, mas ninguém de bom grado sofre e morre por aquilo que sabe ser falso. Este ponto importante não deve ser confundido por um apelo aos mártires modernos que morrem voluntariamente por suas crenças religiosas. Fazer essa comparação é uma analogia falsa, nas palavras do historiador Gary Habermas:
“Os mártires modernos agem unicamente por sua confiança nas crenças que outros os ensinaram. Os apóstolos morreram tendo seu próprio testemunho de que eles tinham visto pessoalmente o Jesus ressuscitado. Mártires contemporâneos morrem por aquilo que acreditam ser verdade. Os discípulos de Jesus morreram pelo que eles sabiam ser verdadeiro ou falso.” [44]
Apóstolo Tomé verificando as feridas de Jesus.
Tal como acontece com a crucificação e o túmulo vazio, as aparições pós-ressurreição cumprem os critérios históricos de múltiplas fontes independentes e de testemunhas oculares primitivas, bem como o testemunho de um ex-inimigo do cristianismo: Saulo de Tarso. Nove fontes antigas e independentes testemunham a proclamação dos discípulos de que Jesus ressuscitou dos mortos e lhes apareceu.[45] Para listar apenas um exemplo disso, a aparência “para os doze” mencionado por Paulo acima também é atestada em Lucas 24: 36-42 e João 20: 19-20. “A evidência”, diz William Lane Craig, “torna certo que em diferentes ocasiões diferentes os indivíduos e grupos tiveram experiências de ver Jesus vivo dentre os mortos. Esta conclusão é praticamente indiscutível e, portanto, indisputável.” [46]
Objeção 3: Os Discípulos Experimentaram Alucinações (A Teoria da Alucinação)
A teoria mais popular oferecida pelos céticos para explicar as aparências pós-ressurreição é que os discípulos experienciaram alucinações. Esta é a posição tomada por Gerd Lüdemann (citado acima) e entre outros. No entanto, apelando para as alucinações como uma explicação simplesmente não vai funcionar pelas seguintes razões:
Primeiro, o testemunho de Paulo, juntamente com os escritores do Evangelho, é que as aparências de Jesus eram aparências físicas, corporais.[47] Na verdade, este é o consenso unânime das narrativas do Evangelho. Este é um ponto importante porque, segundo William Lane Craig:
“Nenhuma das aparências eram originalmente uma aparência física, corporal, então é muito estranho que tenhamos um testemunho completamente unânime nos Evangelhos de que todos eles eram físicas, sem nenhum traço de supostas originais aparências não-físicas.” [48]
Em segundo lugar, as alucinações são experiências particulares (em oposição às experiências grupais). Um grupo de pessoas “pode estar no estado de espírito para alucinar, mas cada um experiencia alucinações em uma base individual. Não experimentam a mesma alucinação. Alucinações são como sonhos.” [49] Portanto, alucinações não podem explicar as aparições grupais atestada em 1 Coríntios 15, nas narrativas do evangelho e no livro de Atos.[50]
Terceiro, ironicamente, a Teoria da Alucinação não pode explicar a origem da crença dos discípulos na ressurreição de Jesus. Assim como no mundo moderno de hoje, “para alguém no mundo antigo, as visões de um defunto não são evidências de que a pessoa está viva, mas evidência de que ele está morto!” [51] Este é um argumento crucial que precisa ser compreendido:
As alucinações, como projeções da mente, não podem conter nada de novo. Portanto, dadas as crenças judaicas daquela época sobre a vida após a morte, os discípulos, se estivessem alucinações de Jesus, teriam visto Jesus no céu ou no seio de Abraão, onde se acreditava que as almas dos justos permanecessem até a ressurreição. E tais visões não teriam causado a crença na ressurreição de Jesus.[52]
Em outras palavras, uma alucinação do Jesus ressuscitado pressupõe o próprio estado de espírito que os discípulos simplesmente não possuíam.
Finalmente, as alucinações não podem explicar fatos como o túmulo vazio, as conversões de céticos como Paulo, nem as múltiplas e variadas aparências de ressurreição que desafiam uma explicação puramente psicológica e naturalista.[53] “Para ser bem sincero”, conclui Craig, “o único fundamento para negar a natureza física, corpórea das aparições pós-morte de Jesus é filosófica, e não histórica.” [54]
FATO # 4- ORIGEM DA FÉ CRISTÃ
Nenhum erudito nega o fato de que a religião cristã apareceu no primeiro século em Israel. Dentro de uma geração da morte de Cristo este movimento conhecido como “o Caminho” se espalhou para a Europa, África e Ásia. O cristianismo é um efeito que precisa de uma causa e explicação adequadas. Onde exatamente a fé cristã vêm e o que melhor explica a sua origem?
A resposta mais óbvia a esta pergunta é que os discípulos verdadeiramente viram o Cristo ressuscitado. Somente um evento dessa magnitude poderia transformar discípulos assustados, dispersos e céticos, sem conceito prévio e expectativa de um Messias crucificado e ressuscitado, em proclamadores corajosos do evangelho dispostos a sofrer e morrer por sua crença de que Jesus ressuscitou do túmulo. Isto é o que o Apóstolo Pedro ousadamente declarou:
“A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois, pela destra de Deus e, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou o que vedes e ouvis. Pois Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés. Fique, pois, certa toda a casa de Israel de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” [55]
Apóstolo Pedro pregando durante o Pentecostes
A origem da fé cristã é melhor explicada pela crença sincera dos discípulos que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.
Qualquer um que nega a própria ressurreição como explicação para a origem do cristianismo deve dar alguma outra explicação. Apenas três possibilidades parecem existir. Se a ressurreição não ocorreu, então o cristianismo foi resultado de influências cristãs, judaicas ou pagãs.[56] Obviamente, os discípulos não poderiam sucumbir a influências cristãs visto que o Cristianismo ainda não existia. Mas tão improvável é a ideia de que a crença dos discípulos na ressurreição se originou de influências judaicas. A concepção judaica da ressurreição era de uma ressurreição geral e final de toda a humanidade (ou todos os justos) ocorrendo depois do fim do mundo. Em nenhum lugar no pensamento judaico encontramos a ideia de um único indivíduo ressuscitando antes do fim dos tempos para nunca mais morrer.[57]
Objeção 4: Cristianismo Emprestado das Religiões Pagãs (A Teoria da Cópia)
Talvez então o cristianismo tenha sua origem no paganismo. Filmes populares da internet, como Zeitgeist, nos diz que não há realmente nada de único sobre o Salvador cristão. Jesus é simplesmente um conglomerado de “messias” moribundos e ressuscitados que foram reformados para uma audiência do primeiro século, cuja cresça se desenvolveu na religião cristã que conhecemos hoje. Essa visão conseguiu cativar um grande número de neo-ateus, mas ela sofre de inúmeros problemas, como bem menciona Craig:
“Em primeiro lugar, a mitologia pagã é o contexto interpretativo errado considerando que “Jesus e seus discípulos eram judeus do primeiro século palestinos, e é neste contexto que devem ser entendidos”.[58]
Segundo, os judeus estavam familiarizados com deidades sazonais (Ezequiel 37:1-14) e os achavam detestáveis, tornando extremamente improvável que eles tomassem emprestado a mitologia deles. É por isso que há nenhum vestígio de que haviam seitas pagãs cultuando deuses e deusas em ascensão na Palestina do primeiro século.[59]
Terceiro, o relato mais antigo de um deus que morre e reaparece, que é paralelo à ressurreição de Jesus, aparece pelo menos 100 anos depois. A evidência histórica para esses mitos é inexistente e os relatos são facilmente explicados por teorias naturalistas. [60]
Em quarto lugar, a Teoria da Cópia comete uma petição de princípio. Ela assume que a história da ressurreição de Jesus é falsa (e é a afirmação que eles tem a intenção de provar) e, em seguida, tenta explicar como essa história se originou apelando para supostos paralelos dentro mitologia pagã. Mas primeiro é preciso mostrar a razão da história da ressurreição de Jesus ser falsa. Em outras palavras, mesmo se pudesse ser demonstrado que existem paralelos, não se segue que a ressurreição de Jesus não seja um evento histórico. A evidência para a ressurreição de Jesus deve ser julgado em seu próprio mérito, porque “as reivindicações de ressurreições em outras religiões não explicam a evidência de que existe para a ressurreição de Jesus.” [61]
Finalmente, para pôr fim a esta teoria desatualizada e sem fundamento, o falecido Dr. Ronald Nash resumiu sete pontos importantes que minam completamente a ideia de que o cristianismo derivou sua doutrina das religiões do paganismo:
1. Argumentos oferecidos para “provar” uma dependência cristã sobre os mitos ilustram a falácia lógica da causa falsa, coincidência não prova conexão causal. A similaridade também não prova a dependência.
2. Muitas supostas semelhanças entre o cristianismo e os mitos são muito exageradas ou fabricadas. Os eruditos descrevem frequentemente rituais pagãos que vem do cristianismo.
3. A cronologia está errada. Quase todas das nossas fontes de informação sobre as religiões pagãs que supostamente influenciaram o cristianismo primitivo datam de muitos anos depois. Encontramos freqüentemente escritores citando documentos escritos 300 anos depois de Paulo nos esforços para produzir idéias que alegadamente influenciaram Paulo. Devemos rejeitar a suposição de que, só porque uma seita tinha uma certa crença ou prática no terceiro ou quarto século após Cristo então se segue que a mesma crença ou prática existia no primeiro século.
4. Paulo nunca teria copiado conscientemente ideias das religiões pagãs.
5. O cristianismo primitivo era uma fé exclusivista.
6. Ao contrário dos mitos, a religião de Paulo foi baseada em eventos que realmente aconteceram na história.
7. Os poucos paralelos refletem na verdade uma influência cristã nas crenças pagãs.[62]
Nash oferece esta última palavra a respeito da Teoria da Cópia:
“Os esforços liberais para minar a singularidade da revelação cristã por meio de reivindicações de uma influência religiosa pagã colapsa rapidamente porquê a história completa da informação está disponível [para lermos]. Então fica claro que os argumentos liberais exibem uma erudição surpreendentemente ruim. Na verdade, esta conclusão pode ser muito generosa. ” [63] Portanto, é seguro concluir que “o nascimento e a rápida ascensão da Igreja Cristã (…) continuam sendo um enigma sem solução para qualquer historiador que se recusa a levar a sério a única explicação oferecida pelo própria Igreja.” [64]
CONCLUSÃO
Se Jesus estava morto no ponto A, e vivo no ponto B, temos uma ressurreição. A ressurreição corporal de Jesus Cristo é a melhor explicação para os dados históricos conhecidos: Sua morte pela crucificação, o túmulo vazio, as aparições pós-ressurreição e a origem da fé cristã. Além disso, a ressurreição de Jesus enquadra-se no contexto de sua vida, reivindicando Seus ensinamentos e reivindicação radical de ser o único e divino Filho de Deus. Apóstolo Paulo diz que Cristo:
“Foi com poder declarado Filho de Deus quanto ao espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos), Jesus Cristo nosso Senhor.” [65]
Explicações naturalistas (como teoria do desmaio, desenvolvimento lendário, fraude e alucinações) não levam em conta todos os dados relevantes e, em alguns casos (teorias de copias) são francamente falsas e nada históricas. Inversamente, a Hipótese da Ressurreição é responsável por todos os fatos conhecidos, tem maior escopo explicativo, é mais plausível e menos ad hoc.[66]
[1] 1 Coríntios 15:14.
[2] JONES, Clay. Lecture Notes: In Defense of the Resurrection (Biola University: School of Professional Studies), Spring 2010).
[5] HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 44.
[6] Para mais informação sobre a validade histórica do Novo Testamento veja BLOMBERG, Craig. The Historical Reliability of theGospels. 2. ed. Downers Grove: IVP Academic, 2007, e BRUCE, F.F. The New Testament Documents: Are They Reliable? 6. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1981.
[7] Veja: HABERMAS, Gary. The Historical Jesus: Ancient Evidence for the Life of Christ, Rev. ed. Joplin: College Press, 1996, p. 158-167.
[8] Habermas e Licona note que “cerca de 75 por cento dos estudiosos sobre o assunto aceitam o túmulo vazio como um fato histórico” (HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 70.).
[9] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 361.
[10] HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 36.
[11] Ibid., p. 36-40.
[12] Ibid., p. 32.
[13] SMITH, Wilbur. Therefore Stand. Grand Rapids: Baker Book House, 1945, p. 386, citado em MCDOWELL, Josh. The New Evidence That Demands a Verdict. Nashville: Thomas Nelson, 1999, p. 211.
[17] Veja: Mateus 27:35, Marcos 15:24, Lucas 23:33 e João 19:18.
[18] Josefo, Antiguidades Judaicas 18.3.3; Tácito, Anais 15:44; Luciano de Samósata, A Morte do Peregrino 11-13; Talmud Sanhedrin 43a.
[19] JOSEPHUS, Flavius. The New Complete Works of Josephus. Traduzido por William Whiston. Grand Rapids: Kregel, 1999, p. 590.
[20] CROSSAN, J. D. Jesus: A Revolutionary Biography. San Francisco: HarperOne, 2009, p. 163.
[21] EDWARDS, W. D.; GABEL, W. J.; HOSMER, F. E. On the Physical Death of Jesus Christ, Journal of the American Medical Association 255, no. 11. 1986. Disponível em: <https://www.godandscience.org/apologetics/deathjesus.pdf> Acesso em: 05 de fevereiro de 2019.
[22] STRAUSS, D. F. The Life of Jesus for the People. London: Williams and Norgate, 1879, p. 65. Como referenciado em MCDOWELL, Josh. More Than a Carpenter. Wheaton: Tyndale House, 1977, p. 91.
[23] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 373.
[24] Habermas e Licona, The Case for the Resurrection of Jesus, 70. Veja também Atos 2 e Tacitus, Anais 15:44.
[25] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 361.
[28] Veja: Mateus. 27:57-61, 28:1-8; Marcos 15:43-16:7; Lucas 23:50-24:12; João 19:38- 20:18.
[29] DUNN, J. D, Jesus Remembered. Grand Rapids: Eerdmans, 2003, p. 782.
[30] LOWDER, J. J. Historical Evidence and the Empty Tomb Story: A Reply to William Lane Craig em The Empty Tomb: Jesus Beyond the Grave, ed. Robert M. Price e Jeffrey Jay Lowder. Amherst: Prometheus, 2005, p. 266.
[31] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 367.
[32] Por exemplo, 1 Coríntios. 15:3-5, Atos 13:28-31, e Marcos 15:37-16:7
[33] GRANT, Michael. Jesus: An Historian’s Review of the Gospels. New York: Scribners, 1976, p. 176.
[34] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 371.
[35] ANDERSON, J. N. D. Christianity: The Witness of History. London: Tyndale Press, 1969, p. 92, como citado em MCDOWELL, Josh. More Than a Carpenter. Wheaton: Tyndale House, 1977, p. 92.
[36] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 372.
[37] 1 Coríntios 15:3-8.
[38] JONES, Clay. Lecture Notes: In Defense of the Resurrection (Biola University: School of Professional Studies), Spring 2010.
[39] LÜDEMANN, Gerd. The Resurrection of Jesus: History, Experience, Theology. Traduzido por John Bowden. Minneapolis: Fortress, 1994, p. 38.
[40] MORELAND, J. P. Scaling the Secular City: A Defense of Christianity. Grand Rapids: Baker, 1987, p. 156.
[41] LÜDEMANN, Gerd. What Really Happened to Jesus?: A Historical Approach to the Resurrection. Traduzido por John Bowden. Louisville: Westminster John Knox, 1995, p. 80. Lüdemann apela a alucinações como explicação.
[42] Lucas, Paulo, Josefo, Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Policarpo, Inácio, Dionísio de Corinto, Tertuliano, Orígenes e Hegesipo. Veja HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 56-62.
[44] HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 59.
[45] Paulo, Credos (1 Coríntios 15: 3-8), Resumos do Sermão (Atos 2), Mateus, Marcos, Lucas, João, Clemente de Roma, Policarpo. Veja HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 51-56.
[46] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 381.
[47] 1 Cor. 15:42-44; Mateus. 28:5-6, 9; Marcos 16:6; Lucas 24:5-6, 22-24, 30, 39-43; João 20:1-20, 27, 21:13.
[48] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 383.
[49] HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 106.
[50] Mateus. 28:9, 16-20; Marcos 16:7; Lucas 24:33-36; João 20:19-30; 21:1-22; Atos 1:3-9.
[51] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 385.
[52] Ibid., p. 394.
[53] Veja: HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 104-119 e CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 384-387, para mais “teoria da alucinação”.
[54] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 384.
[55] Atos 2:32, 36.
[56] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 390.
[57] Ibid., p. 392.
[58] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 391.
[59] Ibid.
[60] HABERMAS, G. R.; LICONA, M. R. The Case for the Resurrection of Jesus. Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 90.
[64] MOULE, C. F. D. The Phenomenon of the New Testament, Studies in Biblical Theology 2/1. London: SCM, 1967, p. 13, referenciando CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 394.
[65] Romanos 1:4.
[66] CRAIG, W. L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 3. ed. Wheaton: Crossway, 2008, p. 397-399.
Muitos ateus se revoltam com as guerras do Antigo Testamento e dizem que Deus é maligno e perverso por ter matado crianças inocentes, de acordo com o mandamento de Deus de “destruir completamente” o povo de Canaã (Deuteronômio 7:2). Deus instruiu o rei de Israel a “destruir completamente toda a nação amalequita – homens, mulheres, crianças, bebês, gado, ovelhas, cabras, camelos e jumentos” (1 Samuel 15:3). Com isso podemos deduzir que Deus na verdade não é benevolente e portanto o Deus cristão não existe?
O problema é que ao ateu usar a objeção cananeia como evidência contra Deus ele revela desconhecimento na implicação que isso mostra a existência de Deus. Ou seja, se os ateus pensam que o “problema cananeu” é uma boa refutação do teísmo, estão muito enganados, e estão refutando na verdade o ateísmo. Se alegam que as ações dos israelitas estavam realmente erradas (objetivamente), estão demostrando que realmente Deus existe. Examine o Argumento Moral:
1- Se Deus não existe, não existem valores e deveres objetivos;
2- Valores e deveres morais objetivos existem;
3- Portanto, Deus existe.
Se os ateus advocam o “problema cananeu” e proclamam que era objetivamente errado expulsar os cananeus da terra, eles estão oferecendo evidências que sustentam a premissa (2) do Argumento Moral. Portanto, Deus existe. Se não pensam que foi realmente errado, então não têm nada a reclamar e a “dificuldade” dos cananeus some imediatamente.
Contudo, foi literalmente o que está escrito nessa passagem que aconteceu? Não há falácia neo-ateísta? Vamos aos fatos: Deus esperou pacientemente mais de 400 anos até que os cananeus estivessem “prontos” para o julgamento (Gênesis 15:16).
Para o ataque israelita a Canaã, Deus fez duas coisas. Primeiro, Ele trouxe julgamento justo sobre os cananeus que mereciam – uma espécie de punição capital corporativa. Deus dirigiu esta destruição, no entanto, menos contra as pessoas canaanitas e mais à religião canaanita (Deuteronômio 7:3-5; 12:2,3.; Êxodo 34:12,13),[1] tal crença era inerentemente perversa.
Os deuses cananeus faziam todos os tipos de atos sexuais, incluindo incesto e bestialidade.[2] Não é de surpreender que os adoradores dessas divindades se envolvessem na prostituição ritual também – além do sacrifício infantil e outros atos horrendos.
O sacrifício humano foi algo pertinente para o povo que seguia a religião canaanita, isso é bem documentado por historiadores. K. L. Noll, um historiador da antiga cultura e religião do Oriente Próximo diz:
“O sacrifício humano aconteceu na religião canaanita em certas ocasiões. Esculturas de relevo egípcio, a Bíblia (por exemplo, 2 Reis 3), e outras fontes sugerem que, sob a coação de crise militar, o sacrifício humano foi oferecido ao divino patrono da cidade sitiada (Spalinger, 1978).” [3]
O povo fenício, oriundo dos canaanitas que foram seguidores desta religião, sacrificavam crianças em Cártago[4] e em outras regiões, como K.L Noll ainda nos relata:
“Na Tunísia moderna, na Sicília e na Sardenha, os arqueólogos encontraram evidências de outro tipo de sacrifício humano: sepulturas coletivas de crianças pequenas e uma caricatura que retrata um sacerdote oferecendo um bebê para uma divindade. A maioria dos estudiosos conclui que essas crianças foram vítimas de sacrifícios que ocorriam regularmente.” [5]
Alguns especialistas, tentando desviar dos fatos apresentados, asseguram que realmente aconteciam sacrifícios regulares de crianças nas áreas dominadas pelos seguidores da religião canaanita, mas afirmam que não se tem evidencia das mesmas práticas no Oriente Próximo, contudo Dr Andrew White assevera:
“O sacrifício de crianças não estava preso somente a Fenícia, Cartago e ao Mediterrâneo. Isso foi também praticado pelos cananeus e através do processo de sincretismo religioso por alguns israelitas. A referência mais antiga ao sacrifício de crianças na Bíblia é encontrada em Levítico, onde a prática é dirigida por Moisés em conexão com Moloque:
“Não oferecerás a Moloque nenhum dos teus filhos, fazendo-o passar pelo fogo; nem profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor.
(Levítico 18:21, veja também 20:1-5)
Em I Reis 11:7, Moloque é identificado como “O abominável e repugnante deus dos amonitas” e evidências arqueológicas recentes no antigo território dos amonitas do período da Conquista apoia o testemunho bíblico. Esse sacrifícios de crianças eram praticados na Jordânia de uma forma quase contemporânea a de Moisés.” [6]
Em seguida:
“A palavra hebraica Moloque é a da mesma raiz semítica da palavra púnica mulk que foi encontrado inscrito em vários monumentos funerários em Cartago que dão evidências linguísticas para a continuidade da prática de sacrifício de crianças em Canaã e em Cartago.” [7]
Para Norman Geisler:
“Era uma cultura inteiramente má, tanto assim que a Bíblia diz que dava náuseas a Deus. Estavam envolvidos na brutalidade, crueldade, incesto, bestialidade, prostituição religiosa e até mesmo o sacrifício de crianças na fogueira. Era uma cultura agressiva que queria aniquilar os israelitas. […] E veja o que aconteceu com os corruptos habitantes da cidade de Nínive. Deus iria julgá-los porque mereciam, mas eles se arrependeram e Deus salvou todo mundo.” [8]
Sobre a crueldade dos canaanitas, William Lane Craig comenta:
“Na época de sua destruição, a cultura cananeia era, na verdade, pervertida e cruel, se envolvendo em práticas como prostituição ritual e até mesmo sacrifício infantil.” [9]
O acadêmico de Harvard Earnest Wright também diz que:
“O culto destes deuses [Baalismo] carrega com ele algumas das práticas as mais desmoralizantes até então na existência. Entre eles estavam o sacrifício de crianças, uma prática há muito descartada no Egito e na Babilônia, a prostituição “sagrada” e o culto de serpentes a uma escala desconhecida entre outros povos” [10]
John Wenham escreve:
“Os sacrifícios de Moloque foram oferecidos especialmente em conexão com votos e promessas solenes, e as crianças foram sacrificadas como a garantia mais dura e mais vinculante da santidade de uma promessa.” [11]
“Não é de surpreender que o vale de Hinom (Gehenna), onde a adoração de Moloque foi praticada nos dias de Manassés, deveria ter fornecido a imagem judaica do inferno.” [12]
Sobre a representação de Moloque, o estudioso Clay Jones infere:
“Moloque era uma divindade do submundo cananeu representada como um ídolo ereto e de cabeça de touro com corpo humano em cuja barriga havia um fogo aceso e em cujos braços estendidos uma criança era colocada que seria queimada até a morte … e não eram apenas bebês; crianças de até quatro anos foram sacrificadas.” [13]
“Uma imagem de bronze de Cronos [representando Moloque] foi montada entre eles, estendendo suas mãos em concha sobre um caldeirão de bronze, que queimaria a criança.” [14]
Sacrifícios de crianças a Moloque
Apesar de haver muita discussão se a palavra “mulk” refere-se à uma deidade chamada Moloque que recebia sacrifícios ou se denota somente um sacrifício humano para qualquer uma divindade,[15] se estabelece seguramente para muitos estudiosos do contexto cultural do Oriente Médio que houve infanticídio ritualístico por parte dos cananeus, demonstrado pelo falecido professor emérito de história teológica e história da Igreja, Geoffrey W. Bromiley.[16]
A Bíblia nos diz que a destruição dos cananeus não era um julgamento racial. Deus declarou explicitamente que essas pessoas estavam a ser executadas por causa de suas terríveis e sádicas ações (Levítico. 18:20-30). Caso o povo judeu praticasse as mesmas ações, a promessa de punição seria igual (Levítico 18:29). Permitir aos canaanitas a coexistência com Israel levaria a nação israelita ao caos. (Êxodo 23: 20-33).
Os cananeus foram os primeiros a atacarem os judeus, não o contrário. Um dos grupos de povos cananeus (os amalequitas) foram ao ataque contra o povo hebreu durante os dias de percurso no deserto (Êxodo. 17), e isto ocorreu repetidas vezes (Números 14:45, Deuteronômio 25: 17-19); em meio à fraqueza dos israelitas (Deuteronômio 23:3-4). John Wenham observa: “Exércitos antigos neste território não faziam prisioneiros. Eles acabariam com eles totalmente”.[17] Não teria havido nenhuma clemência para o povo judeu.
Quando os nazistas tentaram exterminar judeus no século XX, a comunidade internacional não se empenhou em propor medidas contrárias E, no entanto, claramente, essas nações estavam tentando executar o mesmo atentado – ainda que mais de três milênios antes. Em vez de usarem câmaras de gás, os cananeus portariam espadas e lanças, e o resultado não seria muito diferente. Se Deus não comandasse a guerra, os judeus seriam extinguidos. Era matar ou ser morto.
Portanto, a guerra com os cananeus não foi a destruição de um grupo inocente de pessoas. Era a punição capital corporativa de uma cultura doente, retorcida e bárbara. Se um homem moderno fosse apanhado praticando qualquer um desses atos, poucos seriam negativos à sentença de morte dele. Enquanto a destruição dos cananeus era um julgamento severo, seu pecado era igualmente severo.
2. Os judeus geralmente não entravam em guerras ofensivas – apenas defensivas:
Os israelitas não tinham permissão para conquistar quem quisessem. De fato, quando eles tentaram conquistar povos sem a aprovação divina, eram totalmente derrotados (1 Samuel. 4, Números 14: 41-45, Josué 7). O rei estava abaixo de Deus – não acima Dele.[18] Após a batalha com Canaã, Deus não orientou quaisquer outras batalhas ofensivas em Israel. Mesmo durante este tempo, as guerras de Israel eram geralmente ligadas à defesa (ver Êxodo 17: 8, Números 21:1, Deuteronômio 3:1, Josué 10:4, Números 31:2-3).
O teólogo e PhD em filosófia da religião, Paul Copan, escreve:
“Todas as batalhas sancionadas por Yahweh além do tempo de Josué eram defensivas, incluindo a batalha de Josué para defender Gibeão (Josué 10-11). É claro que, enquanto certas batalhas ofensivas teve lugar durante o tempo dos juízes e sob Davi e além, estas não são recomendadas como ideais ou exemplares.” [19]
3. Deus não tem favoritos:
Ao longo da Bíblia, vemos que Deus se preocupa com todas as pessoas. Embora os moabitas fossem completamente maus, Deus demonstra compaixão por eles (Isaías 15:5 e 16:9). Apesar dos assírios e egípcios oprimirem os judeus, Deus se refere a eles como “meu povo” (Isaías 19:25). Repetidamente, no percorrer do A.T, vemos que Deus ama o estrangeiro (Levítico 19:33-34, Deuteronômio 10:18-19), e ele não mostra tratamento preferencial. Em meio a previsão da destruição dos cananeus, vemos a imparcialidade no caráter de Deus. No Antigo Testamento lemos:
“Ouça, ó Israel: Hoje você está atravessando o Jordão para entrar na terra e conquistar nações maiores e mais poderosas do que você, as quais têm cidades grandes, com muros que vão até o céu. O povo é forte e alto. São enaquins! Você já ouviu falar deles e até conhece o que se diz: “Quem é capaz de resistir aos enaquins?” Esteja, hoje, certo de que o Senhor, o seu Deus, ele mesmo, vai adiante de você como fogo consumidor. Ele os exterminará e os subjugará diante de você. E você os expulsará e os destruirá, como o Senhor lhe prometeu. Depois que o Senhor, o seu Deus, os tiver expulsado da presença de você, não diga a si mesmo: “O Senhor nos trouxe aqui para tomarmos posse desta terra por causa da nossa justiça”. Não! É devido à impiedade destas nações que o Senhor vai expulsá-las da presença de você. Não é por causa de sua justiça ou de sua retidão que você conquistará a terra deles. Mas é por causa da maldade destas nações que o Senhor, o seu Deus, as expulsará de diante de você, para cumprir a palavra que o Senhor prometeu, sob juramento, aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. Portanto, esteja certo de que não é por causa de sua justiça que o Senhor seu Deus lhe dá esta boa terra para dela tomar posse, pois você é um povo obstinado.” — Deuteronômio 9:1-6
Deus reconheceu que os judeus eram “um povo obstinado”. E, no entanto, Ele queria usar a nação de Israel para trazer uma bênção ao mundo (Gênesis 12:2-3; 18:18; 22:18; 26: 4 28:14, Ex. 9:16, Josué 4:24, 1 Reis 8: 41-43, Salmo 72:17, Jeremias 4:2, Zacarias 8:13, Ezequiel 36:22-23 , Isaías. 19:24-25, 37:20, 45:22-23, 52:10, 66:18-19). Se Israel tivesse sido destruído, isso teria implicado negativamente o plano de Deus para trazer bênção através do Messias. Portanto, Deus escolheu os judeus não para acabar com os outros povos, mas para abençoá-los.
4. Deus deu aos cananeus a oportunidade de mudar:
Deus espera pacientemente que todas as pessoas se voltem para ele, e é lento para se irar (Êxodo 34:6-7, Salmo 103:8, Jonas 4:2). O Senhor se compadeceu dos ninivitas, afastando-os do julgamento, isso porque:
“Nínive tem mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?” — Jonas 4:11.
Em Ezequiel, Deus não tem prazer no julgamento dos ímpios (Ezequiel 33:11). Em Jeremias, Ele diz que os livrará do julgamento, se os ímpios se arrependerem de seus comportamentos:
“Se em algum momento eu decretar que uma nação ou um reino seja arrancado, despedaçado e arruinado, e se essa nação que eu adverti converter-se da sua perversidade, então eu me arrependerei e não trarei sobre ela a desgraça que eu tinha planejado.” —Jeremias 18:7,8
Se esses homens tivessem se arrependido, Deus não os condenaria. Novamente, Deus aguardou 400 anos para que os cananeus pudessem ter a oportunidade de mudar. Ele não os julgou imediatamente, porque os pecados dos cananeus “ainda não justificavam a sua destruição” (Gênesis 15.13;16). Ou seja, não estavam além do ponto de retorno. No entanto, no momento em que os judeus entraram na batalha, já estavam prontos para serem julgados.
Durante este período de 400 anos, os cananeus sabiam que Deus estava vindo por eles. O Senhor destruiu Sodoma e Gomorra, cidades habitadas por cananeus. Quando os hebreus estavam na fronteira, prontos para lutar, Raabe disse-lhes que haviam ouvido falar do juízo de Deus sobre o Egito (Josué 2:10, 9:9). Mas os cananeus ignoraram desafiadoramente as sérias advertências.[20]
Os canaanitas (1500-900 a.C)
5. Diplomacia foi o método usual:
Quando Israel ingressava em guerra contra uma nação (permitida por Ele), costumavam oferecer um tratado de paz antes. Por exemplo, é dito que “quando você se aproximar de uma cidade para combatê-la, você deve oferecer condições de paz.” (Deuteronômio 20:10).
Se o povo se rendesse, eles não seriam prejudicados. Mas deveriam estar prontos para fazer qualquer serviço à Israel, além de fornecerem impostos. Isso pode parecer duro, mas não se esqueça do contexto do Oriente Próximo. Quando os amonitas cercaram uma das cidades de Israel, exigiram que cada cidadão arrancasse um dos seus olhos, como um termo de paz e rendição (1 Samuel 11:1-2). É por isso que as nações vizinhas consideravam os reis hebreus como “reis misericordiosos” (1 Reis 20:31).
Este tratado de paz não foi oferecido a estes sete grupos de povos em Canaã (Ex. heteus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus, e jebuseus), como Deuteronômio 20:16 explicita. Isso provavelmente ocorreu porque os judeus foram ao rei de Hesbom (dos amorreus) com “palavras de paz” (Deuteronômio 2:26), mas o rei “não estava disposto” a deixá-los passar por sua terra (Deuteronômio 2:30). No entanto, aqueles que estavam dispostos a abandonar Canaã provavelmente foram poupados. Como toda a família de Raabe poupada de julgamento (Josué 2:13), por se render aos judeus. Os restantes dos cananeus foram mortos porque escolheram ficar.[21]
6. As ações de Josué eram leves em comparação com o resto do antigo Oriente Próximo:
No livro de Josué, lemos:
“Quando os levaram a Josué, ele convocou todos os homens de Israel e disse aos comandantes do exército que o tinham acompanhado: “Venham aqui e ponham o pé no pescoço destes reis”. E eles obedeceram. Disse-lhes Josué: “Não tenham medo! Não se desanimem! Sejam fortes e corajosos! É isso que o Senhor fará com todos os inimigos que vocês tiverem que combater”. Depois Josué matou os reis e mandou pendurá-los em cinco árvores, onde ficaram até à tarde. Ao pôr-do-sol, sob as ordens de Josué, eles foram tirados das árvores e jogados na caverna onde haviam se escondido. Na entrada da caverna colocaram grandes pedras, que lá estão até hoje.” — Josué 10:24-27
Quando os modernistas leem esta passagem, muitos ficam horrorizados, mas quando comparamos isso com o antigo Oriente Próximo, vemos que isso foi pacífico. Copan escreve:
“Os anais neo-assírios de Assurnasirpal II (883-859 a.C) tomavam prazer em descrever o esfolamento de vítimas vivas, o empalamento de indivíduos em pólos e os corpos amontoados em amostra. Eles se vangloriavam de como o rei montava corpos e colocava cabeças em pilhas; o rei se gabava de arrancar os olhos das tropas e cortar as orelhas e os membros, seguido pela exibição de suas cabeças ao redor de uma cidade.” [22]
A guerra era uma parte sangrenta do antigo Oriente Próximo. No entanto, em Josué 10, os reis não foram torturados ou humilhados. Em vez disso, receberam uma rápida execução militar. Ao pendurarem seus corpos, Josué estava dando uma lição objetiva para o povo de que esses homens maus seriam julgados por Deus por sua crueldade (Deuteronômio 21:23). Ou seja, ele estava enfatizando que este não era o julgamento humano – mas o julgamento divino.
7. “Destruir completamente” não é uma linguagem absoluta:
Quando Deus deu o comando de “destruir completamente” os cananeus, existem evidências de que isto fosse semelhante à antiga retórica de guerra no Oriente Próximo ou uma linguagem hiperbólica. Existem várias razões para acreditar nisso:
Em primeiro lugar, alguns cananeus sobreviveram à guerra, apesar de Josué afirmar que eles tinham destruído “todos”. Josué registra:
“Assim Josué conquistou a região toda, incluindo a serra central, o Neguebe, as encostas e as vertentes, e derrotou todos os seus reis, sem deixar sobrevivente algum. Exterminou tudo o que respirava, conforme o Senhor, o Deus de Israel, tinha ordenado (…) Assim Josué conquistou toda aquela terra: a serra central, todo o Neguebe, toda a região de Gósen, a Sefelá, a Arabá e os montes de Israel e suas planícies” — Josué 10:40; 11:16
Repetidamente, ele declara que cumpriu o mandamento de destruir totalmente os cananeus “como Moisés, servo do Senhor, havia ordenado” (Josué 11:12, 15, 20). No entanto, várias vezes constatamos que não tomou toda a terra (Josué 13:1-5), e não desapropriou todas as pessoas (Josué 13:13). Josué declara que havia “destruído completamente” o povo de Anaque (Josué 11: 21-22), a seguir, Calebe pede permissão para expulsar os Anaquins (Josué 14: 12-15; 15: 13-19). Em Juízes é registrado que “os cananeus persistiram em viver naquela terra” (Juízes 1:21) e “não expulsaram os cananeus completamente” (Juízes 1:28). No tempo de Salomão, vemos que os “amorreus, os heteus, os perizeus, os heveus e os jebuseus” ainda existiam na terra, porque “os filhos de Israel não foram capazes de destruí-los totalmente” (I Reis 9:20 – 21).
Moisés escreve que uma geração futura de israelitas “será totalmente destruída” (Deuteronômio 4:26). E consequentemente, Israel sobreviveu ao ser “completamente destruída”.
Um outro exemplo. Deus ordenou ao Rei Saul:
“Agora vão, ataquem os amalequitas e consagrem ao SENHOR para destruição tudo o que lhes pertence. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos” — 1 Samuel 15:3.
Saul executou conforme comandado a ele “destruir totalmente a todos os povos com o fio da espada” (1 Samuel. 15:8). Posteriormente, os homens de Davi lutaram contra várias tribos, incluindo os amalequitas “completamente destruídos” ( 1 Samuel 27:8, veja 1 Crônicas 4:43). Não são erros textuais. Em vez disso, podemos estar interpretando mal o texto, quando consideramos que estas são afirmações absolutas.
Vitoria de Josué contra os amalequitas
Mesmo depois da guerra com Canaã, os judeus ainda eram avisados sobre casamentos mistos com outros povos (Josué 23:12-13, Deuteronômio 7:2-5). Seriam advertências inúteis, a menos que ainda houvessem sobreviventes.
Isso fornece evidência para a interpretação de que a linguagem absoluta desta guerra pode não ser absoluta. Em vez disso, este poderia ser um caso de linguagem hiperbólica, pelo qual o autor usa a linguagem abrangente para causar um efeito.
Podemos dizer:
“Todo mundo já ouviu a nova música do Rosa de Saron.”
ou
“Toda a cidade estava em alvoroço após a reportagem.”
A Bíblia usa linguagem hiperbólica ao dizer também que “toda nação debaixo do céu” veio a Jerusalém no Pentecostes (Atos 2:5).
Em segundo lugar, a retórica de guerra era comum no AOM (Antigo Oriente Médio). Copan cita os dizeres do faraó Tutmosis III, o rei hitita Mursilli II, Ramsés II, a Estela de Merneptah, o rei Mesa de Moabe e o governante assírio Senaqueribe.[23] Cada uma destas fontes usa uma linguagem que é semelhante a de Josué. Enquanto o rei afirmou que “todos” foram mortos, alguns ainda sobreviveram. Dito de outra forma, esta retórica de guerra foi usada para descrever a destruição da nação, ao invés de cada indivíduo. Não devemos considerar falsas tais afirmações; nós consideraríamos hiperbólicas, como elas devem ser.
Em terceiro lugar, o foco desta guerra era destruir a vida religiosa dos cananeus e suas fortalezas militares (Deuteronômio. 12:2-3). Por isso Acão foi morto por roubar bens da cidade de Ai (Josué 7:20-26), ninguém foi morto por poupar civis. O estudioso do Antigo Testamento Richard Hess disserta: “O foco é sobre a liderança, os reis, e não toda a cidade em si. A elite dominante opôs-se a Josué. Nada é dito dos cidadãos dessas cidades e sua atitudes”.[24]
Em quarto lugar, Moisés e Josué usam três palavras ou mais para descrever a guerra. Considere o uso destes três termos abaixo:
“Expulsar”. Aqui podemos ver o que Moisés diz, parafraseando Deus:
“Mandarei adiante de vocês o meu terror, que porá em confusão todas as nações que vocês encontrarem. Farei que todos os seus inimigos virem as costas e fujam (…) Eu os expulsarei aos poucos, até que vocês sejam numerosos o suficiente para tomar posse da terra.” — Êxodo 23:27,30.
Isto ensina que a guerra seria um processo. Isso também implica que muitas das pessoas que partiram ficariam vivas. A mesma linguagem de ser “expulsos” descreve Adão e Eva (Gênesis 3:24), Caim (Gênesis 4:14) e Davi (1 Samuel 26:19) – todos foram deixados vivos.
Moisés também tinha “expulsado os amorreus” na sua época (Números 21:32). Em seguida escreve: “Você está cruzando o Jordão hoje para expulsar nações maiores e mais poderosas do que você” (Deuteronômio. 9:1; 11:23; 18:14; 19:1; etc.). Outros termos são “possuir”, “conquistar”, “despojar” e etc.
“Arruinar e destruir”. Esse verso é para Israel, onde Moisés diz:
“Assim como foi agradável ao Senhor fazê-los prosperar e aumentar em número, também lhe será agradável arruiná-los e destruí-los. Vocês serão desarraigados da terra em que estão entrando para dela tomar posse.” — Deuteronômio 28:63
Quando este evento ocorreu, aqueles que fugiram da cidade foram poupados (Jeremias. 38: 2, 17). Outros termos podem ser “perecer” e etc.
À primeira vista, todos esses termos parecem se referir a uma destruição absoluta do povo. Entretanto ao analisar os demais usos na Bíblia, descobrimos que essas não são expressões absolutas.
8. E as mulheres e crianças?
Como já vimos, o comando de “destruir completamente” poderia ter sido uma linguagem hiperbólica, o que era consistente com a antiga retórica de guerra do Oriente Próximo. Outros pontos podem ser feitos acerca das mulheres e crianças.
Em primeiro lugar, essas cidades eram fortalezas militares. Não eram para civis. Ou seja, essas cidades podem não ter contido mulheres e crianças. Copan escreve:
“Não há evidências arqueológicas de populações civis em Jericó ou Ai. Dado o que sabemos sobre a vida cananeia na Idade do Bronze, Jericó e Ai eram redutos militares (…) O uso de palavras como “mulheres” e “jovem e velho ” estavam apenas em conformidade com a idiomática do Oriente Médio que poderia ser usada mesmo se as mulheres e jovens e velhos não vivessem lá. A linguagem de “todos” (“homens e mulheres”) em Jericó e Ai é uma “expressão estereotipada da destruição de toda a vida humana no forte, presumivelmente composta inteiramente de combatentes.” [25]
O texto não exige que as mulheres e jovens e velhos vivessem nessas cidades. O único exemplo de uma mulher em uma dessas cidades é Raabe, e ela foi poupada (Josué 2). Portanto, é possível que mulheres e crianças não estivessem lá, ou se estivessem lá, a vida inocente foi poupada.
É necessário pontuar que as mulheres cananeias estavam longe de serem inocentes. Em Números 25:1-2, as midianitas foram culpadas por seduzir os homens israelitas. Este ato era mais do que simplesmente dormir com eles. Homens foram seduzidos para adoração de Baal como resultado (Nm 31: 16-18). Lembre-se, a adoração de Baal não era um culto inocente; era uma abominação onde havia sacrifícios de crianças.
Em finalização à essa apresentação histórica e teológica onde se mostra que não se trata de um extermínio de um povo, muitas vezes usada como argumento pelos ateus, resumimos dessa forma:
1- Objeções como estas não refutam o teísmo cristão; esta objeção é simplesmente um argumento contra a inerrância bíblica (uma doutrina não-essencial) nada mais; [26]
2- Os cananeus eram ímpios (a par com ISIS) e estavam prontos para serem julgados;
3- A batalha foi principalmente sobre a terra, pois Deus não havia ordenado que caçassem os cananeus até os confins da Terra;
4- A Bíblia é clara ao mostrar que todos os cananeus não foram executados;
5- Esses comandos poderiam muito bem ter sido um discurso figurativo;
6- Objeções como essas sustentam a premissa (2) do argumento moral para a existência de Deus (Portanto, Deus existe);
7- Dada a propriedade de Deus de onisciência e inteligência perfeita, Deus toma a melhor decisão em cada cenário e situação. Deus saberia o caos que aconteceria se Ele não emitisse os comandos para destruir os cananeus, mesmo se fosse no caso das crianças e mulheres (que pelas evidências não foi caso).
[16] BROMILEY, G. W. The International Standard Bible Encyclopedia. v. 4. Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1988, p. 97.
[17] WENHAM, J. W. The Goodness of God. Downers Grove: InterVarsity, 1974, p. 126.
[18] Observe, também, a relação entre o Rei e a Lei em Israel. No mundo pagão, o rei era o legislador e o comandante chefe, que podia quebrar ou revisar a lei a qualquer momento. Quando olhamos para a narrativa do VT, no entanto, vemos que o rei não estava acima da lei de Deus; Em vez disso, ele estava abaixo dela. Este conceito de “lex rex” era completamente desconhecido para o Oriente Próximo Antigo, que praticava “rex lex”. Por exemplo, Natã confrontou Davi sobre seu assassinato e adultério com base na lei de Deus (2 Samuel 12). Elias desafiou o assassinato de Nabote de Acabe baseado na lei (1 Reis 21). Uzias recebeu lepra para assumir o papel de sacerdote, que estava fora de sua jurisdição legal (2 Crônicas 26).
[19] COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids: Baker, 2011, p. 178.
[20] Mesmo depois deste grande e terrível julgamento, os cananeus continuaram a perseguir os judeus (Juízes 3:13; 6: 3; 7:12; 1 Sam. 15).
[21] Da mesma forma, quando o Egito foi julgado, muitos civis egípcios (“uma grande mistura de gente”) foram poupados (Êxodo 12:38). De fato, até mesmo alguns do povo de Faraó acreditaram em Deus e escaparam do julgamento (Êxodo 9:19-21).
[22] COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids: Baker, 2011, p. 179.
[23] Ibid., p. 172.
[24] HESS, R. S. Joshua: An Introduction and Commentary. Downers Grove: InterVarsity, 1996, p. 217.
[25] COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God. Grand Rapids: Baker, 2011, p. 175-176.
Ao contrário do que muitos ateus argumentam, o cristianismo historicamente tem sido um patrono das ciências. A fé cristã foi prolífica na fundação de escolas, universidades e hospitais, e muitos clérigos famosos estiveram ativos nas ciências. Esse artigo tem como intuito desconstruir o mito que o cristianismo foi nocivo ao desenvolvimento da ciência e mostrar as contribuições dos cristãos no conhecimento científico ao longo da história da civilização ocidental.
Apesar da “tese do conflito” entre o cristianismo e a ciência permear o imaginário ateu, há um consenso entre os historiadores da ciência que essa suposta hostilidade é um mito popular.[1][2][3][4][5]Historiadores da ciência, como Pierre Duhem, creditam os trabalhos dos matemáticos e filósofos católicos medievais, como John Buridan, Nicole Oresme e Alberto da Saxonia como as raízes da ciência moderna.[6] Duhem concluiu que “a mecânica e a física de que os tempos modernos são justificadamente orgulhosos de proceder, por uma série ininterrupta de melhorias pouco perceptíveis, vieram de doutrinas professadas no coração das escolas medievais”.[7]
Durante a idade média mosteiros foram criados para perseverar o pensamento grego antigo[8]e a Igreja Católica foi importante para o desenvolvimento das primeiras universidades do mundo ocidental.[9] Sacerdotes católicos trabalharam também como cientistas,[10] sendo os mais proeminentes deles Gregor Mendel, tido como o pai da genética,[11]George Lemaitre, que foi o criador da teoria do Big-Bang[12] e além de muitos monges jesuítas que tiveram participação muito importante para o desenvolvimento da ciência moderna.[13][14]Cientistas cristãos tiveram seus trabalhos reconhecidos em grandes campos da ciência e seus nomes escritos na história.[15]
Com o surgimento da Reforma Protestante, alguns especialistas dizem que há uma relação entre o ascetismo protestante e o desenvolvimento científico e tecnológico.[16]Um número de historiadores e sociólogos concordam que o surgimento do protestantismo foi uma das causas do surgimento da revolução científica.[17][18][19]
• Antecedentes Históricos
Ainda que muitos achem que Igreja Católica permaneceu na ignorância em relação a ciência em suas variadas formas, muitos estudiosos discordam dessa afirmação. Para o historiador PhD Thomas E. Woods, a própria Igreja Católica foi importante para o avanço científico:
“Nos últimos cinquenta anos, praticamente todos os historiadores da ciência – entre eles Alistair C. Crombie, David Lindberg, Edward Grant, Stanley Jaki, Thomas Goldstein e John L. Heilbron – chegaram à conclusão de que a própria Revolução Científica se deveu à Igreja. E a contribuição católica para a ciência não se limitou às ideias – incluídas as teológicas – que tornaram possível o método científico; muitos dos principais inovadores científicos foram sacerdotes (…)” [20]
Nas palavras do renomado PhD e professor em história Gary B. Ferngren, a tese de que a ciência sempre esteve sob ataque do cristianismo é um mito que tem sido derrubado ao longo dos anos:
“Enquanto alguns historiadores sempre consideraram a tese de Draper-White como super-simplificada e que distorcia uma relação complexa, [essa tese] no final do século XX passou por uma reavaliação mais sistemática. O resultado é o crescente reconhecimento entre os historiadores da ciência de que a relação entre religião e ciência tem sido muito mais positiva do que às vezes se pensa. Embora as imagens populares de controvérsia continuem a exemplificar a suposta hostilidade do cristianismo a novas teorias científicas, estudos mostraram que o cristianismo muitas vezes estimulou e encorajou o esforço científico, enquanto em outros momentos os dois coexistiram sem tensão ou tentativas de harmonização. Se Galileu e o julgamento de Scopes vierem à mente como exemplos de conflito, eles eram as exceções e não a regra.” [21]
O renomado historiador da ciência David Lindberg comenta sobre a relação entre a igreja e a busca do conhecimento científico:
“Muito mais comumente, a reflexão crítica sobre a natureza do mundo foi tolerada e até mesmo encorajada. Em sua busca para entender o mundo em que viviam, estudiosos medievais empregaram todos os recursos à sua disposição, incluindo idéias científicas herdadas, observação pessoal, inferência racional e tradição religiosa. E o fizeram com tanta integridade quanto se encontra hoje, com muito menos interferência da igreja do que a caricatura da Idade Média sugeriria.” [22]
Para ele, a revolução científica se deu por dois fatores importantes:
“Foi mais fundamentalmente uma continuação e conseqüência das instituições medievais (as universidades) e das instituições científicas clássicas cristãs na tradição da Idade Média.” [23]
Ao ser perguntado se o Catolicismo ajudou no desenvolvimento científico, David Lindberg responde:
“Definitivamente. Por exemplo, Roger Bacon argumentou que se você quisesse interpretar passagens bíblicas que tocam os céus ou outros objetos de investigação científica, você tinha que ter conhecimento científico. E uma grande quantidade de conteúdo científico é encontrada em tratados teológicos medievais.” [24]
Edward Grant discorre sobre o assunto:
“A civilização cristã latina da Europa Ocidental iniciou a última parte da jornada intelectual que culminou em uma revolução científica que transformou o mundo. Os fatores que produziram essa conquista única são encontrados na maneira como o cristianismo se desenvolveu no Ocidente e na invenção da universidade em 1200.” [25]
O desenvolvimento científico se deu pelo trabalho de muitos clérigos católicos. Por exemplo, A.C Crombie assevera sobre o bispo católico Robert Grosseteste:
“o verdadeiro fundador da tradição do pensamento científico na Oxford medieval, e em alguns aspectos, da moderna tradição intelectual inglesa.” [26]
Thomas Goldstein fala sobre a Escola de Chartres, uma importante escola catedral que funcionou na catedral de Chartres e que se tornou um importante centro de estudos na Europa Medieval:
“Formularam as premissas filosóficas; definiram o conceito básico de cosmos a partir do qual viriam a desenvolver-se todas as ciências particulares posteriores; reconstruíram sistematicamente o conhecimento científico do passado e lançaram assim uma sólida base tradicional para a futura evolução da ciência ocidental. Cada um desses passos parece tão crucial que, tomados em conjunto, só podem significar uma coisa: que, em um período de quinze ou vinte anos, por volta de meados do século XII, um punhado de homens empenhou-se conscienciosamente em lançar as bases do progresso da ciência ocidental e deu todos os principais passos necessários para atingi-lo.” [27]
Catedral de Chartres
No início do século XI o bispo Fulbert estabeleceu Chartres como uma das principais escolas da Europa e embora o papel do próprio Fulbert como estudioso e professor tenha sido questionado, talvez seu maior talento tenha sido como administrador, que estabeleceu as condições em que a escola poderia florescer.[28][29]
Um outro católico relevante para o desenvolvimento das ciências na idade média foi Thierry de Chartres. De acordo com o historiador Michael C. Weber:
“Thierry de Chartres era um dos mais importantes mestres de escola catedral do século XII. Ele foi um filósofo e extraordinário professor de ciências naturais, e membros de seu círculo também se tornaram professores e tradutores de textos científicos e matemáticos árabes. Ele é visto como a maior figura do “platonismo chartriano”. [30]
Segundo a renomada Encyclopaedia Britannica:
“Seu inédito Heptateuchon (“Livro em Sete Volumes”) contém os “clássicos” das sete artes liberais, incluindo obras de Cícero sobre retórica e de Aristóteles sobre a lógica. Sua cosmologia, exposta principalmente em seu comentário sobre Gênesis, tenta harmonizar as Escrituras com as doutrinas platônicas e outras doutrinas físicas ou metafísicas; ensina que Deus, que é tudo, é a forma última da qual todas as outras formas foram criadas. No Ocidente latino, ele foi um dos primeiros a promover o conhecimento da ciência pelos árabes, contribuindo para esse importante movimento a partir do século XI, no qual a ciência oriental foi introduzida no ocidente, através da tradução latina de obras em árabe que desapareceu com o Império Romano Latino.” [31]
Goldstein assevera que “Thierry provavelmente será reconhecido como um dos verdadeiros fundadores da ciência ocidental.” [32]
O Papa João Paulo II relata sobre a visão de Tomás de Aquino sobre a relação entre a fé e a razão:
“Tomás reconheceu que a natureza, a preocupação apropriada da filosofia, poderia contribuir para a compreensão da revelação divina. A fé, portanto, não tem medo da razão, mas busca e confia nela. Assim como a graça se baseia na natureza e a realiza, a fé se baseia e aperfeiçoa a razão.”[33]
A crença que Deus criou o mundo e portanto os humanos, pode levar a visão que Ele formou os homens para conhecerem melhor o mundo que Ele criou. Isso está subtendido na doutrina da Imago Dei (imagem de Deus). Nas palavras de São Tomás de Aquino:
“Visto que se diz que os seres humanos são a imagem de Deus por terem uma natureza que inclui um intelecto, tal natureza é a mais “imagem de Deus” em virtude de ser mais capaz de imitar Deus.”[34]
Lindberg relata que o “erudito medieval tardio raramente experimentava o poder coercivo da igreja e se considerava livre (particularmente nas ciências naturais) para seguir a razão e a observação onde quer que eles levassem. Não havia guerra entre a ciência e a Igreja.” [35][36] Ted Peters na Encyclopedia of Religion escreve que embora haja alguma verdade na história da “condenação de Galileu”, mas através de exageros, agora se tornou “um mito moderno perpetuado por aqueles que desejam ver a guerra entre ciência e religião, onde foram perseguidos por uma autoridade eclesiástica atávica e dogmática.” [37]
• Papel do Clero
Entre os exemplos mais importantes de cientistas no clero católico está Gregor Mendel, pelo seu trabalho importante em relação a genética, como descobridor das leis da genética.[38][39][40] Temos também como exemplo Nicholas Steno, um pioneiro no estudo das camadas da terra, como na geologia em geral, e suas contribuições para a ciência da anatomia.[41][42]
Outros exemplos importantes foram René Just Haüy, dito como “Pai da Cristalografia Moderna” por ser um dos pioneiros do estudo dos cristais,[43][44] ajudando também no desenvolvimento do sistema métrico[45] e Marin Mersenne, talvez mais conhecido hoje entre os matemáticos pelos números primos de Mersenne,[46]desenvolveu as leis de Mersenne, que descrevem os harmônicos de uma corda vibrante (como pode ser encontrada em guitarras e pianos),[47][48] e seu trabalho seminal sobre teoria musical, em Harmonie universelle, para o qual ele é referido como o “pai da acústica”.[49][50][51] Mersenne, um padre ordenado, teve muitos contatos no mundo científico e tem sido chamado de “o centro do mundo da ciência e da matemática durante a primeira metade dos anos 1600”.[52][53]
O franciscano Roger Bacon, conhecido como Doctor Admirabilis (em latim “Doutor Admirável”),[54] ainda na idade média dedicou-se a estudos onde implementou a observação da natureza e da experimentação científica como fundamento do conhecimento natural.[55][56][57]
Muitos especialistas falam sobre a importância de Roger Bacon na ciência. Segundo a professora de história Elspeth Whitney:
“Roger Bacon está entre os filósofos naturais medievais por seu apelo explícito e fortemente formulado de que a ciência deve ser usada para o benefício prático da humanidade. Embora muitos cientistas medievais estivessem interessados na utilidade da natureza e dos produtos naturais, poucos expressaram em termos tão claros que a visão dos propósitos primários da ciência era produzir invenções dramáticas (…) Sua menção ao poder explosivo do salitre, o ingrediente primário na pólvora, é o primeiro conhecido na escrita europeia. (…) sobre a ótica, ele sugere que as lentes poderiam ser feitas de modo que “de uma distância incrível poderíamos ler as menores letras e grãos de areia e poeira”. (…) Em outros escritos, ele também se refere à possibilidade de construir máquinas voadoras e carros que funcionassem sozinhos.”[58]
E ela relata mais sobre a visão de Bacon:
“Bacon também é incomum em sua ênfase na “experiência”, bem como na razão, no método científico. Por um lado, por “experiência”, ele quer dizer claramente que o cientista deveria pessoalmente testar idéias de maneira concreta sempre que possível. Por outro lado, ele também acredita que a inspiração divina é um elemento-chave na descoberta científica.”[59]
Uma outra professora de história, Amanda Power, fala sobre a proeminência de Roger Bacon durante a idade média:
“Roger Bacon ocupa uma posição proeminente, embora ambígua, na história do período medieval. Ele é amplamente considerado como uma figura significativa no desenvolvimento do pensamento científico moderno, tendo um papel importante na assimilação da aprendizagem greco-árabe no mundo latino. Ele foi um dos primeiros a ensinar a filosofia natural de Aristóteles em Paris, e suas investigações posteriores foram imaginativas e diversas.”[60]
De acordo com o professor Stephen.J Willians “pode ser correto descrever Roger Bacon como o maior apóstolo da ciência natural da Idade Média”.[61] Para o famoso escritor da ciência Brian Clegg “ele não foi apenas um dos primeiros a desenvolver o conceito de ciência em si, mas também mostrou quão importante é a compreensão da ciência para todos.”[62]
Segundo o professor de história Ronald Edward Zupko:
“Roger Bacon foi fundamental para estabelecer as bases iniciais do pensamento científico moderno. Ele estava bem ciente da inter-relação de todas as ciências separadas e das contribuições que a ciência faz para a compreensão da realidade. Ele explicou o papel do método experimental em confirmar ou refutar hipóteses especulativas. Ele insistiu no valor prático da especulação científica e acreditou na importância de uma superestrutura ética que atuaria como um sistema de freios e contrapesos na descoberta de novos conhecimentos.”[63]
Roger Bacon (1214-1294)
Apesar dos métodos propostos de Roger Bacon conter algumas diferenças com a da ciência moderna, Zupko afirma que:
“Seu método experimental pode não ser compatível com o método científico moderno, mas dadas as limitações de seu tempo, sua formulação era válida. Em sua concepção do uso prático imediato da ciência, ele foi o precursor de trabalhos posteriores que levaram à era da ciência no início do mundo moderno. Roger Bacon não criou a ciência moderna, ele a inspirou.”[64]
Em relação a ciência da óptica, antes chamada de perspectiva,[65][66] Roger Bacon fez muitos avanços. Nas palavras do historiador da ciência David Lindberg:
“Bacon alcançou sucesso considerável na definição da perspectiva [a ciência da óptica] como um empreendimento geométrico. Nenhum ocidental antes dele foi tão longe. Diante de uma variedade de opiniões sobre a aplicabilidade da matemática aos fenômenos da luz e da visão, ele seguiu Alhacen e Grosseteste dando à matemática o máximo de papel – ao mesmo tempo em que revelava (tanto no preceito quanto na prática) que havia problemas além de seu alcance. Suas obras de perspectiva estão cheias de geometria, grande parte delas emprestadas de modelos gregos e islâmicos, é claro, mas selecionadas e disseminadas por Bacon. Foi Bacon quem mostrou aos estudiosos ocidentais que a perspectiva tinha que seguir o caminho matemático.”[67]
Georges Lemaître era um padre católico romano belga, astrônomo e professor de física,[68][69] que propôs em bases teóricas que o universo está se expandindo, o que foi confirmado pela observação logo depois por Edwin Hubble.[70][71] Ele foi o primeiro a derivar o que hoje é conhecido como lei de Hubble, ou a lei Hubble-Lemaître,[72][73] e fez a primeira estimativa do que hoje é chamada de constante de Hubble, que ele publicou em 1927, dois anos antes do artigo de Hubble.[74][75] Lemaître também propôs o que ficou conhecido como a “teoria do Big Bang” da origem do universo.[76][77][78][79][80][81]
Segundo o professor de física Mark Egdall:
“Em 1927, o padre e físico belga Georges Lemaître fez o que talvez seja a maior descoberta da cosmologia moderna – nosso universo está se expandindo. Quatro anos depois, ele propôs que o universo começou com um “quantum único” – o que hoje chamamos de Big Bang. No entanto, o público e muitos cientistas continuam inconscientes das realizações seminais de Lemaître.”[82]
A expansão do universo após o Big Bang
Egdall posteriormente explica como foi o aparecimento de Lemaître no cenário científico:
“Em um obscuro artigo de 1927 (escrito em francês), Georges Lemaître publicou independentemente sua solução para as equações de Einstein. De seu modelo, ele propôs uma relação linear entre a distância de uma galáxia e seu redshift. Em geral, quanto mais distante uma galáxia é, maior a sua luz é deslocada para a extremidade vermelha do espectro. Lemaître argumentou que em sua longa jornada à Terra, a luz de uma galáxia é esticada em freqüência pela expansão do próprio espaço. Quanto mais longa a jornada da luz, mais o universo se expandiu (…) Lemaître apoiou sua afirmação ao correlacionar dados publicados sobre o redshift de Strömberg e Slipher com medições de distância da galáxia por Hubble e Humason.” [83]
Após isso, George Lemaître propôs uma teoria muito mais ousada, como afirma Egdall:
“Em 1931, Monsenhor Lemaître propôs uma ideia ainda mais radical – o universo começou como um “quantum único”. O universo em expansão deve ter sido menor no passado, ele raciocinou. Assim, deve ter tido um começo finito.” [84]
Alguns cientistas na época viam essa teoria como uma visão “religiosa” da criação do universo. Um deles foi o famoso astrônomo Fred Hoyle. Segundo o PhD em química, Pablo de Felipe, a sua visão sobre o Big-Bang era negativa:
“O cosmólogo ateu Fred Hoyle, que foi o inventor do nome pejorativo “Big Bang” em 1949, rejeitou-o até sua morte em 2001. Ele considerou o Big Bang uma idéia religiosa disfarçada. Em vez disso, ele promoveu a cosmologia do estado estacionário, que postulava que a matéria estava continuamente “aparecendo” para manter a densidade de um universo eternamente em expansão.” [85]
George Lemaître (1894-1966)
George Lemaître advocava a harmônia entre a ciência e o cristianismo em seus escritos:
“Precisaria a Igreja da ciência? Certamente que não, a cruz e o evangelho bastam-lhe. Mas ao cristão nada de humano é alheio. Como poderia a Igreja desinteressar-se da mais nobre das ocupações estritamente humanas: a busca da verdade?” [86]
“Ambos (o sábio crente e o sábio não crente) se esforçam por decifrar o palimpsesto multiplamente imbricado da natureza, em que os vestígios das diversas épocas da longa evolução do mundo se foram cobrindo e confundindo. O crente possui talvez a vantagem de saber que o enigma tem solução, que a escrita subjacente é afinal obra dum ser inteligente, portanto que o problema apresentado pela natureza foi posto para ser resolvido, e que a sua dificuldade é sem dúvida proporcionada à capacidade presente ou futura da humanidade. Isto não lhe dará talvez novos recursos na investigação, mas contribuirá para o conservar neste são optimismo sem o qual um esforço suportado não pode manter-se muito tempo.” [87]
Duncan Aikman, um jornalista do New York Times, relatou o seguinte sobre Lemaître em 1933:
“Não há conflito entre religião e ciência”, disse Lemaître repetidamente ao público neste país (…) sua opinião é interessante e importante, não porque ele seja um padre católico, não porque ele seja um dos líderes físicos-matemáticos do nosso tempo, mas porque ele é ambos.” [88]
O famoso físico falecido Stephen Hawking relatou que: “Georges Lemaître foi a primeira pessoa que propôs um modelo segundo o qual o universo tinha um princípio muito denso. Ele, e não George Gamow, é o pai do Big Bang”.[89]
Em 22 de novembro de 1951, o Papa Pio XII declarou em uma reunião aberta na Pontifícia Academia das Ciências, com entusiasmo, sobre a teoria do Big Bang e a relação com a criação vista na fé cristã.[90] Em 2014 o Papa Francisco declarou a validade da teoria do Big Bang e disse que não há contradição alguma com a fé católica.[91]
Os jesuítas, padres pertencentes a Companhia de Jesus, também fizeram numerosas contribuições significativas para o desenvolvimento da ciência.[92][93] Por exemplo, os jesuítas dedicaram um estudo significativo aos terremotos, sendo uma das suas mais importantes contribuições para a ciência e a sismologia foi descrita como “a ciência jesuíta”.[94][95][96][97]
Para o historiador Jonathan Wright as conquistas na ciência pelos jesuítas foram as mais variadas:
“Contribuíram para o desenvolvimento dos relógios de pêndulo, dos pantógrafos, dos barômetros, dos telescópios refletores e dos microscópios, e trabalharam em campos científicos tão variados como o magnetismo, a ótica e a eletricidade. Observaram, em muitos casos antes de qualquer outro cientista, as faixas coloridas na superfície de Júpiter, a nebulosa de Andrômeda e os anéis de Saturno. Teorizaram acerca da circulação do sangue (independentemente de Harvey), sobre a possibilidade teórica de voar, sobre a maneira como a lua influi nas marés e sobre a natureza ondulatória da luz. Mapas estelares do hemisfério sul, lógica simbólica, medidas de controle de enchentes nos rios, Pó e Adige, introdução dos sinais mais e menos na matemática italiana – tudo isso foram realizações jesuíticas, e cientistas influentes como Fermat, Huygens, Leibnitz e Newton não eram os únicos a ter jesuítas entre os seus correspondentes mais apreciados.” [98]
Brasão da Companhia de Jesus
A Companhia de Jesus conseguiu ser eficiente na experimentação científica e no acúmulo de cientistas brilhantes em sua ordem. Como relata o historiador William Ashworth:
“Se enumerássemos apenas os cientistas jesuítas mais importantes, teríamos de mencionar Christoph Scheiner, Giambattista Riccioli, Francesco Grimaldi, Francesco Lana Terzi, Honoré Fabri, Athanasius Kircher, Niccolò Cabeo e Gaspar Schott, e a lista poderia ser ampliada consideravelmente sem grande perda em qualidade. Os jesuítas tinham um gosto especial pela ciência experimental, estavam interessados em todos os fenômenos recentemente descobertos, da atração eletrostática ao barômetro à lanterna mágica, e os jesuítas desempenharam um papel importante na descoberta de muitos efeitos novos por conta própria, como a difração e a repulsão elétrica.” [99]
Nas palavras do historiador da ciência John L. Heilbron, “o contribuinte mais importante para o apoio do estudo da física experimental no século XVII foi a Igreja Católica e, dentro dela, a Companhia de Jesus”. [100]Ashworth complementa dizendo que “tal reconhecimento só seria fortalecido por estudos detalhados de outras ciências, como a óptica, onde praticamente todos os tratados importantes do período foram escritos por jesuítas”. [101]
Padres jesuítas
As missões jesuíticas chinesas dos séculos XVI e XVII introduziram a ciência e a astronomia ocidentais à China.[102] Patricia B. Ebrey, uma historiadora moderna, escreve que na corte Ming os jesuítas eram “considerados impressionantes, especialmente por seus conhecimentos de astronomia, calendários, matemática, hidráulica e geografia”. [103] A Companhia de Jesus introduziu, segundo Thomas Woods, “um corpo substancial de conhecimento científico e uma vasta gama de ferramentas mentais para a compreensão do universo físico, incluindo a geometria euclidiana que tornou o movimento planetário compreensível”. [104]
Os jesuítas fizeram muitas contribuições em relação a troca de informações científicas durante o século XVI. Ashworth assim expõe o apoio informativo dessa estimada ordem católica:
“Outro admirável engodo de empreendimento científico jesuítico era a apreciação do valor da colaboração. Pode-se argumentar que a Companhia de Jesus, e não a Accademia del Cimento ou a Royal Society, foi a primeira verdadeira sociedade científica. Kircher (1602-1680) (…) era mais que páreo para Mersenne e Boulliau em Paris ou para Henry Oldenburg em Londres, em sua capacidade de coletar observações e objetos de uma rede mundial de informantes. Mais importante, Kircher publicou todos esses dados em enciclopédias massivas, que, juntamente com esforços similares de Schott e Riccioli, eram tão vitais quanto os primeiros periódicos científicos na divulgação de informações científicas. Se a colaboração científica foi uma das conseqüências da revolução científica [então] os jesuítas merecem uma grande parcela do crédito.” [105]
• Cristãos e o prêmio Nobel
O Prêmio Nobel é um prêmio anual internacional premiado desde 1901 por conquistas em Física, Química, Fisiologia, Medicina, Literatura e Paz. Um prêmio associado em Economia foi concedido desde 1969.[106] Entre 1901 e 2018, os Prêmios Nobel e o Prêmio em Ciências Econômicas foram concedidos 590 vezes para 935 pessoas e organizações.[107] De acordo com a 100 Years of Nobel Prize (2005), contendo uma revisão dos prêmios Nobel concedidos entre 1901 e 2000, foi constatado que 65,4% dos ganhadores do Prêmio Nobel identificaram o cristianismo em suas várias formas como sua preferência religiosa (427 prêmios).[108] No geral, os cristãos ganharam um total de 78,3% de todos os Prêmios Nobel da Paz, 72,5% em Química, 65,3% em Física, 62% em Medicina, 54% em Economia e 49,5% de todos os prêmios de Literatura.[109]
As três principais divisões do cristianismo são o catolicismo, a ortodoxia oriental e o protestantismo. Entre 1901 e 2000 foi revelado que entre 654 laureados 31,9% se identificaram como protestantes em suas várias formas (208 prêmios), 20,3% eram cristãos (nenhuma informação sobre suas denominações; 133 prêmios), 11,6% se identificaram como católicos e 1,6% identificaram-se como ortodoxos orientais.[110]
Segundo a Scientific Elite: Nobel Laureates, que é uma revisão dos prêmios Nobel americanos concedidos entre 1901 e 1972, foi também evidenciado que 72% dos americanos ganhadores do Prêmio Nobel identificaram um histórico protestante. No geral, 84,2% de todos os prêmios Nobel concedidos aos americanos em Química, 60% em Medicina e 58,6% em Física entre 1901 e 1972 foram ganhos pelos protestantes.[111]
Um dos vários exemplos de laureados nobéis é Guglielmo Marconi, que era um católico e é reverenciado como inventor do rádio.[112][113] Ele dividiu o Prêmio Nobel de Física de 1909 com Karl Ferdinand Braun “em reconhecimento de suas contribuições para o desenvolvimento da telegrafia sem fio”.[114]
Guglielmo Marconi (1874-1937)
Em 12 de Fevereiro de 1931, Marconi apresentou pessoalmente a primeira transmissão de rádio de um papa. Ao lado do Papa Pio XI, disse:
“Tenho a mais alta honra de anunciar que, em questão de segundos, o Sumo Pontífice, Papa Pio XI, inaugurará a estação de rádio do Estado da Cidade do Vaticano. As ondas de rádio elétricas transportarão para todo o mundo suas palavras de paz e bênção.” [115]
Mostrando sua reverência e fé, ele continuou:
“Com a ajuda do Deus Todo-Poderoso, que permite que as muitas forças misteriosas da natureza sejam usadas pelo homem, pude preparar este instrumento que dará aos fiéis de todo o mundo a consolação de ouvir a voz do Santo Padre. Santíssimo Padre, a obra que Sua Santidade se dignou confiar a mim, eu hoje volto a ti… que se digne, Santo Padre, permitir que o mundo inteiro ouça suas augustas palavras.” [116]
• A preservação do pensamento antigo, a educação e as ciências naturais
Os mosteiros tornaram-se um dos principais canais de civilização, com os mosteiros católicos preservando as antigas ciências gregas e romanas.[117] O estudioso Thomas Cahill, em seu livro How the Irish Saved Civilization, argumenta o seguinte:
“Quando o Império Romano caiu (…) os irlandeses, que estavam apenas aprendendo a ler e escrever, assumiram o grande trabalho de copiar toda a literatura ocidental — tudo o que eles poderiam colocar as mãos. Esses escribas serviam então como condutores por meio dos quais as culturas greco-romana e judaico-cristã eram transmitidas às tribos da Europa, recém assentadas em meio aos escombros e vinhedos em ruínas da civilização que haviam dominado. Sem este serviço dos escribas, tudo o que aconteceu posteriormente teria sido impensável. Sem a missão dos monges irlandeses (…) o mundo que veio depois deles teria sido completamente diferente (…)”.[118]
O historiador Norman Cantor acrescenta a importância dos irlandeses, tanto como os ingleses, nesse contexto de preservação e educação:
“As origens dessa grande mudança histórica encontram-se na cultura da Irlanda dos séculos VI e VII e na Inglaterra do século VII e VIII. Pode parecer estranho que os irlandeses, que nunca fizeram parte do mundo romano, e os ingleses, que em 590 eram pagãos selvagens e semelhantemente sem contato com as tradições do mundo mediterrâneo, devessem ter desempenhado um papel tão importante na criação da primeira Europa (…) Os monges irlandeses e ingleses exibiam o zelo típico dos colonos que lutavam para se identificar com o centro da civilização. Os irlandeses, que nunca desfrutaram dos benefícios da civilização romana, esforçaram-se para estabelecer grandes bibliotecas de textos clássicos e até se tornaram proficientes em grego (…) no sétimo, oitavo e nono século, se um clérigo da Europa ocidental conhecesse o grego, supunha-se que ele fosse proveniente da Irlanda (…) As escolas monásticas irlandesas estabeleceram grandes bibliotecas e intensivamente buscaram o estudo do trivium e do quadrivium. No início do século VII, os monges irlandeses tinham os melhores centros de aprendizado da Europa Ocidental.”[119]
Ruínas da catedral irlandesa Clonmacnoise (544 d.C)
Ainda sobre a questão da preservação e reconstrução da Europa Ocidental, o historiador Thomas Woods nos diz o seguinte:
“Embora a importância da tradição monástica seja reconhecida em maior ou menor grau nos livros de História — todo o mundo sabe que, no rescaldo da queda de Roma, os monges preservaram a herança literária do mundo antigo, para não dizer a própria capacidade de ler e escrever — (…) Praticamente não há ao longo da Idade Média nenhum empreendimento significativo para o progresso da civilização em que a intervenção dos monges não fosse decisiva.”[120]
Referenciando o que disse o falecido historiador Leo Moulin,[121] Thomas Woods relata:
“Os monges proporcionaram “a toda a Europa (…) uma rede de indústrias-modelo, centros de criação de gado, centros de pesquisa, fervor espiritual, a arte de viver, a predisposição para a ação social, ou seja, uma civilização avançada, que emergiu das vagas caóticas da barbárie circundante. São bento, o mais importante arquiteto do monacato ocidental, foi, sem dúvida alguma, o pai da Europa. E os beneditinos, seus filhos, foram os pais da civilização européia.” [122]
Sobre a preservação do conhecimento sobre ciências naturais, o historiador David Lindberg relata que:
“As ciências naturais raramente eram proeminentes, mas seu status foi reconhecido e contribuiu para a preservação de uma versão fina da tradição científica clássica dentro do mosteiros. E de vez em quando encontramos eruditos notáveis, educados em mosteiros ou associados a comunidades monásticas, fazendo contribuições às ciências naturais ou contribuindo de forma conspícua para a sua preservação e disseminação.” [123]
As escolas catedrais, administradas pela Igreja Católica, serviam para ensinar os padres e mais tarde também serviram para instruir os jovens de famílias nobres tanto em teologia, quanto no trivium (gramática latina, retórica e filosofia) e no quadrivium (música, aritmética, física e astronomia).[124][125][126][127][128][129][130][131][132] Algumas dessas escolas catedrais se tornaram umas das primeiras universidades da Europa ocidental,[133][134][135][136][137][138] uma delas sendo a universidade de Salamanca,[139] de Órleans,[140][141] e de Toulouse.[142][143] Em muitas dessas universidades instruíam num currículo baseado no trivium e no quadrivium, com certas diferenças das escolas catedrais, contendo também os “libri naturales” (livros clássicos de Aristóteles que se focavam na filosofia natural).[144][145][146][147][148][149][150][151][152][153]Uma das universidades americanas mais respeitadas do mundo, a Universidade de Notre Dame, é fundamentalmente católica.[154][155]
Universidade de Notre Dame
O professor emérito de sociologia John Boli nos mostra qual instituição que proliferou a educação durante a idade média:
“A expansão e burocratização da Igreja Católica Romana foi baseada na produção de clérigos alfabetizados. A Igreja promoveu diretamente a fundação e expansão de escolas catedrais e universidades; ordens religiosas dedicadas, pelo menos em parte, à educação, incluindo os agostinianos e dominicanos, floresceram a partir do século XIII. Ensinando principalmente em latim e concentrando-se em conhecimentos e habilidades abstratas, essas instituições constituíam uma comunidade transnacional de acadêmicos e estudantes (…) em Dublin, Aachen ou Bolonha.”[156]
Universidade de Salamanca
A educação foi um interesse da Igreja Católica por muito tempo e é por esse motivo que, nas palavras do falecido professor de história Lowrie John Daly, “a Igreja foi a única instituição na Europa que demonstrou um interesse consistente na preservação e cultivo do conhecimento.” [157]
Com o surgimento da Reforma Protestante a educação foi disseminada e revigorada por reformadores como Lutero, Calvino, Melâncton e Zwinglio.[158] Para Lutero, os pais deveriam perceber que educar as crianças é uma obrigação. Ela serve não só para servir a Deus, como também aos seres humanos:
“Os pais devem considerar que estão sob a obrigação de obedecer a Deus e que, antes de mais nada, estão prontos para cumprir todos os deveres de seu ofício conscienciosamente e fielmente; não apenas para alimentar e prover as necessidades temporais de seus filhos, servos, súditos, etc., mas especialmente para treiná-los para a honra e louvor de Deus. […] Se desejamos ter pessoas dignas e capazes, tanto para a liderança temporal quanto para a espiritual, devemos, de fato, não poupar diligência, tempo ou custo no ensino e educação de nossos filhos para servir a Deus e à humanidade.” [159]
Lutero defendia a ajuda aos jovens mais pobres que não tinham acesso a educação. Fazendo isso, mesmo sendo custoso, o resultado seria benéfico para sociedade vigente:
“Meus queridos senhores, se temos que gastar grandes somas todos os anos com armas, estradas, pontes, represas e inúmeros itens para assegurar a paz e a prosperidade temporais de uma cidade, por que não se deve dedicar muito mais aos pobres jovens negligenciados – pelo menos o suficiente para envolver um ou dois homens competentes para que ensinem na escola?” [160]
Martinho Lutero (1483-1546)
Lutero via que “isso seria um excelente investimento” [161] e diferente do que muitos governantes faziam na Europa no século XVI, Martinho Lutero também argumentava que se os pais não cumprissem com o seu dever de ensinar e cuidar dos seus filhos, ou não tivessem condições ou até mesmo deixassem eles órfãos, seria de dever das autoridades fazer o possível para garantir a educação desses jovens.[162] Lutero alegava o seguinte:
“a riqueza de uma cidade não consiste apenas em acumular vastos tesouros, construir muros poderosos e edifícios magníficos, ou produzir um bom suprimento de armas e armaduras. De fato, onde tais coisas são abundantes, e idiotas imprudentes conseguem controlá-los, é muito pior e a cidade sofre perdas ainda maiores. A maior e melhor riqueza, segurança e força de uma cidade, consistem, em vez disso, em ter muitos cidadãos capazes, instruídos, sábios, honrados e bem-educados. Eles podem então rapidamente coletar, proteger e usar o tesouro corretamente e todo tipo de propriedade.” [163]
Martinho Lutero compreendia que os jovens alemães do seu século deveriam se espelhar nos romanos, que se mostravam eruditos suficientes já tão jovens. Segundo Lutero:
“Isso foi feito na Roma antiga. Lá os meninos foram tão instruídos que no momento em que chegavam aos quinze anos, dezoito anos, ou aos vinte anos eles eram bem versados em latim, grego, e todas artes liberais (como são chamadas), e então imediatamente entravam em uma carreira política ou militar. O sistema deles produziu homens inteligentes, sábios e competentes, tão habilidosos em todas as artes e ricos em experiência que se todos os bispos, sacerdotes e monges em toda a Alemanha hoje fossem colocados em um só, você não teria nem mesmo um único soldado romano.” [164]
Lutero via como essencial o ensino de matemática e outras disciplinas de exatas para as crianças:
“Se nós levamos tanto tempo e trabalho para ensinar as crianças a como jogar cartas, cantar e dançar, por que não tomamos tanto tempo para ensiná-los a leitura e outras disciplinas, enquanto eles são jovens e tem tempo e estão aptos e ansiosos para aprender? De minha parte, se eu tivesse filhos e conseguisse administrar, eu os faria estudar não só idiomas e história, mas também canto e música junto com toda a matemática.” [165]
O maior exemplo disso, para Lutero, era a Grécia antiga, isso porque “os gregos antigos treinaram seus filhos em estas disciplinas; ainda cresceram para serem pessoas de maravilhosa capacidade, posteriormente aptas para tudo.” [166]
Além disso, ele percebia a importância de bibliotecas para a preservação dos escritos antigos:
“É isto: nenhum esforço ou despesas devem ser poupados para fornecer boas bibliotecas ou repositórios de livros, especialmente nas grandes cidades que podem bem pagar. Pois, se o evangelho e todas as artes devem ser preservados, eles devem ser estabelecidos e mantidos rápido em livros e escritos” [167]
Era muito importante para ele que essa medida fosse colocada em prática para assegurar a segurança do pensamento clássico e eclesial:
“Isso é essencial, não apenas para aqueles que devem ser nossos líderes temporais tenham livros para ler e estudar, mas também que os bons livros possam ser preservados e não sejam perdidos, juntamente com as artes e línguas que temos agora pela graça de Deus. São Paulo também estava preocupado com isso quando ele cobrou Timóteo para dar atenção à leitura [I Tim. 4:13], e para que lhe trouxesse os pergaminhos de Trôade [II Tim. 4:13]” [168]
Para Lutero, os idiomas antigos como o hebraico, o latim e o grego eram “boas e nobres bênçãos de Deus”.[169]
Nas palavras do acadêmico Duarne Larson, a visão teológica de Lutero foi também benéfica para o estudo das ciências naturais e para o surgimento da ciência moderna:
“A consideração de Lutero e dos protegidos de Lutero e seus contextos filosófico-históricos revela sua consideração positiva pela ciência (…) A influência de Lutero foi levada além de seus discípulos imediatos através de Johannes Kepler até o século XVII. O químico e teólogo irlandês-anglicano Robert Boyle, por exemplo, foi significativamente influenciado pelo princípio da Reforma da soberania de Deus. Por sua vez, Boyle influenciou fortemente Isaac Newton. Mas o apoio luterano para as ciências naturais tinha uma grande qualificação.”[170]
Essa consideração fica ainda mais clara a partir das contribuições científicas dos luteranos. Como nos relata o historiador Peter Harrison:
“Os pensadores luteranos nas universidades alemãs do século XVI fizeram importantes contribuições para as ciências, mais conspicuamente na esfera da astronomia. Em certos aspectos, essa tendência não é de todo surpreendente, pois, apesar de suas reservas quanto ao valor do aprendizado secular, o próprio Lutero tinha a reputação de ter um carinho especial pela ciência dos céus: ‘eu gosto de astronomia e matemática, que dependem em demonstrações e provas seguras.’ ”[171]
Um dos mais notáveis protestantes a adotar uma concepção calvinista de santidade no trabalho foi Francis Bacon.[172] Ele foi uma das figuras mais importantes na filosofia natural e no desenvolvimento da metodologia científica para a modernidade.[173] Para que possamos entender melhor a contribuição de Bacon para o método científico, vejamos o que a PhD em história Kathryn Wolford tem para nos dizer:
“Em 1620, por volta da época em que as pessoas começaram a examinar microscópios, um político inglês chamado Sir Francis Bacon desenvolveu um método para os filósofos usarem para avaliar a veracidade do conhecimento. Embora Bacon concordasse com os pensadores medievais que os humanos muitas vezes erravam ao interpretar o que seus cinco sentidos percebiam, ele também percebeu que as experiências sensoriais das pessoas forneciam o melhor meio possível de dar sentido ao mundo. Como os humanos podiam interpretar incorretamente qualquer coisa que vissem, ouvissem, cheirassem ou sentissem, Bacon insistiu que eles deviam duvidar de tudo antes de assumir sua verdade. (…)
Para testar verdades ou hipóteses em potencial, Bacon desenvolveu um método pelo qual os cientistas montaram experimentos para manipular a natureza e tentar provar que suas hipóteses estavam erradas. Por exemplo, para testar a ideia de que a doença vinha de causas externas, Bacon argumentava que os cientistas deveriam expor pessoas saudáveis a influências externas, como frieza, umidade ou outras pessoas doentes, para descobrir se alguma dessas variáveis externas resultava em mais pessoas ficando doentes. Sabendo que muitas causas diferentes para a doença podem passar despercebidas por humanos incapazes ou pouco dispostos a percebê-las, Bacon insistiu que essas experiências devessem ser consistentemente repetidas antes que a verdade seja conhecida: um cientista deve mostrar que pacientes expostos a uma variável específica ficassem doente de novo, de novo e de novo.”[174]
Apesar de haver diferenças entre o método científico de agora e como ele era adotado no século XVII por Bacon, Wolford finaliza dizendo:
“Embora os cientistas modernos tenham revisado muitas das verdades adotadas por Bacon e seus contemporâneos, ainda utilizamos o método de 1620 de Bacon para provar que o conhecimento é verdade via dúvida e experimentação.”[175]
Francis Bacon (1561-1626)
Esse é um dos motivos para que Bacon seja reverenciado como campeão da ciência moderna.[176] Um dos seus livros mais importantes e influentes, Novum Organum, é um tratado destinado a ajustar o pensamento e a metodologia de aprender e compreender a ciência e a natureza, mais precisamente pelo meio da indução.[177][178] Bacon, no final do seu livro, expressa a visão clássica reformada sobre a queda do homem e a função do trabalho no contexto científico:
“Pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas. Ambas as perdas podem ser reparadas, mesmo que em parte, ainda nesta vida; a primeira com a religião e com a fé, a segunda com as artes e com as ciências. Pois a maldição divina não tornou a criatura irreparavelmente rebelde; mas, em virtude daquele diploma: Comerás do pão com o suor de tua fronte, por meio de diversos trabalhos (certamente não pelas disputas ou pelas ociosas cerimônias mágicas), chega, enfim, ao homem, de alguma parte, o pão que é destinado aos usos da vida humana.” [179]
Bacon também foi uma influência central por trás do estabelecimento da Royal Society, a renomada organização britânica que, até hoje, estimula e promove o avanço do conhecimento científico no Reino Unido.[180][181] Como Thomas Sprat, o primeiro historiador da Royal Society, descreve, foi objetivo da Royal Society restabelecer o “domínio sobre as coisas”. [182] Segundo o especialista em filosofia e religião Carl Raschke, “se não fosse pelo chamado empirismo britânico, fundado por Francis Bacon durante a era elisabetana, a ciência moderna teria permanecido em grande parte um ramo especulativo da filosofia natural”.[183]
Para que a Royal Society viesse a existência foi preciso a ajuda de um famoso protestante anglo-irlandês chamado Robert Boyle.[184][185] Ele ficou famoso pelos seus trabalhos em química, mais precisamente pela reconhecida lei de Boyle, que relata sobre as transformações isotérmicas em um local confinado.[186][187][188][189] Segundo a Science History, Robert Boyle foi “um pioneiro da química moderna do século 17”.[190] Também é nos relatado que:
“Todo estudante de química geral aprende sobre Robert Boyle (1627–1691) como a pessoa que descobriu que o volume de um gás diminui com o aumento da pressão e vice-versa – a famosa lei de Boyle. Um cientista líder e intelectual de sua época, ele foi um grande defensor do método experimental.”[191]
O famoso crítico Michael Dirda, revisando o livro do professor emérito de história Michael Hunter, Boyle: Between God and Science, também nos conta que:
“Robert Boyle (1627-1691) classifica-se entre Isaac Newton, Michael Faraday e Charles Darwin entre os maiores cientistas ingleses. Em sua prática de laboratório e em livros como “The Skeptical Chymist” (1661), Boyle ajudou a estabelecer o moderno método experimental. Ele fez dissecações anatômicas, analisou a natureza das cores e do sangue humano, investigou a luminescência, estudou medicina, pneumática e hidrostática, especulou sobre a temperatura dos oceanos e do núcleo da Terra e até escreveu um ensaio sobre como os venenos poderiam ser usados para curar doenças.”[192]
Robert Boyle (1627-1691)
Sobre a contribuição científica de Boyle, o historiador Ted Davis expressa que não seria muito dizer que “Boyle foi um dos fundadores do laboratório científico moderno – concebeu um experimento para testar uma hipótese, montou o aparato e as pessoas necessárias para realizar um experimento e publicar os resultados.” [193] Além disso Dirda também nos conta que além de Boyle ser um excelente cientista, ele foi um devoto cristão:
“Juntamente com sua ativa carreira científica, ele trabalhou poderosamente como um cristão devoto, publicando trabalhos teológicos que justificam os caminhos de Deus para os homens e apoiando as cruzadas evangélicas entre os irlandeses, os índios norte-americanos e os povos da Ásia. Ele até pagou para que o Novo Testamento fosse traduzido para irlandês e algonquiano. Não é por acaso que os dois primeiros trabalhos publicados de Boyle foram um par improvável: “Some Motives and Incentives to the Love of God” (também conhecido como “Seraphic Love”, 1659) e “New Experiments Physico-Mechanical, Touching the Spring of the Air and its Effects” (1660) (…) Em seu testamento, esse cientista e apologista religioso combinou suas principais paixões no estabelecimento das Palestras Boyle – ainda dadas – nas quais a evidência da natureza e da ciência deveria ser empregada para defender a crença cristã.”[194]
Ele acreditava que os atributos mais notáveis de Deus estariam escritas em suas criaturas:
“Posso prontamente responder-lhes que, embora muitos dos atributos de Deus sejam legíveis nas suas criaturas, ainda assim aqueles que são mais conspicuosos são o seu poder, a sua sabedoria e a sua bondade, em que o mundo, bem como a Bíblia, de um modo diferente e, em alguns pontos, mais sombrio, é projetado para nos instruir.”[195]
Focando-se na sabedoria de Deus, Boyle afirma:
“O próximo atributo de Deus, que brilha em suas criaturas, é sua sabedoria; que para um[a] [pessoa] considerada inteligente aparece manifestamente clara no mundo, quer você o considere como um agregado ou um sistema de todos os corpos naturais, ou considere as criaturas das quais ele é constituído, tanto em suas naturezas particulares e distintas, quanto em relação um com o outro e o universo que eles constituem. Em alguns deles, a sabedoria de Deus é tão conspícua, e escrita em caracteres tão grandes, que é legível até para um leitor vulgar: mas em muitos outros os traços e lineamentos dela são tão delicados e esvoaçantes, ou mais ou menos coberto de corporeidade, que requer um perito atento e inteligente.”[196]
Boyle também cria que a melhor marca da onipotência de Deus foi criar todo o universo a partir do nada:
“Quão ilimitado é o poder, ou melhor, que onipotência é eminentemente mostrada em Deus criando todas as coisas do nada, e sem materiais ou instrumentos para construir essa imensa fábrica do mundo, tal grandeza é tanta que mesmo o que pode ser provado por isso, pode ser dificilmente entendido.”[197]
Para Boyle as criaturas que Deus criou mostrava também uma outra qualidade que ele disse anteriormente, a sua sabedoria:
“Tão inumerável a quantidade, e tão grande é a variedade de pássaros, animais, peixes, répteis, ervas, arbustos, árvores, pedras, metais, minerais, estrelas, etc. E cada um deles abundantemente desenhados e dotados de todas as qualificações necessárias para a realização dos respectivos fins de sua criação, [elas] são produções de uma sabedoria muito ilimitada para que não seja peculiar de Deus.”[198]
Davis ainda nos conta o quão reverencioso ele era para com o nome de Deus e com a Bíblia:
“Robert Boyle cultivou uma piedade ativa que os amigos notaram e admiraram – acima de tudo, em seu hábito estrito de honrar o nome de Deus. (…) Seu confidente próximo, o bispo Gilbert Burnet, disse aos presentes no funeral de Boyle que seu falecido amigo “teve a mais profunda veneração pelo grande Deus do Céu e da Terra, que eu nunca observei em qualquer pessoa. O próprio nome de Deus nunca foi mencionado por ele sem uma pausa e uma parada visível em seu discurso, em que alguém que o conhecia mais particularmente acima de vinte anos, me disse que ele era tão exato, que ele não se lembra de ter observado ele uma vez a falhar nisso” (Robert Boyle: By Himself and His Friends, p. 48). Quando um proeminente advogado, Sir Peter Pett, perguntou a Boyle sobre essa prática, essa foi a resposta de Boyle: “não ter um temor sobre nós quando o nome de Deus é mencionado é um sinal de falta de Graça”. Boyle se aproximou a Bíblia com uma reverência semelhante, de tal forma que ele gentilmente reprovou qualquer um que usasse as palavras da Escritura em tom de brincadeira.”[199]
A influência protestante também se pautou nas instituições de ensino, estas sendo as primeiras universidades de renome das colônias americanas. Como elabora o PhD em história e ex-professor da Universidade de Notre Dame, Mark A. Noll:
“A educação formal nas colônias também foi fortemente influenciada pelos protestantes, com todos os principais colégios coloniais mais ou menos sob a influência de uma região de corpos protestantes. A influência [da igreja] Congregacional foi dominante em Harvard e Yale na Nova Inglaterra, influência Presbiteriana no Colégio de Nova Jersey (mais tarde Universidade de Princeton), influência Anglicana no Colégio William e Mary na Virgínia, e uma variedade de influências protestantes informais nas instituições que mais tarde se tornariam a Universidade de Pennyslvania na Filadélfia.” [200]
• Influência na Medicina
O cristianismo emergiu neste mundo como uma seita judaica em meados do século I e os primeiros cristãos passaram a cuidar dos doentes e enfermos.[201] São Lucas Evangelista, creditado como um dos autores do Novo Testamento, era um médico, segundo a tradição católica.[202]
A visão cristã primitiva sobre as doenças se baseou em várias tradições, incluindo o ascetismo oriental e as tradições de cura judaicas, enquanto o Novo Testamento relatava Jesus e seus Apóstolos como curandeiros.[203] Roy Porter escreveu que “enquanto o sofrimento e a doença podem aparecer como castigo para os pecadores ou uma provação praqueles que o Senhor amou, a Igreja também desenvolveu uma missão de cura (…)”. [204] Nas palavras do historiador Geoffrey Blainey:
“Enquanto as religiões pagãs raramente ofereciam algum tipo de ajuda quando os fiéis adoeciam, muitos cristãos – mulheres, em especial – se dispunham a cuidar dos enfermos e alimentá-los. Quando a varíola se espalhou, entre os anos de 165 e 180, e a baixa imunidade às infecções causou numerosas mortes, os cristãos foram valorizados pelo auxílio que prestaram. Cerca de setenta anos mais tarde, uma epidemia de sarampo matou milhares de pessoas a cada dia, em Roma. Ao cuidar de doentes e moribundos sem exceção, qualquer que fosse a religião professada por eles, os cristãos conquistaram amigos e simpatizantes.” [205]
A hospitalidade era considerada uma obrigação da caridade cristã e as casas dos bispos, junto com os aposentos dos cristãos mais abastados, eram usados para cuidar dos doentes.[206] De acordo com o historiador Roy Porter, a ajuda cristã se expressava a partir da atitude:
“O cristianismo deixou sua marca através da ação. As tradições judaicas de ajuda e hospitalidade foram estendidas, e a instrução de Cristo aos seus discípulos para cuidar dos doentes e necessitados assume forma institucional através da nomeação de diáconos encarregados de distribuir esmolas. Por volta de 250, a Igreja em Roma havia desenvolvido um elaborado trabalho de caridade, com ricos convertidos oferecendo comida e abrigo para os pobres. Depois do reconhecimento oficial do cristianismo por Constantino, esmolas encontraram expressão em tijolos e cimento. Leôncio, bispo de Antioquia de 344 a 358, montou albergues em sua sé; por volta de 360, o bispo Eustáquio de Sebasteia construiu uma casa de pobres; e São Basílio erigiu fora dos muros de Cesaréia “quase uma nova cidade” para os doentes, pobres e leprosos.” [207]
Essa ajuda cristã se mostrou mais ainda pelo intermédio do trabalho caridoso de Santa Fabíola. Segundo o Women in Medicine: An Encyclopedia:
“Santa Fabiola fundou um hospital público em Roma que foi o primeiro hospital desse tipo na Europa Ocidental. Ela também foi responsável por estabelecer um hospício no Porto, na Itália, com a ajuda de São Pamáquio. Uma nobre cristã, Fabíola dedicou sua vida a ajudar os pobres e necessitados depois de se converter ao cristianismo e seguir os ensinamentos de São Jerônimo. Ela estudou as escrituras, conhecendo latim, hebraico e grego. (…) No hospital que ela fundou, ela cuidou dos pacientes independentemente de sua doença ou condição.” [208]
São Jerônimo, professor de Santa Fabíola,[209] conta sobre seus atos de caridade:
“Ela foi a primeira pessoa a fundar um hospital, na qual ela poderia reunir vítimas das ruas, e onde ela poderia cuidar das infelizes vítimas da doença e da necessidade (…) Muitas vezes ela carregava em seus próprios ombros pessoas infectadas com icterícia ou com sujeira. Freqüentemente também lavava o material descarregado de ferimentos que outros, mesmo homens, não suportavam olhar. Deu comida a seus pacientes com a própria mão e umedeceu os escassos lábios respiratórios dos moribundos com gotas de água.” [210][211]
O historiador Roy Porter descreve os hospitais antigos:
“No Oriente, os hospitais se tornaram grandes e complexos. Em meados do século VI, Jerusalém tinha um com 200 leitos, e o de São Sampson, em Constantinopla, era ainda maior, com operações cirúrgicas sendo realizadas e uma ala para desordens oculares. Edessa tinha um hospital para mulheres e os principais hospitais de Antioquia e Constantinopla eram divididos em enfermarias masculinas e femininas. Por volta de 650, o Pantokrator em Constantinopla tinha uma hierarquia de médicos e até mesmo instalações de ensino, uma casa para idosos e, além das paredes, uma casa de leprosos. Cuidar dos leprosos e assim se expor à infecção era uma marca de santidade.” [212]
E ele completa dizendo que “o cristianismo planejou o hospital: os valiosos estabelecimentos do Levante e as casas dispersas do Ocidente compartilhavam um etos religioso comum de caridade.” [213]
Na idade média, o historiador Geoffrey Blainey diz que “a Igreja mantinha albergues para os idosos e orfanatos para os jovens; hospitais para os enfermos de todas as idades (…)”. [214] Uma das ordens monásticas que tinham como objetivo cuidar dos mais afortunados era a Ordem Beneditina, que em sua Regra 36 expressa:
“Antes de tudo e acima de tudo deve tratar-se dos enfermos de modo que se lhes sirva como verdadeiramente ao Cristo, pois Ele disse: “Fui enfermo e visitastes-me” e “Aquilo que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes”.” [215][216][217]
Levando isso em consideração, Porter comenta:
“Por isso, não é de surpreender que os mosteiros se tornassem centros médicos fundamentais, mais importantes do que as universidades anteriores a 1300. Além de oferecer abrigo para os peregrinos, a maioria tinha enfermaria para os monges doentes. Instalações hospitalares separadas foram fundadas para o público em geral” [218]
Nas palavras do renomado historiador médico, Guenter B. Risse:
“Após a queda do Império Romano, os mosteiros tornaram-se gradualmente provedores de serviços médicos organizados, dos quais não se dispôs por vários séculos em nenhum lugar da Europa. Dada a sua organização e localização, essas instituições eram virtuais oásis de ordem, piedade e estabilidade, que favoreciam a cura. Para prestar esses cuidados práticos, os mosteiros tornaram-se também lugares de ensino médico entre os séculos V e X, o período clássico da assim chamada medicina monástica. Durante o renascimento carolíngio dos anos 800, os mosteiros também despontaram como principais centros de estudo e transmissão dos antigos textos médicos.” [219]
Roy Porter entra em detalhes sobre os hospitais medievais, expondo que:
“os hospitais medievais eram fundações religiosas por completo. Aqueles plantados no Ocidente tinham sido originalmente pequenos e principalmente para peregrinos; seus sucessores medievais tardios eram frequentemente mais impressionantes.” [220]
Era surpreendente que mesmo na idade média esses hospitais conseguiam suportar muitos pacientes, além do crescimento da quantidade de médicos nesses locais. Como nos diz Porter:
“[O hospital de] São Leonardo em York tinha 225 pobres e doentes em 1287; ainda maiores eram os hospitais cívicos de Milão, Siena e Paris. Apenas em Florença, uma cidade de cerca de 30.000 habitantes, havia mais de trinta fundações no século XV. Alguns tinham apenas dez leitos, outras centenas. Na Inglaterra, hospitais e asilos totalizavam quinhentos em 1400, embora poucos fossem de grande tamanho ou importância. A de São Bartolomeu, em Londres, data de 1123 e a de São Tomás, por volta de 1215. Em Bury St Edmunds, seis hospitais foram criados entre 1150 e 1260 para atender aos leprosos, peregrinos, enfermos e idosos. (…) Pequenos hospitais eram essencialmente albergues ou asilos sem assistência médica, mas os médicos estavam presentes em 1231 na Paris Hôteu Dieu, perto de Notre Dame, e a Sta Maria Nuova em Florença foi gradualmente medicalizada: de doze leitos em 1288 para os “doentes e pobres” (…) expandiu para uma equipe médica de dez médicos, um farmacêutico e vários assistentes, incluindo cirurgiãs em 1500.” [221]
Franciscanos tratando vitimas da peste negra (1474)
Ainda sendo desconhecido para muitos, as cruzadas também foram úteis na propagação de hospitais para os mais desfavorecidos. Porter relata que:
“Na expansão hospitalar, as cruzadas desempenharam seu papel, pois ordens cruzadas como os Cavaleiros de São João de Jerusalém (depois conhecido como os Cavaleiros de Malta), os Cavaleiros Templários e os Cavaleiros Teutônicos construíram hospitais em todo o Mediterrâneo e em terras de língua alemã. Por volta do século XIV irmandades não-militares, como a Ordem do Espírito Santo, também administravam enfermarias da Alsácia à Polônia, enquanto a Ordem de São João de Deus aparecia na Espanha no século XVI, construindo asilos para loucos e criando 200 hospitais no Novo Mundo.” [222]
Roy Porter finaliza dizendo que “dentro das paredes dos hospitais, o ethos cristão era onipresente”. [223]
Atualmente somente a Igreja Católica conta com:
“5.287 hospitais, sendo a maioria na América (1.530) e na África (1.321); 15.937 postos de saúde, grande parte deles na África (5.177), América (4.430) e Ásia (3.300); 610 leprosários distribuídos principalmente na Ásia (352) e África (192); 15.772 casas para idosos, doentes crônicos e pessoas com deficiência, maioria estando na Europa (8.127) e América (3.763);” [224]
Hoje ela é uma das maiores instituições sem fins lucrativos de ajuda do mundo[225] e a maior dos Estados Unidos em relação ao sistema de saúde.[226][227]
• Influência na Astronomia
Além da teoria do Big-Bang, criada pelo padre belga George Lemaitre,[228] uma das maiores influências foi o calendário gregoriano que é o calendário civil internacionalmente usado, na qual é uma importante contribuição da Igreja Católica. [229][230] Esse calendário foi introduzido pelo Papa Gregório XIII por um decreto assinado em 1582.[231]
A contribuição cristã para a astronomia não se limita a Igreja Católica. Um protestante que auxiliou no desenvolvimento da astronomia moderna foi Johannes Kepler, descobrindo as leis dos movimentos planetários.[232][233][234] Apesar disso ele não cunhou a sua descoberta como leis, antes afirmava que eram como harmonias celestiais que refletiam o projeto de Deus para o universo.[235] A fé de Kepler e a sua visão harmônica com a ciência podem ser vistas em seus livros, cartas e muitas das suas frases. Por exemplo, quando Kepler diz que “nós estamos preocupados com o livro da natureza, tão grandemente celebrado nas Sagradas Escrituras. É nisso que Paulo propõe que os Gentios devessem contemplar a Deus, como o Sol nas águas ou num espelho.”[236]
Como consta no trabalho de E. J. Aiton, A. M. Duncan e J. V. Field na tradução do livro “A Harmonia do Mundo” de Kepler:
“Kepler viu a harmonia entre as coisas em repouso, na ordem do sol, na esfera das estrelas fixas e no espaço intermediário, como um símbolo das Três Pessoas da Trindade. Era a intenção de Deus, Kepler acreditava, que descobríssemos o plano da criação compartilhando seus pensamentos.” [237]
Podemos ver a percepção de Kepler, em relação ao trabalho de Deus nos astros, nesse trecho:
“Vemos, portanto, que as harmonias universais de todos os seis planetas não podem ser o resultado de acidentes, sobretudo nas extremidades de seus movimentos, que como vimos todos coincidiram em harmonias universais, exceto duas, que coincidiram com as harmonias mais próximas para as universais (…) Segue-se daí que o Criador, a fonte de toda a sabedoria, o constante defensor da ordem, a fonte eterna e transcendental de geometria e harmonia, que Ele, eu digo, é o próprio Artesão daquilo que está nos céus.” [238]
Johannes Kepler (1571-1630)
Para Kepler o universo representava a Deus. Nas palavras do historiador da ciência James R. Voekel:
“O universo, como ele via, era nada menos que a imagem de Deus, seu Criador. O sol, o corpo mais resplandecente, estava situado no centro, de onde distribuía luz, calor e movimento aos planetas. Representava Deus o Pai. No extremo do sistema estavam as estrelas. Eles estavam localizados em uma esfera fixa – o mais perfeito dos corpos geométricos – centrados no Sol que envolvia o universo e definia seu espaço. Representava Deus o Filho, Jesus Cristo.” [239]
Para os historiadores da ciência Peter Barker e Bernard R. Goldstein, as descobertas científicas das leis de Kepler de movimento planetário, no século XVII, foram graças ao entendimento da teologia cristã. Como eles finalizam em seu artigo acadêmico:
“Kepler é geralmente creditado com a descoberta de três das primeiras leis científicas do período moderno. Se estivermos certos, uma afirmação mais defensável do ponto de vista histórico seria que Kepler acreditava ter descoberto a parte do plano providencial de Deus que incorporava o padrão do cosmos e as leis divinas pelas quais Deus regulava suas partes moventes. A ideia de um plano providencial, e especialmente as leis divinas que regulam suas partes, podem, portanto, ser encaradas como uma etapa essencial que precede e prepara o caminho para o conceito secular de uma lei da natureza.” [240]
Voekel fala sobre o entusiasmo de Kepler que estava prestes a publicar o seu livro “Os Segredos do Universo”:
“Em outubro de 1595, Kepler resolveu publicar suas descobertas em um livro. Seria, como ele viu, uma prova física da verdade do sistema heliocêntrico de Copérnico e, ao mesmo tempo, um testamento da glória de Deus. Ao tornar conhecido o plano de Deus para o mundo, Kepler encontrou uma maneira de tornar significativa a tarefa que lhe fora dada para se tornar um matemático. Como ele escreveu em uma carta para Maestlin no início de outubro:
Estou apressado para publicar, meu querido professor, mas não para meu benefício … Estou dedicando meu esforço para que essas coisas possam ser publicadas o mais rápido possível para a glória de Deus, que deseja ser reconhecida no livro de Natureza. . . Assim como me prometi a Deus, minha intenção permanece. Eu queria ser teólogo e por um tempo fiquei angustiado. Mas agora veja como Deus também é glorificado na astronomia, através do meu trabalho.” [241]
A teoria de Kepler saia na frente em comparação às outras teorias do seu tempo. Segundo o historiador Thomas Woods:
“A teoria de Kepler acerca da órbita elíptica dos planetas tinha a vantagem da simplicidade sobre as teorias concorrentes. Os modelos de Ptolomeu (geocêntrico) e de Copérnico (heliocêntrico), que se davam por certa a órbita circular dos planetas, haviam introduzido uma complicada série de “equantes”, “epiciclos” e “deferentes” para explicar o aparente retrocesso no movimento dos planetas. O sistema de Tycho Brahe, que propunha também órbitas circulares, apresentava as mesmas complicações. Mas Kepler, ao propor órbitas elípticas, fez com que esses modelos parecessem claramente grosseiros em comparação com a elegante simplicidade do seu sistema.” [242]
O católico italiano Giovanni Cassini, que foi aluno de dois jesuítas,[243] foi quem conseguiu mostrar a superioridade teórica de Kepler e isso a partir de uma catedral católica. De acordo com John L. Heilbron:
“O trabalho científico mais significativo feito nas catedrais referia-se a duas constantes fundamentais da teoria solar: a excentricidade da órbita do Sol (ou da Terra) e a obliquidade da eclíptica, a inclinação do eixo da Terra ao plano de sua órbita (ou do Sol) no movimento anual. Durante o século XVII, a excentricidade da órbita desempenhou um papel importante na discriminação entre a teoria ptolomaica e a versão de Johannes Kepler da teoria de Nicholas Copernicus. Uma grande câmara escura era necessária. A grande igreja de São Petrônio, em Bolonha, serviu admiravelmente depois que Gian Domenico Cassini fez um buraco em seu telhado e colocou uma haste correndo na direção norte-sul (uma linha de meridiano) no chão para captar a imagem do sol do meio-dia. Esse “heliômetro”, como Cassini chamou, encontrou inequivocamente a [teoria] de Kepler.” [244]
Um jesuíta que também fez uma série de experimentos em catedrais foi Leonardo Ximenes, segundo Heilbron:
“Enquanto instalava a meridiana em Florença, seu construtor, Leonardo Ximenes, expandiu as medições e operações necessárias para a investigação em física experimental. (…) Por um curto período, Ximenes transformou a vasta catedral de Florença, que ele reservou para esse propósito, em um laboratório físico como um observatório solar, literalmente praticando ciência na igreja.” [245]
De acordo com Woods, as catedrais católicas em várias cidades polos da Europa na idade média serviram como os melhores observatórios do seu tempo:
“Nos séculos XVI e XVIII, as catedrais em Bolonha, Florença, Paris e Roma eram os melhores observatórios solares do mundo. Em nenhum outro lugar do mundo havia instrumentos mais precisos para o estudo do Sol. Cada catedral dispunha de orifícios destinados a passar luz solar e de linhas de tempo (ou linhas meridianas) no piso. Pela observação do caminho traçado pelos raios de luz sobre essas linhas, aqueles pesquisadores puderam obter medidas precisas do tempo e prever os equinócios (e também puderam fazer cálculos precisos acerca da verdadeira data da Páscoa, que era a finalidade inicial desses observatórios).” [246]
Ele posteriormente afirma:
“Os observatórios da catedrais continuaram a dar substancial apoio ao progresso do trabalho científico. Entre 1655 e 1736, os astrônomos fizeram 4500 observações em São Petrônio. Com o transcorrer do século XVIII, as melhorias introduzidas nos instrumentos de observação foram tornando as catedrais cada vez mais obsoletas, mas elas continuaram a ser usadas para medir o tempo… e também para estabelecer os horários das ferrovias.” [247]
Linha meridiana na Basílica de São Petrônio
John L.Heilbron diz que:
“Durante mais de seis séculos – desde a recuperação dos antigos conhecimentos astronômicos durante a Idade Média até o Iluminismo -, a Igreja Católica Romana deu mais ajuda financeira e suporte social ao estudo da astronomia do que qualquer outra instituição e, provavelmente, mais do que todas as outras juntas.” [248]
• Cristianismo e Evolução
Muitos acreditam que antes de Darwin publicar A Origem das Espécies em 1859, os cristãos como um todo mantiveram uma interpretação inteiramente literal, de seis dias, do Gênesis, na qual a Terra tinha apenas alguns milhares de anos. No entanto, a ideia de uma terra antiga já se tornara cada vez mais popular entre os cristãos ao longo de meio século que levava à Origem das Espécies.[249]
A contribuição católica para a evolução já incluiria a de George Mendel, um monge agostiniano, creditado como “pai da genética moderna”.[250][251][252] Mendel entrou no monastério agostiniano de Brno em 1843,[253] mas também formou-se cientista no Instituto Filosófico de Olmutz e na Universidade de Viena.[254] O mosteiro de Brno era um centro de estudos, com uma extensa biblioteca e tradição de pesquisa científica. [255][256] No mosteiro, Mendel descobriu a base da genética após longo estudo das características herdadas das plantas de ervilha.[257][258] Essas foram importantes contribuições para o entendimento da evolução das espécies e assim criando a teoria da síntese evolutiva moderna. [259][260][261][262][263]
O escritor Bill Bryson escreve que:
“sem perceber, Darwin e Mendel estabeleceram as bases para todas as ciências da vida no século XX. Darwin viu que todas as coisas vivas estão conectadas, que em última análise traçam seus ancestrais para uma única fonte comum; o trabalho de Mendel deu o mecanismo para explicar como isso poderia acontecer.” [264]
O PhD em biologia Tim M. Berra esclarece a importância do trabalho de George Mendel sobre o tema da evolução das espécies:
“Darwin, é claro, não tinha conhecimento de genes, cromossomos ou como a herança [genética] funcionava. Isso exigiu informações adicionais, surgindo e compreendendo o trabalho genético de Gregor Mendel (1822-1884). A biotecnologia, seja na forma de cultivos geneticamente modificados, drogas projetadas, terapia genética ou no projeto do genoma humano, deriva dos insights profundos de Darwin e Mendel sobre como a natureza opera. A síntese evolutiva moderna cresceu a partir da explicação de Darwin da seleção natural e da demonstração de Mendel de que a herança era particulada – isto é, que pode ser passada de geração em geração por “partículas”, agora conhecidas como genes.” [265]
No conceituado livro de ensino chamado “Biology” deixa-se mais claro essa relação entre o trabalho de George Mendel e o de Darwin:
“Uma premissa na qual Darwin baseou sua teoria científica da evolução pela seleção natural é que os indivíduos transmitem traços para a próxima geração. No entanto, Darwin foi incapaz de explicar como isso funciona ou porque os indivíduos variam dentro de uma população (…) Gregor Mendel elucidou os padrões básicos de herança. Darwin, que era contemporâneo de Mendel, aparentemente não estava familiarizado com o trabalho de Mendel (…) A partir dos anos 1930 e 1940, os biólogos experimentaram um avanço conceitual quando combinaram os princípios da herança mendeliana com o princípio da seleção natural de Darwin. O resultado foi uma explicação unificada da evolução conhecida como síntese moderna.” [266]
George Mendel (1822-1884)
Após isso é explicado como a síntese moderna evolutiva, desenvolvida com o trabalho de Darwin e do monge Mendel, trata certos temas da evolução e como ela é uma das mais fortes evidências para a evolução das espécies atualmente:
“Hoje, a síntese moderna incorpora nosso conhecimento em expansão na genética (que por si só é um caso irrefutável para a evolução), sistemática, paleontologia, biologia do desenvolvimento, comportamento e ecologia. A síntese moderna explica a observação de Darwin da variação entre os descendentes em termos de mutação, ou mudanças no DNA, tais como substituições de nucleotídeos. As mutações fornecem a variabilidade genética na qual a seleção natural atua durante a evolução. A síntese moderna, que enfatiza a genética das populações como o foco central da evolução, tem se mantido bem desde que foi desenvolvida. Tem dominado o pensamento e a pesquisa de biólogos que trabalham em muitas áreas e resultou em um enorme acúmulo de novas descobertas que validam a evolução por meio de uma seleção natural.” [267]
Mudar a consciência da idade da Terra e dos registros fósseis ajudou no desenvolvimento da teoria evolucionária.[268] O trabalho do cientista dinamarquês Nicolas Steno (1638-1686), que se converteu ao catolicismo e se tornou bispo,[269][270][271] ajudou a estabelecer a ciência da geologia, levando a medições científicas modernas da era da Terra.[272][273][274]
A história também revela que um dos primeiros defensores da teoria evolutiva na comunidade científica americana foi um botânico e também um devoto cristão protestante chamado Asa Gray.[275][276][277] Ele era um professor de história natural em Harvard [210] e foi um dos mais importantes botânicos do século XIX.[278][279][280][281] De acordo com o PhD em história Scott Culpepper:
“Gray realizou extensas viagens ao longo de sua carreira, coletando espécimes botânicos de todo o mundo. Ele era conhecido no campo por sua comparação da flora norte-americana com amostras da Ásia. A notação de Gray de suas semelhanças era muitas vezes referida como a “Disjunção de Asa Gray”.” [282]
Segundo o historiador da ciência A. Hunter Dupree:
“O principal botânico norte-americano do século XIX, Asa Gray, ajudou a organizar as principais generalizações da ciência da geografia vegetal. O manual de botânica que leva o seu nome ainda está em uso hoje. Amigo e confidente de Charles Darwin, Gray tornou-se o protagonista americano mais persistente e eficaz dos pontos de vista de Darwin. No entanto, ao mesmo tempo, ele acreditava que a religião e a teoria da seleção natural de Darwin poderiam coexistir.” [283]
Em relação a teoria da evolução o biólogo Ernst Mayr diz que “Asa Gray adoptou-o de todo o coração e defendeu-o em cartas, em ensaios e em debates públicos” [284]
Em seu livro “Encyclopedia of Evolution”, o professor de história Stanley A. Rice disserta sobre o papel de Asa Gray durante o aparecimento da teoria de Darwin na América do Norte:
“Asa Gray foi um dos primeiros defensores da evolução darwiniana nos Estados Unidos. Ele era representante de um grande número de cientistas e teólogos ingleses e americanos que aceitavam a ciência evolucionária enquanto mantinham suas crenças cristãs tradicionais. (…) Gray era o representante dos estudiosos cristãos que abraçaram a ciência darwiniana não apenas por causa da proeminência de Gray, mas também porque ele era um correspondente pessoal de Charles Darwin, mesmo antes da publicação das Origens das Espécies.” [285]
Em uma carta para Asa Gray, Charles Darwin escreve que “quase não há ninguém no mundo cuja aprovação eu valorize mais do que a sua.” [286] Os dois trocaram mais de 300 cartas entre 1854 e 1881.[287]
Asa Grey (1810-1888)
Darwin em uma carta para John Fordyce disse “me parece absurdo duvidar que um homem pode ser um teísta fervoroso e um evolucionista”.[288] Asa Gray dizia que “o próprio Deus é o último fator causal irredutível e, portanto, a fonte de toda mudança evolutiva”.[289] Essa devoção a fé cristã se mostrou ao longo de sua vida. Segundo o professor Gerhard Wichler:
“A fé de Asa Gray era simples e forte. Ele frequentava regularmente o serviço divino aos domingos; neste dia ele nunca trabalhava em experimentos botânicos, mas apenas lia literatura séria, especialmente livros sobre filosofia e religião. Quando viajava, o domingo era sempre um dia de descanso; se ele achava impossível ir à igreja, ele próprio mantinha um serviço para seus parentes e amigos.” [290]
Culpepper finaliza dizendo que:
“Gray e sua esposa Jane eram presbiterianos que frequentavam a Primeira Igreja em Cambridge, onde Gray era um diácono. Ele era um crente firme que acreditava na inerente compatibilidade entre a investigação científica e a fé ortodoxa.” [291]
Atualmente muitos teólogos e cientistas famosos veem uma compatibilidade entre evolução e o cristianismo. Entre os protestantes podemos citar: N.T Wright,[292] William Lane Craig,[293] Francis Collins,[294] C.S Lewis,[295] Ted Davis,[296] Alister Mcgrath[297]
Um dos maiores geneticistas da atualidade é o americano Francis Collins[298], ele foi o diretor do Projeto Genoma Humano,[299][300] e atualmente é o diretor da National Institutes Health, um departamento de pesquisa de medicina dos Estados Unidos. Em sua página oficial na internet, a National Institutes Health nos diz que:
“Collins supervisiona o trabalho do maior defensor da pesquisa biomédica no mundo, abrangendo desde o básico até a pesquisa clínica. O Dr. Collins é um médico-geneticista conhecido por suas descobertas marcantes de genes de doenças e sua liderança do Projeto Genoma Humano Internacional, que culminou em abril de 2003 com a conclusão de uma seqüência acabada do livro de instruções do DNA humano. Ele atuou como diretor do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano no NIH de 1993-2008. Antes de vir para o NIH, o Dr. Collins era um investigador do Instituto Médico Howard Hughes na Universidade de Michigan. Ele é um membro eleito da Academia Nacional de Medicina e da Academia Nacional de Ciências, foi premiado com a Medalha Presidencial da Liberdade em novembro de 2007, e recebeu a Medalha Nacional da Ciência em 2009.” [301]
Francis Collins (1950-)
Atualmente o laboratório do Dr. Collins tem como objetivo “procura identificar e compreender a função dos genes envolvidos em uma série de doenças humanas, raras e comuns, com o objetivo final de identificar novas oportunidades terapêuticas.” [302] Collins foi reconhecido também por ser um devoto da fé cristã e isso o levou a escrever um livro chamado “A Linguagem de Deus”. Neste livro ele contou sobre a sua conversão e detalhou a sua visão sobre a relação entre a ciência e o cristianismo. Sobre a evolução, ele escreve que:
“Para povoar este universo antes estéril com criaturas vivas, Deus escolheu o mecanismo distinto da evolução para criar micróbios, plantas e animais de todos os tipos. O mais extraordinário é que ele escolheu, propositadamente, o mesmo mecanismo para originar criaturas especiais que teriam inteligência, conhecimento de certo e errado, livre-arbítrio e desejo de afinidade com Ele. Deus também sabia que esses seres, ao fim, optariam por desobedecer à Lei Moral.” [303]
Sobre o Big-Bang, ele também argumenta que:
“O Big Bang grita por uma explicação divina. Obriga à conclusão de que a natureza teve um princípio definido. Não consigo ver como a natureza pôde ter-se criado. Apenas uma força sobrenatural, fora do tempo e do espaço, poderia tê-la originado.” [304]
Collins também criou um dos maiores grupos sobre a comunhão entre a evolução e o cristianismo que se chama BioLogos,[305] com centenas de artigos referente ao assunto e mostrando que não há conflito entre os dois temas.[306] Um outro grupo, de origem brasileira, é a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ou simplesmente ABC²) que frequentemente publica artigos traduzidos e faz palestras sobre a evolução e a relação com a fé cristã.[307][308]
Entre os católicos podemos citar o PhD em teologia John F. Haught[309] que recebeu os prêmios 2002 Owen Garrigan Award in Science and Religion e o 2004 Sophia Award for Theological Excellence[310][311] referente ao seu trabalho sobre a evolução e o seu significado na teologia católica. Outro teólogo e filósofo proeminente no assunto é Edward Fesser, com publicações declarando a relação teológica católica com a evolução.[312]
A encíclica do Papa Pio XII de 1950, Humani generis, foi a primeira encíclica a se referir especificamente à evolução, e assumiu uma posição neutra, novamente concentrada na evolução humana:
“a Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os dogmas da fé.” [313]
Em 22 de outubro de 1996, na Pontifícia Academia de Ciências, o papa João Paulo II atualizou a posição da Igreja de aceitar a evolução do corpo humano:
“Na sua encíclica Humani generis (1950), o meu predecessor Pio XII já afirmou que não há conflito entre a evolução e a doutrina da fé em relação ao homem e à sua vocação, desde que não percamos de vista certos pontos fixos. (…) Hoje, mais de meio século após o aparecimento dessa encíclica, algumas novas descobertas nos levam ao reconhecimento da evolução como mais do que uma hipótese. De fato, é notável que essa teoria tenha exercido progressivamente maior influência sobre o espírito dos pesquisadores, após uma série de descobertas em diferentes disciplinas acadêmicas. A convergência nos resultados desses estudos independentes – que não foram planejados nem buscados – constitui em si um argumento significativo em favor da teoria.” [314]
Bento XVI falou sobre “a unidade interna entre criação e evolução e fé e razão” e que esses dois domínios do conhecimento são complementares e não contraditórios:
“Não podemos dizer: criação ou evolução, na medida em que essas duas coisas respondem a duas realidades diferentes. A história do pó da terra e o sopro de Deus, que acabamos de ouvir, não explica de fato como as pessoas humanas se tornam, mas sim o que elas são. Explica sua origem mais íntima e lança luz sobre o projeto que eles são. E, vice-versa, a teoria da evolução procura entender e descrever desenvolvimentos biológicos. Mas, ao fazê-lo, não pode explicar de onde vem o “projeto” de pessoas humanas, nem sua origem interna, nem sua natureza particular. Nessa medida, estamos diante de duas realidades complementares – e não mutuamente exclusivas. – Cardeal Ratzinger, no início: uma compreensão católica da história da criação e da queda” [315]
Em julho de 2007, em uma reunião com o clero, o Papa Bento XVI observou que o conflito entre “criacionismo” e evolução (como um achado da ciência) é “absurdo:”
“Atualmente, vejo na Alemanha, mas também nos Estados Unidos, um debate feroz entre o assim chamado “criacionismo” e o evolucionismo, apresentado como se fossem alternativas mutuamente exclusivas: aqueles que acreditam no Criador não seriam capazes de conceber da evolução, e aqueles que apoiam a evolução teriam que excluir Deus. Essa antítese é absurda porque, por um lado, há tantas provas científicas em favor da evolução que parece ser uma realidade que podemos ver e que enriquece nosso conhecimento da vida e do ser como tal. Mas, por outro lado, a doutrina da evolução não responde a todas as perguntas, especialmente à grande questão filosófica: de onde tudo vem? E como tudo começou o que levou ao homem? Eu acredito que isso é da maior importância.” [316]
Em 27 de outubro de 2014, o papa Francisco fez um pronunciamento na Pontifícia Academia das Ciências que “A evolução na natureza não é incompatível com a noção de criação”, advertindo contra o ato de criação de Deus como “Deus [sendo] um mágico com uma varinha mágica capaz de fazer tudo.” [317][318][319]
Papa Francisco (1936-)
O Papa também expressou na mesma declaração a visão de que explicações científicas como o Big Bang e a evolução de fato requerem a criação de Deus:
“[Deus] criou seres e permitiu que eles se desenvolvessem de acordo com as leis internas que ele dava a cada um, para que eles pudessem se desenvolver e chegar à plenitude do seu ser. Deu autonomia aos seres do universo ao mesmo tempo em que lhes assegurava sua presença contínua, dando ser a toda realidade. E assim a criação continuou por séculos e séculos, milênios e milênios, até que se tornou o que conhecemos hoje, precisamente porque Deus não é um demiurgo ou um mago, mas o criador que dá o ser a todas as coisas. (…) O Big Bang, que hoje é colocado como a origem do mundo, não contradiz o ato divino de criar, mas requer isso. A evolução da natureza não contrasta com a noção de criação, pois a evolução pressupõe a criação de seres que evoluem.”[320]
• Conclusão
“Grandes são as obras do Senhor, dignas de admiração de todos os que as amam.”
— Salmos, 110:2.
Muito ainda poderia ser dito sobre o assunto, mas o que foi apresentado aqui demonstra que ciência está muito longe de ser inimiga do cristianismo, para a infelicidade de muitos ateus. Deus deixou claro o Seu poder na criação e toda ela pode ser contemplada pelos olhos humanos. A glória de Deus brilha através da arquitetura do nosso universo. Como é visto no livro de Salmos:
“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.”
— Salmos 19:1,2
E também nas palavras do Apóstolo São Paulo:
“Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (…)
— Romanos 1:20
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[142] Ibid., p. 80.
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[148] Ibid., p. 292.
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[151] Ibid., p. 47.
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[201] BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do cristianismo. Tradução de Neuza Capelo. Curitiba: Editora Fundamento, 2012, p. 30.
[202] PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind – a Medical History of Humanity from Antiquity to the Present. New York: Harper Collins, 1997, p. 86.
[203] Ibid.
[204] Ibid., p. 87.
[205] BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do cristianismo. Tradução de Neuza Capelo. Curitiba: Editora Fundamento, 2012, p. 31.
[207] PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind – a Medical History of Humanity from Antiquity to the Present. New York: Harper Collins, 1997, p. 87.
[208] WINDSOR, L. L. Women in Medicine: An Encyclopedia. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2002, p. 75.
[209] HARDMAN, Lizabeth. The History of Medicine. Farmington Hills: Lucent Books, p. 47.
[211] PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind – a Medical History of Humanity from Antiquity to the Present. New York: Harper Collins, 1997, p. 88.
[212] Ibid.
[213] Ibid.
[214] BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do cristianismo. Tradução de Neuza Capelo. Curitiba: Editora Fundamento, 2012, p. 86.
[216] STEAD, Julian. Saint Benedict, A Rule for the Beginners. 6. ed. New York: New City Press, 2011, p. 14.
[217] PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind – a Medical History of Humanity from Antiquity to the Present. New York: Harper Collins, 1997, p. 111.
[218] Ibid.
[219] RISSE, G. B. Mending Bodies, Saving Souls: A History of Hospitals. New York: Oxford University Press, 1999, p. 95.
[220] PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind – a Medical History of Humanity from Antiquity to the Present. New York: Harper Collins, 1997, p. 112.
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[237] KEPLER, Johannes. The Harmony of the World. Traduzido por E. J. Aiton, A. M. Duncan, e J.V Field. Philadelphia: American Philosophy Society, 1997, p. xiii.
[238] Ibid., p. 450.
[239] VOELKEL, J. R. Johannes Kepler And the New Astronomy. New York: Oxford University Press, 1999, p. 20.
[240] BARKER, Peter.; GOLDSTEIN, B. R. Theological Foundations of Kepler’s Astronomy. Osiris, Volume 16: Science in Theistic Contexts, University of Chicago Press, 2001, p. 113.
[241] Ibid., p. 32.
[242] WOODS, Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. 9. ed. São Paulo: Quadrante, 2008, p. 106.
[243] UDIAS, Agustin. Searching the Heavens and the Earth: The History of Jesuit Observatories. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2013, p. 50.
[244] HEILBRON, J. L. The Oxford Companion to the History of Modern Science. New York: Oxford University Press, 1999, p. 128.
[245] Ibid.
[246] WOODS, Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. 9. ed. São Paulo: Quadrante, 2008, p. 106-107.
[247] Ibid., p. 108.
[248] HEILBRON, J. L. The Sun in the Church. Cambridge: Harvard University Press, 1999, p. 3.
[259] ETHERIDGE, Alison. Some Mathematical Models from Population Genetics: École D’Été de Probabilités de Saint-Flour XXXIX-2009, Berlin: Springer, 2012, p. 1.
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